COMPORTAMENTO
10/05/2018 12:07 -03 | Atualizado 11/05/2018 00:27 -03

Este projeto de inteligência artificial quer dar uma 'cara' para a corrupção no Brasil

Se todo os recursos desviados dos cofres públicos fossem somados, o valor seria em torno de R$ 200 bilhões perdidos por ano.

Divulgação/Ogilvy
O sr. Ricky Brasil é a "cara" da corrupção no País.

Se todo os recursos desviados dos cofres públicos em esquemas de corrupção no País fossem somados, o valor seria em torno de R$ 200 bilhões (US$ 61 bilhões) perdidos por ano.

E se todo esse montante fosse para a conta corrente de uma única pessoa, ela seria dona da 8ª maior fortuna do mundo, de acordo com a Lista dos Bilionários Forbes de 2018.

Mas quem seria esse bilionário?

Ao pensar em como dar uma "cara" para a corrupção do Brasil, a revista Forbes Brasil, a agência Ogilvy e a empresa de tecnologia Nexo criaram, por meio de uma ferramenta de inteligência artificial, o personagem Ricky Brasil.

Sem um diploma formal, o empresário se intitula como um "aproveitador de oportunidades". Para ele, o governo é o melhor cliente de suas empresas. Mas assegura que não tem predileção por nenhum partido político, afinal, joga conforme o jogo. Quando é questionado sobre temas mais diretos, como o pagamento de propina e o de caixa dois, o empresário tangencia e desliza em suas respostas.

Com base nas entrevistas e depoimentos de alguns dos principais condenados nas operações Mensalão e Lava Jato, a equipe responsável pelo projeto criou uma base de dados para dar "vida" à inteligência artificial buscando refletir os estereótipos da corrupção no País.

O HuffPost Brasil entrevistou a inteligência artificial sobre a corrupção no País, o futuro da política e da economia. Veja os principais trechos:

HuffPost Brasil: Como você se tornou um empresário de sucesso?

Sr. Ricky Brasil: Não tenho uma profissão tradicional. Fiz vários cursos. Tentei administração, economia, contábeis, mas nunca terminei nenhum. Não há escola para o que eu faço. Sou um empreendedor autodidata. Tive que aprender sozinho. Precisei estudar muito para entender o funcionamento das instituições no Brasil. Mas, deu tudo deu certo, como você pode ver.

De onde vem toda a sua riqueza?

Bom, eu enriqueci trabalhando. Abrindo negócios, fechando outros. Falhando. Acertando. Fazendo alguns favores, cobrando outros, como todo mundo. Sou o que você pode chamar de um empresário oportunista. Enriqueci porque aproveitei todas as oportunidades que apareceram.

Você acha que existe limite para o enriquecimento?

Essa pergunta é difícil. Um bilionário pensa diferente das pessoas comuns. Não existe um limite para quanto a gente tá disposto a ganhar e a perder. Isso porque não há risco desnecessário. Mas depende muito da área em que você atua. Temos bilionários de ocasião, que ganharam dinheiro sem ter feito praticamente nada, como os do bitcoin. Temos os bilionários inovadores, que é essa geração da internet, redes sociais. Temos os bilionários das empresas tradicionais, que vem de longas histórias de famílias empreendedoras. Mas eu não me enquadro em nenhuma dessas categorias. Sou um bilionário oportunista. Aproveitei todas as oportunidades de crescer, nas diversas áreas em que atuei, sempre com foco nos relacionamentos que construí. Não temos tantos bilionários assim. É uma área com oportunidades quase infinitas.

Qual é a sua maior inspiração?

Infelizmente, as pessoas que eu mais admiro já morreram. Pensadores, filósofos, figuras públicas, tanto que meu livro de cabeceira a anos é "O Príncipe". Mas não quero listar aqui os nomes para não ficar mal-interpretado. Oficialmente, minha resposta pode ser "minha família". Vamos com essa?

Em que tipo de negócio sua empresa investe?

Por muito tempo, a área de construção foi a que deteve maior participação em meus negócios. Mas com a crise financeira de 2009, e os escândalos de corrupção, esse setor começou a encolher. A supersafra fez crescer o agronegócio como principal gerador de receita. Mas vejo muita expectativa na indústria para este ano. Para o futuro, eu tô apostando no crescimento das áreas de distribuição, varejo, transportes, tecnologia, e até mesmo mercado financeiro.

Em quais tipos de contratos a sua empresa tem interesse com o governo?

Os governos são, geralmente, os maiores compradores em diversos setores. Além de clientes, são eles que determinam as políticas econômicas e crédito, fundamentais para a expansão dos negócios de praticamente todos os empresários. Essa relação entre o setor produtivo e os governos é uma das bases da nossa economia. Não é possível ter uma separação total. Eu mesmo, tenho vários deles no speed dial do meu celular.

Você tem muitos contatos com os partidos políticos?

Minha relação com políticos sempre foi muito boa. Tenho acesso para ser recebido pelo político que eu quiser. O que é algo normal, tamanha a importância de meus negócios. Faço relações institucionais com os governos, para o desenvolvimento de meus negócios e defesa de meus interesses. Desenvolvo parcerias com políticos e governos. Estou à disposição do meu país. Ajudei eles a se elegerem, eles nos ajudam a aprovar o que precisamos. Tudo dentro da lei, claro. Mas não vamos confundir, não sou amigo de políticos.

Você vai apoiar algum partido nestas eleições?

É bom eu deixar claro que não sou e esquerda, nem direita. Da situação, ou da oposição. Da bancada x ou da bancada y. Meu envolvimento com os partidos é estritamente profissional, visando o aprimoramento de meus negócios e consequente desenvolvimento do Brasil.

O que você pensa da propina?

Olha... prefiro não opinar sobre esse assunto. Mas digo o seguinte, já fui muito abordado por gente que queria um favorzinho aqui, uma ajudinha ali, uma contribuição acolá... Mas você sabe. É melhor não citar nomes aqui.

O que você acha do caixa dois?

Veja bem... acho indelicado expor a minha opinião, assim em público. Pode me trazer problemas e eu sobrevivo da minha reputação para garantir a confiança dos meus parceiros de negócios. Então, vamos pra próxima pergunta?

O que você pensa das doações para campanhas eleitorais?

Olha, acho que foi desnecessário proibir doações de empresas em eleições. É pior, vai ter muito mais caixa 2. Vai por mim. Quem quer fazer, faz. Além disso, acho que foi um desrespeito com as empresas que ajudam o governo a melhorar o país. O ideal seria que essas empresas, não só as minhas, pudessem continuar influenciando os rumos do país, sejam como pessoa física ou jurídica.

E da Operação Lava Lato?

Realmente, essa operação me parece inédita no Brasil e no combate à corrupção. Nunca se viu tanta condenação, tanto mandato de busca cumprido, tanta prisão. Onde já se viu mais de cem pessoas condenadas por corrupção? Tudo que eu sei sobre a operação eu acompanhei pela TV. Acho que agora que começaram a caçar os corruptos, duas coisas podem acontecer. Ou as pessoas vão roubar menos, com medo de serem pegos. Ou quem rouba vai estudar novos meios de sair ileso. Pessoalmente, tô muito curioso pra saber o que vão fazer com os bilhões recuperados.

Você faria uma delação premiada?

Olha, no meu ponto de vista a delação premiada tem vantagens e desvantagens. Algumas vantagens são, por exemplo, revelar quem mais cometeu crimes, a hierarquia de uma organização criminosa, a recuperação de bens e dinheiro desviados, etc. Agora, sobre desvantagens eu vejo que, por exemplo, você pode delatar alguém que pode ser inocente, mas que está atrapalhando o crime. Eu acho que para delatar pessoas você tem que tá preparado para as consequências. Eu, por exemplo, não entraria nessa.

É possível acabar com a corrupção no Brasil?

Bem... por definição a palavra corrupção vem do latim corruptus, que significa quebrado em pedaços. Por isso, sempre que uma pessoa ou instituição "quebra a lei" ou se utiliza de seu poder ou autoridade para obter vantagens, ela está agindo de forma corrupta. Agora, trazendo pra nossa realidade, eu acho que a corrupção no Brasil tá longe de acabar. Até porque eu acho que ela já faz parte da nossa cultura, do nosso jeitinho brasileiro. Infelizmente, o país desceu 17 posições no índice de percepção de corrupção. Nossa população tá parece estar perdendo a fé no nosso sistema.

Na sua empresa trabalha alguns dos seus familiares?

Boa parte da minha família participa dos meus negócios. Eu sei que muita gente critica esse modelo, chama de nepotismo, favoritismo, diz que é contra a meritocracia. Pode ser sim, e daí? Eu protejo os meus familiares, amigos, companheiros e parceiros. A fidelidade é um dos pilares dos meus negócios. No governo, já é outra história. Eu, pessoalmente, acho frescura. Mas, tem uma lei. Tem que seguir.

O senhor acredita que as leis no Brasil ajudam o empresário a enriquecer?

As leis do Brasil deveriam favorecer mais os empresários, hoje somos punidos por ganhar dinheiro e gerar empregos. Você tem ideia o quanto é complicado abrir uma empresa no Brasil? Fechar então, é quase impossível. Admito que isso nunca me prejudicou realmente, pois uma burocracia às vezes até ajuda. Mas admito que para empresários que são mais caxias, a burocracia atrapalha sim.

O que ainda falta para o Brasil ser uma potência na economia global?

A economia brasileira está pagando caro pelo abandono da agenda de mudanças estruturais de impacto. O governo precisa ouvir os empresários. Além da reforma trabalhista é urgente que façamos a reforma da previdência, custe o que custar, além da reforma tributárias. Essas são as emergenciais. Se conseguirmos avançar em curto prazo com as reformas política e do judiciário, melhor ainda.

O que você pensa das cotas para universidades públicas?

Na minha opinião estamos criando uma nova forma de racismo, em vez de oportunidade. A intensão é do bem, mas será essa a melhor forma? Por isso, sou contra as cotas raciais. Aliás, sou contra até as cotas econômicas. Brancos pobres também têm potencial de lutar para sair da miséria. Se eu consegui, eles podem conseguir também.

E dos programas sociais?

O bolsa família é um programa ineficiente. Deveríamos chamá-lo de "bolsa-esmola", uma vez que o programa não só não acaba com a pobreza, afinal, quem sai da pobreza com uma renda média de 300 reais. Mas ele ajuda sim a criar vagabundos. As pessoas preferem ficar sem trabalho honesto quando o valor é semelhante ao do bolsa família.

Você acredita que o feminismo é importante?

Quero registrar aqui que eu acho importante o espaço que a mulher está conquistando na política do Brasil. Acredito que a cada eleição que passa, está ficando cada vez mais equilibrado. Mas, entrando mais a fundo sobre o papo de feminismo... aí eu prefiro ficar distante desse debate. Qualquer opinião que eu der aqui vai abrir espaço para ser mal-interpretado. Por mim podemos voltar para economia e política.

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