ENTRETENIMENTO
30/04/2018 14:26 -03 | Atualizado 30/04/2018 14:33 -03

Por que Timothée Chalamet é o galã que precisamos

Num momento em que as mulheres estão encarando de frente os pontos em que os homens deixam a desejar, é tranquilizador sonhar com um futuro cheio de Chalamet.

Illustration: Gabriela Landazuri/HuffPost Images: Getty Images Sony Pictures Classics

Há uma cena em especial no filme Me Chame Por Seu Nome que me fez questionar a atração que sempre senti por homens de virilidade convencional. Acontece numa noite quente no norte da Itália, onde um homem de 24 anos chamado Oliver está agitando os braços num bar ao ar livre ao som de Love My Way, do Psychedelic Furs. Representado por Armie Hammer, um verdadeiro boneco Ken encarnado em gente, Oliver usa camisa parcialmente desabotoada que destaca seu corpão musculoso de 1,95 metro de altura, seu bronzeado dourado e seu peito peludo. Ele tem todas as qualidades que geralmente acho irresistíveis: é forte, tem maxilar quadrado, é emocionalmente distante e cheio de autoconfiança. Eu deveria ter me rendido ao seu charme.

Mas em vez disso eu não conseguia tirar os olhos de Elio, o adolescente pálido e magro de 17 anos representado por Timothée Chalamet, que tinha 20 anos quando fez o filme. Sentado numa mesa próxima, Elio observa Oliver atentamente, cada vez mais atraído. Então ele dá uma tragada funda no cigarro e vai para a pista de dança. Elio, que não parece ter idade suficiente para ter barba, segura a mão de sua namorada, mexe os ombros com confiança num movimento de onda e, com isso, não se sabe bem como, consegue exalar mais sex appeal que Armie Hammer, o homem que a revista People saudou recentemente como "o homem mais sexy a correr riscos" em 2017.

O que diabos está acontecendo?

Depois do lançamento de Me Chame Pelo Seu Nome, no final do ano passado, Chalamet rapidamente ganhou o título de maior galã de 2018. Ele apareceu em inúmeros tapetes vermelhos, foi festejado por praticamente todos os grandes jornais e revistas e chegou à marca de 1 milhão de seguidores no Instagram. Outras celebridades manifestaram publicamente sua admiração por ele. Com tato clássico, Jennifer Lawrence descreveu o jovem ator como "sensual" e disse que o estava "untando de manteiga, como se unta um porco antes de assar", para que pudesse "cair matando assim que ele fizer uns 30 anos" (ele está com 22 agora).

Fãs de todos os tipos parecem ter abraçado a masculinidade própria do jovem ator, de um tipo mais emocional e nuançado do que geralmente é retratado nas telas. Minhas amigas, colegas de trabalho e eu, a maioria de nós no final da casa dos 20 ou início dos 30 anos, hoje passamos boa parte do nosso tempo curtindo as muitas imagens centradas em Chalamet que dominam as redes sociais. No Dia dos Namorados [em fevereiro], quando a revista GQ convenientemente publicou reportagem de capa sobre o menino maravilha, uma amiga minha comentou no Facebook: "Hoje meus feeds estão compostos quase exclusivamente de fotos de Timmy. Não estou louca."

Não obstante uma paisagem de Hollywood ainda cheia de biceps monumentais e barrigas-tanquinho, as mulheres estão apaixonadas pelo ator magro, de feições delicadas, que, em suas próprias palavras, está "prestes a passar de menino a homem". E os homens também estão obcecados por ele. Afinal, Me Chame Pelo Seu Nome é uma história de amor entre dois homens, baseada num romance queer clássico. Kyle Buchanan, da New York Magazine, chegou a elogiar Chalamet, dizendo que ele inaugurou a era da "vingança do twink".

Minha própria paixonite pelo jovem ator me pegou de surpresa, porque ele está longe de ser meu tipo. Como mencionei acima, meu gosto em matéria de homens sempre foi convencional: homens bombados, com traços e personalidade bem viris. Eu, que sou indecisa, tímida e emocionalmente inteligente, sempre senti atração por sujeitos decididos, autoconfiantes e emocionalmente reprimidos. "A tensão é sexy" – acho que já falei isso um bilhão de vezes para explicar a atração que os machos alfa exercem sobre mim.

Na casa dos 20 anos, eu me rendi a tal ponto à atração da autoridade masculina que namorei uma série de homens uns 20 anos mais velhos. Meu parceiro atual tem idade semelhante à minha, é nerd e dotado de sensibilidade emocional, mas também é um sujeito musculoso e sabe-tudo, capaz de dominar a conversa. Em dado momento, uns quatro anos atrás, eu era tão fã da virilidade que escrevi uma coluna dizendo: "A virilidade é o que diferencia um papo com um namorado de uma conversa com minha amiga. Curto um homem capaz de agir, em vez de analisar. Aprecio a autoconfiança declarada e um toque de espírito competitivo." Aiaiai, eu sei.

Eu não tinha percebido o quanto minha visão mudara, nem por que, até que Timothee Chalamet surgiu no horizonte. Depois de muito refletir (e folhear a GQ), entendi o que está à raiz de minha obsessão pessoal com o ator: ele nos oferece um muito necessário refúgio da masculinidade tóxica em um momento em que os noticiários são dominados por predadores sexuais e um presidente arquimachista. Como Chalamet não possui as qualidades masculinas que hoje me parecem perigosas, acho que ele se tornou um lugar seguro para onde posso direcionar meu desejo.

Historicamente falando, os bonitões do cinema tendem a ser tipos poderosos e agressivos. Podem ser bad boys movidos a testosterona (Robert Downey Jr. em Homem de Ferro", Dwayne "The Rock" Johnson em Velozes e Furiosos), narcisistas emocionalmente manipuladores (Daniel Day-Lewis em "Trama Fantasma", Jon Hamm em "Mad Men") ou homens que perseguem mulheres com persistência excessiva (os muitos homens em comédias românticas que acham que "não" quer dizer "tente de novo").

Desde os primórdios do cinema, as mulheres assistiram a belas atrizes se rendendo aos encantos de diferentes versões desses arquétipos masculinos, reforçando a mensagem cultural de que devemos nos sentir atraídas por homens bombados, egomaníacos e agressivos na vida real. Pelo fato de esses galãs já terem seduzido mulheres como Julia Roberts, Jessica Paré e Jordana Brewster, acabamos aceitando a misoginia e a exploração do poder como sendo partes integrais do sex appeal masculino. E perdoamos muitos comportamentos prejudiciais – agressão sexual, agressão emocional, violência – por enxergá-los como simplesmente parte do que significa "ser um homem".

É claro que os estereótipos masculinos evoluíram ao longo do tempo. Os heróis do cinema progrediram de figuras como John Wayne, Arnold Schwarzenegger e George Clooney para incluir outros menos alfa e mais nuançados como os Ryan Goslings, Jake Gyllenhaals e Sterling K. Browns da vida. Seriados de TV e filmes como Insecure, This Is Us e Moonlight – Sob a Luz do Luar retratam a masculinidade negra, em especial, como sendo sensível e complexa. Queer Eye, a série da Netflix em que cinco homens gays orientam homens em sua maioria héteros para que mudem seu visual e sua vida, está constantemente ampliando os horizontes da masculinidade convencional.

Mas, para cada retrato mais progressista da condição masculina, temos outro Cinquenta Tons de Liberdade, Blade Runner ou O Lobo de Wall Street, filmes que enaltecem a autoridade masculina e o chauvinismo machista. E, para cada ator menos bombado, existem astros jovens e atraentes como Ansel Egort (Em Ritmo de Fuga), Michael B. Jordan (Pantera Negra), Zac Efron (O Rei do Show) e Daniel Kaluuya (Corra!), todos os quais poderiam facilmente fazer papéis de jogadores de futebol americano.

O personagem de Chalamet em Me Chame Pelo Seu Nome não é poderoso nem agressivo. Em Lady Bird – A Hora de Voar, ele faz um galã mais tradicional, heteronormativo, com cabelos revoltos, um olhar reflexivo e o tipo de atitude rebelde que toda estudante de escola de artes que se diz nerd admira. Mas em Me Chame Pelo Seu Nome, o jovem ator é um prodígio de sensibilidade que transcreve música clássica de ouvido e adora abraçar sua mãe. Elio tateia em suas primeiras experiências sexuais com uma mulher, um homem e uma fruta; ele se apaixona, tem seu coração partido e aprende importantes lições da vida. Em contraste com os bonitões de Hollywood que adotam atitudes destemidas, Elio se mostra abertamente assustado, carente e confuso, tanto que se derrama em lágrimas em vários momentos. Quando seu pai faz um monólogo sobre a aceitação do sofrimento na vida, Elio o ouve fascinado, com lágrimas enchendo seus olhos.

É claro que o personagem tem algumas qualidades convencionalmente atraentes – o fato de que é europeu, trilingue e que fuma cigarros não prejudica seu sex appeal universal em nada. E ele não é exatamente um gentleman perfeito em relação às mulheres. Depois que Elio se apaixona por Oliver, ele ignora sua namorada, com quem tinha transado recentemente pela primeira vez (mais tarde eles fazem as pazes, com muitas lágrimas, e prometem continuar amigos por toda a vida). De modo geral, porém, Elio não é o tipo de homem que as mulheres foram ensinadas a apreciar.

Em vez disso, Hollywood nos repete o tempo todo, através de filmes e séries de TV, que os homens viris – aqueles que merecem que a gente suspire por eles – devem ser mais fortes que nós de todas as maneiras. Devem ter mais poder profissional, mais força física, egos mais fortes e mais domínio sobre suas emoções. Hollywood imbuiu nas espectadoras a ideia de que homens sensíveis que não têm barriga tanquinho e não comandam a mesa são efeminados, fracos e não dignos de nosso afeto.

Na vida real, Timothee Chalamet continua a desafiar os estereótipos tradicionais de masculinidade. Ele passa a impressão de ser um homem jovem sincero, emotivo e precoce que tem uma visão sadia de sua fama e seu poder em ascensão. Em entrevistas, ele se mostra emocionado – "se eu explodir, me perdoem todos", ele disse a Ellen – e é autoirônico, rindo nervosamente depois de suas próprias respostas e indagando "meu Deus, do que estou falando?". Quando está falando com a imprensa, ele elogia Armie Hammer constantemente – "Armie conta esta história melhor que eu" e descreve o ator como seu "irmão" e seu "mentor".

Rich Fury/BAFTA LA via Getty Images
In real life, Chalamet continues to defy traditional stereotypes of masculinity.

Enquanto outros atores jovens parecem estar mais preocupados em projetar uma imagem familiar de macho – Ansel Egort disse à Elle que, para arrumar uma dançarina com quem transar em seu colégio, "bastava subir para o oitavo andar" --, Chalamet abraça o fato de ser desajeitado. Ele caiu da cadeira em uma entrevista e, em outra, levantou de um salto para dançar. Saoirse Ronan, com quem ele contracenou em "Lady Bird", disse ao New York Times que o apelido do ator é "Pony" (Pônei), "porque ele chegava em Greta [Garwig] e em mim e nos dava um cheiro".

Eu já estava ansiando por um tipo de masculinidade novo, menos ameaçador, quando o Elio de Chalamet surgiu em cena. Nos últimos anos, entendi plenamente que as qualidades masculinas que eu antes enaltecia estão à raiz de tanto sofrimento e violência. Bill Cosby, Harvey Weinstein e muitos outros predadores expostos pelo movimento Me Too usaram o poder masculino como arma com a qual oprimir, assediar e agredir mulheres. Agora iniciamos um diálogo sobre como expressões de masculinidade menos graves, como encontros sexuais de natureza indefinida e "mansplaining" [homens dando explicações redundantes sobre vários temas a mulheres, como se elas fossem incapazes de saber ou entender dos assuntos], alimentam um sistema perigoso que permite que os homens se sintam no direito de fazer uso do corpo feminino.

Um homem que avilta mulheres constantemente e é alvo de 16 acusações de erro de conduta sexual hoje ocupa a Casa Branca, graças pelo menos em parte à admiração cultural pela megalomania e agressão masculinas. Trump tem usado sua autoridade para defender outros políticos homens poderosos acusados de violência doméstica, abuso infantil e assédio sexual, expondo um ciclo de fomento desse tipo de comportamento. Sua presidência incentivou a "direita alternativa" misógina e os ativistas dos direitos dos homens, grupos repletos de homens que anseiam por dominar mulheres e pessoas de cor.

Não é por nada que as mulheres estão revoltadas e que manifestamos essa revolta em marchas e movimentos. Eu também canalizei esse sentimento de revolta em minha vida pessoal. Hoje percebo que alguns de meus relacionamentos passados com homens mais velhos – um dos quais foi um ex-chefe meu – se basearam em dinâmicas de poder tóxicas. Hoje em dia eu chamo a atenção do meu namorado quando ele me interrompe para explicar alguma coisa ou ostenta sua autoridade. Aconselho minhas amigas a terminarem com qualquer homem que fale sobre si mesmo o tempo todo, que faça pressão sexual excessiva ou solte frases aviltantes a título de paquera. Comecei a condenar as próprias características que antes me atraíam.

É claro que querer impor o arquétipo de um homem melhor a uma pessoa é muito. E é muito possível que atores jovens me decepcionem – como fomos descobrir com Charlie Rose e Louis C.K., mesmo com "homens do bem", homens que dizem a coisa certa em pública mas ainda são capazes de agir como predadores quando estão a portas fechadas.

Mas tenho a esperança de que Chalamet e outros homens que estão chegando à maioridade durante o movimento Me Too possam ter uma relação mais sadia com o poder e a masculinidade. A primeira grande cerimônia de premiações de Chalamet, o Globo de Ouro 2018, foi marcada por atores e atrizes vestidos de preto e que falaram publicamente sobre os erros de conduto sexual. Chalamet disse a Christiane Amanpour, da CNN, que levou sua irmã mais velha ao evento e que ela lhe disse: "Você faz parte desta nova onda, você é da geração do milênio, você é da nova geração e precisa falar contra a discriminação de gênero". Na mesma conversa com Amanpour, Chalamet disse que, embora ser viril seja visto como "ser emocionalmente controlado, ou então ser mal-humorado, ou Marlon Brando, ou alcoolismo ou seja o que for", Me Chame Pelo Seu Nome transmite a mensagem de que "tudo bem ser emotivo, não há nada de errado nisso".

Mesmo o modo como o ator lida com seus erros é promissor: depois de ser criticado por ter trabalhado no próximo filme de Woody Allen, Chalamet prometeu doar seu salário do filme a organizações beneficentes que combatem o assédio e a agressão sexual. Em um post no Instagram ele escreveu: "Quero ser digno de me colocar ao lado das artistas corajosas que estão lutando para que todas as pessoas sejam tratadas com o respeito e a dignidade que merecem".

Num tempo em que as mulheres estão tendo que encarar diariamente as muitas maneiras em que os homens nos decepcionaram, é pelo menos tranquilizador sonhar com um futuro melhor, cheio de Chalamet. O fato de que aos 22 anos ele já começou a entender como os homens abusam de seu poder significa que talvez ele não se transforme no tipo de homem que se masturba diante de mulheres apenas porque pode fazê-lo.

E a obsessão coletiva com o jovem ator talvez signifique que estamos nos afastando de uma cultura que tem um fetiche por características masculinas tóxicas – e isso é bom tanto para os homens quanto para as mulheres. Enquanto buscamos urgentemente um modelo de masculinidade que não encare a autoridade como carta branca para assediar e agredir, sinto que minha obsessão por Chalamet é um avanço.

Photo gallery25 filmes para relembrar a infância de quem viveu nos anos 1990 See Gallery