07/05/2018 11:00 -03 | Atualizado 09/05/2018 19:48 -03

Débora Otunolá: A mina que descobriu nos cabelos a força de ser uma mulher negra

Aos 32 anos, Débora é organizadora da Marcha do Orgulho Crespo em Porto Alegre: "Mas o nosso cabelo cresce para cima é assim que é. Como uma coroa", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Debora Otunolá é a 61ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

A revolução, para Débora Otunolá, de 32 anos, começou pelos cabelos. A decisão de deixar de usar qualquer químico nos fios foi apenas a porta de entrada - ou seria de saída? - para um mundo de descobertas e reconstruções, interiores e exteriores: quem ela é; o que representa; de onde veio e, principalmente, a pergunta: como impactar de forma positiva a sociedade em que sua filha vai crescer?

"Minha mãe começou muito cedo com química, pente quente, trancinhas 'megapuxadas'. Não lembro como era meu cabelo natural quando criança", conta. Há cinco anos, Débora iniciou a chamada transição capilar, que tem esse nome bonito porque é muito mais do que uma opção estética: é uma opção política, que leva tempo e paciência. "Cortei bem curto para deixar crescer o cabelo natural. Em seguida, engravidei, e pensei: agora eu sou referência para alguém, seja guri ou guria. Lembrava da minha experiência na infância, do couro cabeludo queimado", relembra.

Usar o cabelo natural é um ato político.

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Para Debora, hoje, seu cabelo é como uma coroa que mostra seu lugar de rainha na ancestralidade.

A gestação foi um gatilho que fez Débora refletir sobre sua hereditariedade e qual legado queria deixar para sua filha, Aderemi Vitória, hoje com três anos e nenhum produto químico nos cabelos. "Minha mãe ainda pergunta quando eu vou 'dar um jeito' no cabelo dela. Para uma pessoa de mais de 60 anos, o cabelo para cima é desajeitado. Mas o nosso cabelo cresce para cima é assim que é. Como uma coroa".

Foi assim que Débora explicou para Aderemi por que seu cabelo é diferente do das colegas na escola. "Quando ela disse: 'mãe, eu quero um cabelo que cresce para baixo', eu percebi: ela não está se identificando. E aí eu entendi a minha mãe".

Minha mãe ainda acha que eu deveria sentar todo domingo com minha filha e fazer aquelas trancinhas bem puxadas que doem horrores.

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A ideia de que o cabelo crespo é "ruim", "não presta", e "é feio" não existe na cabeça de Debora. E ela quer que mais mulheres entendam isso também.

Em iorubá (idioma original do oeste africano), o nome da pequena significa "amparada pela coroa do rei". Otunolá, sobrenome adotado por Débora em substituição ao Rosa Santos de batismo, quer dizer "a nova riqueza e honra". "Utilizar os nomes africanos é resgatar a identidade que nos foi tirada. Nome também é um agente de transformação".

Em vez de histórias como a da princesa "Bela Adormecida", Aderemi ouve histórias da literatura afro - como Meninas Negras, de Maria do Carmo Ferreira Costa. "São contos sobre a criação do mundo sob a perspectiva da matriz africana, que é bem diferente da eurocêntrica a que nos acostumamos", aponta Débora. Aluna de uma escola particular, Aderemi é a única negra em sua turma, e uma das únicas em todo colégio.

No dia em que a atividade das crianças envolvia pintar a mão de tinta branca para carimbar o "limpo", e pintar a mão com tinta preta para identificar o "sujo", Débora foi até a escola questionar a equipe pedagógica. A conversa, felizmente, foi construtiva. "Até me pediram mais referências [de material didático]", conta.

Os professores do curso de psicologia, que cursa no momento, também a vêem como uma referência. Débora faz questão de buscar e levar para as aulas autores negros fora da bibliografia, como Virgínia Bicudo, a primeira psicanalista não-médica do Brasil, e a psiquiatra Neusa Santos Souza.

A gestação foi um gatilho para entrar nos movimentos. Não quero que minha filha passe por tudo isso, mas sei que racismo e machismo não vão acabar na geração dela.

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Há cinco anos, Débora iniciou a transição capilar, que tem esse nome bonito porque é muito mais do que uma opção estética.

Além de mãe e estudante universitária, Débora também é técnica em enfermagem. E suas atividades não se resumem a isso. Desde 2015, é uma das coordenadoras da Marcha Nacional do Orgulho Crespo em Porto Alegre, e ainda: é educadora social do projeto Ori Inu, onde ministra quinzenalmente oficinas para crianças de 6 a 12 anos de uma comunidade; é apresentadora do programa Orgulho Crespo, todas as quartas-feiras na web rádio Reação; e membro da Rede Nacional Afrobrasileira de Saúde (Renafrosaúde RS), um movimento de articulação junto a governos para sensibilizar para o atendimento médico para comunidades negras ligadas a terreiros.

A gente não está nos mesmos espaços, mas está todo mundo na rede social reclamando que outros estão ocupando nossos espaços. Então temos de sair do ativismo de rede social.

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"A capoeira é a metáfora da vida. Tem horas que tu leva uma rasteira, mas a opção é levantar", afirma.

Ela ainda encontra tempo para praticar capoeira e faz isso há mais de cinco anos. Descobriu, na capoeira angola, mais uma ferramenta de conexão com a matriz civilizatória africana. Começou a praticar graças a uma bolsa concedida pela escola e nunca mais parou. "A capoeira é a metáfora da vida. Tem horas que tu leva uma rasteira, mas a opção é levantar. Se não cair, como se aprende a levantar?".

Não fomos escravos. Fomos escravizados.

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No projeto "Através do Espelho" Debora consegue fazer com que a mensagem de beleza e empoderamento chegue a mais meninas e mulheres.

Há cerca de um ano, Débora optou por usar dreadlocks, uma tradição entre antigas civilizações da Índia, do Egito e da África. No leste africano, esse penteado era usado por guerreiros para intimidar os inimigos, mas também é, para Débora, uma "expressão de pureza, não-violência e de luta contra o sistema".

A Marcha do Orgulho Crespo em Porto Alegre terá sua quarta edição em novembro de 2018. Na estreia, lembra Débora, a percepção geral foi de que era um movimento apenas estético. E hoje é um ato de expressão cultural em sua forma mais ampla, que reúne quase 2 mil pessoas nas ruas de Porto Alegre. Em 2017, as organizadoras da Marcha criaram o projeto Através do Espelho, para promover o conhecimento e a discussão da história negra ao longo do ano inteiro. Há rodas de conversa com crianças, e até sobre cabelo.

"As crianças [negras] às vezes não se vêem nos professores, não se vêem nos colegas, chegam na universidade e pensam 'esse lugar não é para mim'. A gente quer falar das mortes, do preconceito, mas de uma forma não tão dolorida. Queremos mostrar a alegria que temos, apesar da dor, da batalha diária. E que a Marcha seja um momento de festejar o construído ao longo do ano, e não falar só das nossas dores", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC