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05/05/2018 13:37 -03 | Atualizado 05/05/2018 13:48 -03

O legado dos 200 anos de Karl Marx, segundo Haddad

No aniversário de Karl Marx, ex-prefeito destaca a fluidez do pensador: "Tem marxista que defende a social-democracia no PSDB, há marxista no PT, no PSol".

Mesmo após 200 anos de seu nascimento, Marx continua a fazer "barulho".
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Mesmo após 200 anos de seu nascimento, Marx continua a fazer "barulho".

É inegável que Karl Marx "fez barulho", como pontua o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT). E foi tanto chiado que ainda hoje, no seu bicentenário, o filósofo segue atraindo seguidores, assim como críticos.

Para Haddad, no entanto, é vago se intitular marxista. "Há marxista defendendo a social-democracia nas origens do PSDB, há no PT, no PSol, PCO, PSTU", diz. O ex-prefeito destaca que há várias vertentes de análise do material produzido pelo pensador. "Não há nenhuma disciplina que não tenha sofrido impacto das ideias marxistas."

O leque de personalidades influenciadas vai da psicologia, à economia, sociologia e política. Inclui nomes como Michel Foucault, Theodor Adorno, Ian Marcouse, Jacques Lacan, o que não quer dizer concordância com o pensamento.

Diferentemente do senso comum, Haddad considera Marx um amante do capitalismo, e uma espécie de liberal diferente.

Não conheço um autor do século 19 que tenha feito tantos elogios ao capitalismo quanto Marx.

Haddad destaca que, para Marx, as revoluções burguesas libertaram as pessoas, não mais sujeitas à escravidão nem à servidão. As pessoas, contudo, não detêm os meios de produção, são levadas a vender sua força de trabalho e está aí o impulso a uma nova relação social, a do trabalho assalariado.

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Professor licenciado da USP (Universidade de São Paulo), Haddad é doutor em Filosofia, mestre em Economia e graduado em Direito.

O pensamento de Marx

É com base nessa ideia de trabalho assalariado e na relação entre o homem, a natureza, e suas necessidades que Haddad montou sua palestra Marx 200 anos: Economia e História, ministrada na Casa do Saber, em São Paulo. O ex-prefeito endossa que o que ficou de Marx foi o método de análise capaz de pensar o desenvolvimento histórico do capitalismo de diversas maneiras.

"Por que esse autor continua importante? Tem muita coisa que se aproveita dele até hoje. Ele fez uma leitura das crises. Toda crise lembram dele. O sistema de crise no capitalismo é permanente, no entendimento dele. Não tem ação do governo capaz de equilibrar e superar as enormes contradições da dinâmica do próprio sistema", explica.

O capitalismo, segundo a leitura de Haddad, gera crises periódicas que não há como sanar: É uma máquina de autovalorização, que parte da ideia de que há uma percepção de que todos nós temos necessidades, e é preciso uma intervenção para satisfazê-la.

Na palestra, Haddad explica que, no entendimento de Marx, o assalariado recebe do patrão o necessário para sua reprodução enquanto trabalhador. No entanto, ele não produz só o necessário para sua reprodução; ele produz um plus, algo a mais do necessário, o que Marx chamou de mais valia.

"Quanto mais se economizar mão de obra para produção maior vai ser a fatia que sobra para o empregador. Por mais que a concorrência depois diminua o lucro, se o processo for incessante, ele estará sempre adiante."

E vem ainda a mudança da relação do homem com a natureza. "O sistema pode ainda criar novas necessidades. A marca do capitalismo é que a produção, o mesmo movimento de busca incessante do lucro, não só revoluciona a própria produção do que se conhece como também do que não se conhece e passa a ser uma necessidade que até o dia anterior não tinha."

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Marx nasceu em 5 de maio de 1818, em Tréveris, na Alemanha, e morreu em 14 de março de 1883, em Londres, na Inglaterra.

Por que o pensamento é atual?

Haddad ressalta que na década de 1980 ninguém tinha a necessidade de um celular, em 1970 de um microondas e em 1940 de uma geladeira. "A relação do homem com a natureza tem uma mudança brutal."

Nisso, o capital passou a ser uma entidade que se autovaloriza. "Não estamos mais no comando do processo. Estamos dando suporte a uma relação alienada, em que as necessidades estão se expandindo constantemente", ressalta.

Agora, a relação do homem com a natureza é de permanente insatisfação. Sempre estamos nos devendo alguma coisa.

O capitalismo, nesse entendimento, se torna uma engrenagem de autovalorização permanente, em que o homem é engrenagem desse processo. "Estamos nos tornando supérfluos, só estamos dando suporte para uma relação que nem os capitalistas controlam", argumenta Haddd.

E nem adianta culpar os donos dos meios de produção. Haddad afirma que é certo dizer que os capitalistas estão explorando as forças de trabalho, mas também é correto dizer que o próprio é suporte de uma relação alienada

Estamos cada vez mais escravos de uma lógica incontrolável.

Na palestra, Haddad citou artigo publicado pela The Economist que pede aos senhores do capital que leiam Marx. O artigo está aqui (em inglês).