ENTRETENIMENTO
05/05/2018 17:31 -03 | Atualizado 11/05/2018 10:37 -03

O verdadeiro Jeffrey Wright, 'aquele cara' de todas as séries da HBO

Ele é “aquele androide” de 'Westworld' também, mas é provável que você não saiba nada sobre o sr. Wright.

Photo illustration: Gabriela Landazuri/HuffPost; Photos: Alamy, HBO, Getty Images

Quando Jeffrey Wright voltou ao set seis meses depois da gravação do piloto de Westworld, série de ficção científica da HBO, ele guardava um segredo importante.

Wright tinha acabado de descobrir que seu personagem, Bernard Lowe, o reservado chefe da divisão de programação de Westworld e guardião de todos os robôs do parque de diversões futurista inspirado no Velho Oeste, era um androide. Como os robôs que ele vinha monitorando ao longo da primeira temporada da série, Bernard não era humano, como o roteiro dava a entender. Na realidade, ele é uma criação do cabeça de Westworld, o dr. Robert Ford (Anthony Hopkins), e modelado para parecer seu antigo parceiro, Arnold Weber.

Esse segredo influenciou cada detalhe da performance de Wright na primeira temporada – sem que seus colegas soubessem de nada. Em uma cena com Rachel Wood, que faz o papel da anfitriã robótica mais antiga do parque, Dolores Abernathy, Wright calmamente pergunta: "Você lembra da nossa última conversa, Dolores?". Ela olha para ele docemente e responde: "Sim, é claro". Na época, Wood achava que era apenas uma conversa típica de programação entre sua personagem e Bernard. No fim da temporada, entretanto, a atriz deu-se conta de que estava atuando em várias linhas do tempo diferentes – e que Wright às vezes estava interpretando Bernard e às vezes, Arnold. Pequenas diferenças na personalidade e no figurino de Wright, e também nos cenários, esconderam esse detalhe.

"Ninguém sabia até receber o roteiro do sétimo episódio, e aí comecei a receber um monte de mensagens de texto", me disse Wright no Festival de Sundance, no início deste ano. "As pessoas ficaram passadas porque eu escondi esse segredo durante meses."

"Mandei uma mensagem [dizendo]: 'Você! Você! Como você fez isso? Como manteve isso em segredo de todo mundo?'", disse o ator Luke Hemsworth, que faz o papel do segurança Ashley Stubbs. "Tem várias pistas e segredos escondidos, e aí você percebe: 'Ah, agora entendi o por quê disso' ou 'É por isso que Jeffrey fez aquilo!' ... Não tem um gesto ou movimento dos olhos que não faça sentido quando você assiste as cenas de novo."

"Estava trabalhando com Jeffrey por meia temporada e descubro isso. Disse: 'Você sabia?!'", diz Wood. "Você descobre que essas pessoas com quem trabalha todo dia, pessoas que você adora, estão guardando segredo!"

Jeffrey tem essa intensidade... E ele não está fingindo. Ele não parece precisar de muita coisa, e isso, sei lá, me excita." - Mary-Louise Parker

Wright tem talento para atiçar a curiosidade alheia. Antes de conhecê-lo, associava o ator aos personagens soturnos e intelectuais que ele interpretou na TV e no cinema – como Bernard, que está sempre de colete e circulando em laboratórios. No dia de nossa entrevista, ele não parecia nada com Bernard. Wright estava de boné e uma jaqueta de zíper, fumando um cigarro eletrônico e dando risada. Tínhamos fugido da neve que soterrava as calçadas de Park City e estávamos num lounge de uma marca de vodca, onde ele dava risada da ignorância de seus colegas sobre Bernarnold. Wright considerou cada pergunta antes de começar a responder.

Fora das telas, foi fácil entender por que ele é o coringa da HBO, o tipo de ator que pode entrar e sair de qualquer narrativa, moldando-se em vários tipos de coadjuvantes densos.

Westworld é o sexto projeto de Wright com o canal pago, que tornou-se na prática a casa do artista na TV. Sua primeira aparição no canal foi como Martin Luther King Jr. em Boycott, de 2002, que venceu o prêmio Peabody por "recusar-se a permitir que a história ficasse esquecida no passado". Desde então, a HBO se recusa a largar o ator. Nos últimos 16 anos, ele estrelou a adaptação de Angels in America (2003), Lackawanna Blues (2005), a série inspirada na lei seca americana Boardwalk Empire (2013) e na cinebiografia de Anita Hill Confirmation (2016).

Agora ele é a cola que sustenta Westworld. E, depois de todo esse tempo, talvez também a HBO. Na tela, Wright é o tipo de ator que captura seu olhar no minuto que aparece em cena. Sua voz grave gera um quase-transe e coloca os telespectadores em um estado de meditação. Suas afetações são sutis, mas deliberadas, como um piso que range num filme de terror. Como dizem Bloys e outros, Wright é um ator de primeira linha.

"Jeffrey tem essa intensidade", disse Mary-Louise Parker, que atuou com ele em "Angels in America". "Não falei com ele sobre isso, mas acho que ele se inspira no intelecto. E ele não está fingindo. Ele não parece precisar de muita coisa, e isso", Parker faz uma pausa, procurando as palavras certas, "Sei lá, me excita", diz ela, rindo, pelo telefone.

"Ele é um cara super sexy, obviamente, mas não parece que ele precisa de muita coisa de você, e de fato ele não precisa. Mas ele tem muita coisa a oferecer, de suas experiências de vida e de suas ideias."

Esse sex appeal pode ser difícil de entender se você é fã do Jeffrey Wright que interpretou o vizinho de Bill Murray obcecado por mistérios em Flores Partidas, o gênio da eletricidade Beetee na franquia Jogos Vorazes, ou o parceiro de James Bond em Casino Royale e 007 – Quantum of Solace. A beleza de Wright é essa qualidade de camaleão, que lhe permite aparecer como nerd em um projeto e presidiário em outro. É a razão pela qual, diz Wright, ele não faz mais audições.

"Acho o seguinte: faço isso há 30 anos. Se um diretor não sabe o que consegue tirar de mim ou se ele ou ela querem trabalhar comigo com base no que já fiz, então não tem nada mais que eu possa dizer que eles já não saibam."

Neilson Barnard via Getty Images
Jeffrey Wright at the 2018 Sundance Film Festival in Park City, Utah.

Outra coisa que descobri sobre Wright em nosso encontro em Park City: ele é atleta. Jogou lacrosse na universidade (e tem até uma matéria na revista U.S. Lacrosse Magazine sobre ele), surfa frequentemente (com um dos irmãos Hemsworth) e faz em Utah o que a maioria das celebridades não conseguem porque estão ocupadas com o tapete vermelho: esquiar.

"Esquiei ontem", disse ele, "com uma mulher que mora aqui e é dublê em Westworld ... ela me arrastou pela montanha como um boneco de pano". Wright então passou a reclamar do seu joelho de 52 anos e a elogiar a habilidade de sua parceira de esqui em navegar as montanhas. Mas uma breve olhada na conta de Instagram de Wright prova que esse humor meio autodepreciativo é outro elemento da ilusão.

"Foi uma surpresa enorme pra mim [saber que] ele surfa", disse Hemsworth, "mas aí o conheci melhor e descobri que ele era skatista. Ele é um moleque animado de 12 anos quando está na praia. Quer surfar todos os dias, sejam ondas grandes ou pequenas, com vento ou não – a energia é contagiante."

Wright estava em Sundance para a estreia de Monster, no qual ele faz o papel de um adolescente chamado Steve Harmon (Kelvin Harrison Jr.), acusado erroneamente de um crime em uma loja de conveniência do Harlem. O filme falou alto para Wright, "pai de um rapaz moreno de 16 anos em Nova York, nos Estados Unidos." O ator, que Parker diz ser um "pai excelente", tem dois filhos com a ex-mulher, a atriz britânica Carmen Ejogo – Elijah e Juno. Eles moram no Brooklyn, Nova York.

"Quando estávamos filmando, parecia haver uma conversa muito mais produtiva sobre policiamento e relações entre polícia e comunidade, reforma do sistema judiciário e conversa bipartidária, então era a hora certa. Mas acho que é ainda mais urgente agora, porque essa conversa ficou em segundo plano em relação a pensamentos e ações politicamente retrógrados, particularmente no [Departamento da Justiça] e o ministro da Justiça", disse ele.

Wright está à vontade para falar do atual governo americano. Ele cresceu em Washington nos anos 1960 e 1970, com uma mãe que foi advogada da alfândega americana por mais de 30 anos. (Seu pai morreu quando ele era pequeno.)

"A responsabilidade dela era processar e determinar penalidades em certos casos. Se não me engano, ela foi a primeira negra, e segunda ou terceira mulher, a trabalhar para a alfândega americana", explicou Wright numa conversa por telefone este mês. Por acaso, ele estava com a mãe quando conversamos pelo telefone.

Ele passava muito tempo no escritório da mãe, lembrou Wright, fazendo lição de casa e esperando a hora de ela ir embora. O ator começou a entender o funcionamento do governo – um governo muito diferente do atual.

"A conversa sobre a natureza daqueles que trabalham no governo está contaminada por políticos que são péssimos atores. É muito mais provável que eles sejam corruptos ou corrompidos do que as pessoas cuja missão na vida é servir ao governo dos Estados Unidos", explica ele. "Não estou dizendo que seja o caso de todos, mas foi minha experiência quando eu era criança."

"Cresci naquele mundo de profissionais e pessoas com consciência política e, quando comecei a atuar, foi meio que uma mudança em relação ao que eu achava que seria meu futuro." - Jeffrey Wright

Wright foi um apoio ferrenhamente Barack Obama e fez campanha para Hillary Clinton na eleição presidencial de 2016. Então não é difícil supor o que ele e sua mãe pensam do atual presidente.

"Te digo que, tendo sido parte do governo durante tantos anos, as antenas [da minha mãe] estão ligadas há muitos, muitos meses", disse ele. "Quanto mais descobrimos, mais vejo que minha mãe está certa."

Durante muito tempo, Wright achou que entraria para a política. Mas o teatro virou uma fixação da infância, algo muito mais interessante que o trabalho da mãe.

"Minha mãe me levava para ver as peças que passavam por Washington, e eu adorava. Adorava", lembra Wright. "Era completamente fascinado pelo teatro e por aquele mundo."

Na Amherst College, Wright se formou em ciência política e organizou manifestações pelo fim do apartheid na África do Sul. Mas, no terceiro ano de faculdade, ele entrou para o grupo de teatro. Depois de formado, ele ganhou uma bolsa para estudar na Tisch School of Arts, da Universidade de Nova York. Ele abandonou o curso depois de dois meses, mas não por falta de interesse. Ele percebeu que não precisava de professores para aprender o que já sabia.

"Fiz uma aula... acho que estávamos estudando peças de Tchecov, e sabia no primeiro dia que seria ator. Foi a coisa mais bizarra do mundo, mas me senti em casa."

O projeto que daria o pontapé inicial em sua carreira caiu no seu colo anos depois. Depois de trabalhar no teatro "para construir um entendimento do ofício", ele foi escalado para a montagem de "Angels in America", de Tony Kushner, em 1993. Wright fez o papel de Norman "Belize" Arriaga e Mr. Lies. Suas performances foram matadoras. Ele já sabia que aquele papel mudaria sua vida para sempre.

"Era o trabalho ideal para mim. Era o trabalho que aspirava fazer, pertinente à época e inteligente. Feroz e profundamente político. Foi a fusão desses interesses aparentemente concorrentes que eu tive na infância: teatro e política."

"E [o papel] também era muito bom", acrescentou ele, rindo.

A peça complexa e alegórica sobre a Aids e a cultura gay nos Estados Unidos durante o governo Reagan está de volta à Broadway, com Andrew Garfield, Nathan Lane, Denise Gough e Nathan Stewart-Jarrett, entre outros. Wright ainda não viu a nova montagem, mas espera assistir à peça.

E ele acredita que verá algo diferente. "Até recentemente, achava que o texto era coisa da história", disse ele. "Mas talvez ele seja tão importante quanto 25 anos atrás, quando o apresentamos pela primeira vez na Broadway, e isso é a prova de duas coisas: a força da obra de Tony e a natureza infeliz do clima político que vivemos hoje."

Apesar de Wright não saber de críticas à peça em 1993, ele tem consciência desde então que o assunto pode gerar controvérsia.

"Em termos da política da peça, sim, tenho certeza de que alguns conservadores de direita se opunham. Espero que sim, porque era um direto no queixo da complacência e da falta de empatia do governo Reagan e a resposta deles à morte de americanos por causa dessa doença terrível", afirmou ele.

"Lembro de estar no palco recebendo aplausos e fazendo reverências com os colegas de elenco e sentindo essa resposta do público. Lembro de estar lá em cima pensando que aquele era exatamente o lugar onde eu deveria estar ... era a perfeição. Então, qualquer crítica, qualquer resistência não significava nada para mim, porque estávamos fazendo o que estávamos fazendo e eu estava cagando para o que dissessem."

"Como adulto, e certamente como artista, a pedra fundamental é 'Angels in America'. Ela me moldou e remoldou profundamente. Tudo o que faço como ator é em relação àquela peça e àquela experiência." - Jeffrey Wright

Wright ganhou o Tony por melhor ator coadjuvante e, em 2003, voltou a interpretar Belize na adaptação de Mike Nichols, para a HBO. Pela minissérie, que também contou com Parker, Meryl Streep, Al Pacino, Patrick Wilson e Emma Thompson, Wright ganhou um Emmy de Melhor Ator Coadjuvante.

A minissérie foi exibida um ano antes de Bloys começar na HBO, inicialmente como diretor de desenvolvimento de produções independentes. "É uma das razões pelas quais eu e muita gente queríamos trabalhar aqui", disse Bloys da performance de Wright em Angels in America, para ser parte "daquele tipo de TV revolucionária".

"Quando penso no trabalho que pude fazer e meus melhores trabalhos, muito aconteceu na HBO", disse Wright. "Não é por acidente."

Faz sentido. O tipo de papel que ele queria fazer exigia grandes orçamentos e ousadia – riscos que a HBO estava disposta a correr. Mas a empresa também lucrou. Quando chegou a hora de definir o elenco de séries recentes importantes – primeiro a exuberante Boardwalk Empire e depois Westworld, candidata a sucessora de "Game of Thrones" --, o canal procurou um de seus craques. Se alguém seria capaz de transformar em sucesso a série de 100 milhões de dólares, esse alguém era Wright.

E o ator estava ávido para fazê-lo. Ele aceitou manter segredo e, em troca, pode trabalhar com Wood, Hopkins e Thandie Newton. "É...", ele pausa, tragando o cigarro eletrônico, "profundamente gratificante... É brutal e exaustivo. É imensamente desafiador e complicado, mas vivo e novo. E existe no horizonte das coisas que fiz no passado. Então estou no lugar certo."

Em janeiro, Wright tinha acabado de sair de seis meses de filmagem da segunda temporada de "Westworld". Ele diz que o trabalho equivaleu a seis longas-metragens. Os dias eram compridos, o conteúdo, intricado, e a agenda, implacável. Às vezes, quatro equipes estavam filmando ao mesmo tempo ("na média eram duas"), em dias que duravam 15 ou 16 horas ("e às vezes 19 ou 20 horas").

"Estamos tentando expandir as possibilidades desse tipo de narrativa, numa escala épica e tudo em película", disse Wright. "Se alguém acha que é um processo luxuoso e glamuroso, está redondamente enganado."

O tema da série já seria capaz de assustar alguns dos atores. Estamos falando de um parque de diversões que funciona como entretenimento caro para hóspedes que querem fugir do mundo real e talvez matar, fazer amizade ou se envolver com robôs – robôs que estão perto de alcançar consciência própria. Os tiroteios são gráficos, a história é de foder com a cabeça, e temos a tradicional cota de nudez da HBO. A série é empolgante e ao mesmo tempo complicada, confusa e ao mesmo tempo esclarecedora.

Wood descreve Westworld como uma série "intensa e violenta", mas capaz de exibir "momentos incríveis de humanidade". São esses momentos – a capacidade da série de ser uma "reflexão sobre várias coisas" – que interessam a Wright. Na verdade, diz Wood, Wright descreve suas cenas como uma "reflexão dupla", na qual eles abraçam o ritmo e o tom do conteúdo – conteúdo que, se tivesse de ser destilado à sua essência, diz respeito a um "autoexame pessoal. Conscientização pessoa. Nossa relação com liberdade e restrição."

A segunda temporada certamente vai atacar a ideia de liberdade e do que significa descobrir seu potencial pessoal. No fim da primeira temporada, os robôs se rebelaram. Agora, Bernard continua lutando com sua identidade dupla, enquanto Dolores incita os seus companheiros androides à revolução. Como explicou Wood: "Tinha [segredos] meus nesta temporada, o jogo virou."

"De certa forma, a primeira temporada foi um índice – você entende quem, o que, onde, como, quando, quando e quando", diz Wright. "Mas a segunda temporada faz a primeira parecer novelinha", diz ele, gargalhando.

"As melhores situações para mim são aquelas em que só importam o que está no roteiro e os colaboradores envolvidos. Por acaso, a HBO ofereceu várias dessas situações para mim e para vários outros atores." - Jeffrey Wright

Não se engane. Wright vai muito além das séries de TV de prestígio. Este ano, talvez em seu principal papel no cinema desde que interpretou Jean-Michel Basquiat em Basquiat (1996), Wright faz o papel do presidiário Louis em "O.G.". 24 anos depois de cometer o crime, Louis está às vésperas de ser libertado. Mas ele se envolve com um novo detento, e aí começam novos problemas.

Dirigido por Madeleine Sackler, o filme vai estrear no Festival de Cinema de Tribeca. Wright também vai aparecer na adaptação para o cinema de The Goldfinch, de Donna Tartt. Ele vai fazer o papel de Hobie. O elenco também conta com estrelas como Nicole Kidman, Ansel Elgort, Luke Wilson e Sarah Paulson (o filme, dirigido por John Crowley, deve ser lançado em outubro de 2019). Apesar de estar à vontade na HBO, "Westworld" abriu novas portas para Wright, portas que ele nem acredita que estejam abertas.

"Lembro que imaginava o mundo além do palco – os bastidores – na minha cabeça de 7 ou 8 anos", disse ele. "Agora, percebo que estou trabalhando como ator há 30 anos... é muito gratificante."

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