ENTRETENIMENTO
03/05/2018 14:18 -03 | Atualizado 03/05/2018 15:01 -03

Cardi B, a nova (e transparente) estrela do hip-hop

Lembre-se: o sucesso de Cardi não é nosso.

Scott Dudelson via Getty Images
Cardi B performs on the Coachella stage.

Com o disco de estreia recém-lançado, Invasion of Privacy, Cardi B falou sobre os comentários em relação ao anúncio de sua gravidez no programa humorístico Saturday Night Live. As coisas estão ligadas, o disco e o bebê, se não na realidade, então na hiper-realidade em que Cardi B vive. Ambos foram tratados por uma parcela do público como produção criativa para ser consumida e julgada. No programa Ebro in the Morning, da rádio de Nova York Hot 97, Cardi B parecia incomodada com isso.

"É tipo, quer saber? Sou uma mulher adulta. Tenho 25 anos. Vou dizer isso da maneira mais humilde possível: sou milionária. E estou preparada para isso."

Um pouco depois, ela continuou:

"Vejo muitas mulheres online tipo: 'Ah, sinto muito por você, ah, sua carreira acabou'. E eu: 'Por que não dá para ter as duas coisas'. Sendo mulher, por que não posso ter as duas coisas? Por que tenho de escolher entre carreira ou filho? Por que não posso ter os dois? Quero os dois."

A frustração de Cardi é compreensível, bem como a preocupação do público com a fama dela. Em uma relação quase perfeita entre artista e público, pela primeira vez houve tensão. E isso nos diz algo sobre o estrelato baseado em autenticidade que Cardi representa. As pessoas querem essa autenticidade, mas, aparentemente, só até que a celebridade seja uma pessoa independente e autêntica demais.

O afeto por Cardi não é difícil de entender. Todo mundo gosta de uma história de azarão. Na verdade, existe ciência por trás de nossa necessidade de torcer pelo azarão, o herói improvável, o pobre que vira milionário. Estudos psicológicos explorando esse fenômeno, especificamente no esporte, revelam que as pessoas têm mais propensão a torcer por times que estão "se esforçando mais, apesar de tecnicamente inferiores", porque isso significa uma narrativa fascinante.

Cardi B é uma zebra e tanto. Segundo sua própria descrição, ela é só "uma menina comum do Bronx", uma ex-stripper que aproveitou seu humor e carisma nas redes sociais para se lançar como rapper.

Em três anos, ela passou de estrela do Instagram a estrela de reality show a princesa do hip-hop. Ela foi desprezada como rapper porque é mulher e fazia strip. Ela era grossa demais para conquistar o público. Ela era dominicana demais para ser levada a sério pelo país. Classismo, racismo, misoginia – ela parecia ir de encontro a todos esses ventos desfavoráveis e, ainda assim, virou uma superstar.

Mas ter a própria vida oferecida como objeto de identificação para os outros trouxe outros problemas, como ficou claro na conversa sobre a gravidez de Cardi B. Blogs como The Shade Room e Industry on Blast, e também nos comentários de sua conta do Instagram, as pessoas expressaram pena, confusão e até mesmo desdenho em relação à notícia. Os comentários vieram de fãs e também de haters.

"Cardi B grávida mesmo estou decepcionada é suicídio profissional"

"Cardi B idiota por que você vai ficar grávida no auge da carreira"

O toma-lá-dá-cá da fama é sempre complicado, especialmente na era das redes sociais. Cardi ganhou notoriedade, afinal, compartilhando quase a vida inteira no Instagram, algo de que ela sempre se orgulhou. Na música Best Life, do seu novo disco, ela rima: "Nunca tive medo de mostrar meu eu verdadeiro / o cabelo zoado / a casa imunda".

Parte do seu charme é o fato de Cardi ser transparente em relação a seu passado, o fato de ela estar essencialmente improvisando essa coisa de fama. Essa é uma das grandes qualidades de Invasion of Privacy – um disco que pula de hinos como Bickenhead a baladas confessionais como Be Careful, na qual Cardi admite que Offset, seu (suposto) noivo infiel, "me deixa louca / me olho no espelho diferente / achando que tenho algum problema porque você é inconsistente".

Mas ela entrega tanto de si mesma que os fãs têm uma certa sensação de propriedade, não só sobre seu trabalho, mas também sobre suas escolhas pessoais. Essa sempre foi uma das transações exigidas pela fama, mas esse aspecto se intensificou na era digital – quando as pessoas confundem o que é compartilhado com intimidade real.

A vida de Cardi é vista como performance, e seus fãs também têm algo em jogo. É por isso que vemos pessoas avaliando a gravidez de Cardi como se fosse um disco novo – como se fosse algo que pudesse ser avaliado esteticamente.

Nem deveríamos ter de apontar a misoginia de criticar a decisão dela de ter um filho. Igualmente, não deveríamos ter de apontar a misoginia nos comentários sobre o equilíbrio entre carreira e maternidade, considerando que ninguém pergunta o mesmo sobre seu noivo, Offset, que já tem três filhos de outros relacionamentos. Tem uma ironia aí. Ela foi além do sexismo do estúdio e acabou sendo alvo dos seus próprios fãs.

O crime de Cardi foi desfazer ilusões. Ela tinha criado uma fantasia – qualquer um pode chegar lá; qualquer um pode ser famoso e milionário sem perder a própria identidade. E agora a realidade de um bebê se intrometeu nessa ilusão. Os fãs querem que ela seja autêntica, claro, mas não em relação a ela mesma. Eles querem a autenticidade da fantasia.

E como ela se sente a respeito disso tudo? No show que fez no festival Coachella, ela estava de branco, com um penteado que lembrava Lisa "Left Eye" Lopes. Ela estava visivelmente grávida. Enquanto o rapper YG caminhava pelo palco cantando "dat ass, dat ass, dat ass" (essa bunda), Cardi se abaixou e, apoiada nos braços e joelhos, fingiu que estava transando. Se não foi uma declaração de que "não estou nem aí para o que vocês pensam", nada mais pode ser. Foi um "foda-se" muito autêntico.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.