LGBT
04/05/2018 10:54 -03 | Atualizado 04/05/2018 10:55 -03

Vange Leonel, a ativista lesbofeminista: Pioneirismo muito além da 'Noite Preta'

Cantora, escritora e militante dos direitos LGBT completaria 55 anos de vida nesta sexta-feira (4).

Vange Leonel foi ativista LGBT, cantora, blogueira, sommelier. Em suma, pioneira.
Reprodução/YouTube
Vange Leonel foi ativista LGBT, cantora, blogueira, sommelier. Em suma, pioneira.

Cantora, escritora, blogueira, cronista, sommelier de cervejas, ativista e homossexual declarada desde a década de 1990, época em que a diversidade sexual era tratada com desdém e preconceito por grande parte da sociedade brasileira.

Essa série de predicados traduz o pioneirismo de Maria Evangelina Leonel Vandolfo, mais conhecida como Vange Leonel, nascida em 4 de maio de 1963. Ela morreu em 2014, aos 51 anos, vítima de um câncer de ovário descoberto apenas 20 dias antes de sua morte.

A cantora, que nesta sexta-feira (4) completaria 55 anos, se autodefinia em seu perfil no Twitter como "singer, writer, lesbofeminist, cyborg, vadia, beergeek, 777".

Era uma usuária frequente do Twitter, onde fazia críticas a machismo, homofobia e comentava futebol, como a Copa de 2014:

Vange Leonel e homossexualidade

Aos 29 anos, ela encarou sem medo um assunto ainda visto como tabu e revelou ao mundo sua homossexualidade.

"Meus vizinhos e pessoas na rua me cumprimentaram pela coragem", lembrou Vange, à revista Isto É Gente, no início dos anos 2000.

O amor de sua vida foi a diretora de vídeo e compositora Cilmara Bedaque, com quem Vange viveu por 28 anos. Eram companheiras não apenas na vida pessoal, mas parceiras profissionais.

Divulgação
Cilmara Bedaque (à esquerda) e Vange Leonel (à direita): parceria na vida e na carreira.

Ao lado de Cilmara, Vange mantinha o blog Lupulinas, especializado em cervejas artesanais e hospedado no site da revista Carta Capital, da qual era colunista.

Vange, no entanto, já havia dado início à sua carreira de colunista muito antes da popularização da internet, escrevendo sobre o universo LGBT para a revista Sui Generis.

Ela também foi autora de livros dedicados ao universo LGBT, como Balada para as Meninas Perdidas, Lésbicas, Grrrls: Garotas Iradas e As Sereias da River Gauche.

"A intenção é mostrar que existem mais pontos comuns do que diferenças entre as relações homossexuais e heterossexuais. As tensões de qualquer relacionamento são as mesmas", explicou Vange, ao comentar As Sereias da River Gauche, que saiu das páginas do livro para virar peça de teatro em São Paulo em 1999.

A trama se passa em Paris, em 1928, em torno de 7 artistas lésbicas que realmente existiram. "É inevitável que eu escreva sobre lesbianismo, é um universo familiar a mim. É sobre lésbicas, mas não para lésbicas. O público heterossexual pode ir e se identificar. Meu impulso para falar nisso é livrar o tema de estereótipos", complementou à época.

Muito além do próprio tempo

Apesar de ter surgido no cenário da música brasileira com a banda Nau nos anos 80, Vange Leonel só se tornou conhecida do grande público quando a novela Vamp foi ao ar na Rede Globo, em julho de 1991. E novamente em parceria com Cilmara.

A canção Noite Preta, tema de abertura da atração das 7 horas da noite, rapidamente virou hit e alcançou o topo da lista das principais rádios brasileiras. A composição da letra da música foi feita a 4 mãos — por Vange e por Cilmara. Assista ao vídeo abaixo.

Prima de Nando Reis, um dos alicerces da banda Titãs, Vange chegou a fazer parte de uma banda com ele: Os Camarões.

"Ele se entusiasmou com uma música minha e me convidou para fazer parte quando eu tinha apenas 16 anos", contou, em entrevista para a Revista da MTV, reproduzida pelo blog Sete Doses.

Vange, já como artista solo e fora do Nau, voltou a emplacar um hit de novela global com a música Esse Mundo, que estourou junto com a trama Perigosas Peruas. Assista abaixo ao vídeo.

A cantora chegou a gravar seu segundo álbum solo em 1996. Depois disso, passou a se dedicar mais aos outros talentos que desenvolveu em sua carreira artística, dando origem às obras literárias que compõem sua biografia.