ENTRETENIMENTO
27/04/2018 17:53 -03 | Atualizado 27/04/2018 18:22 -03

'Um Lugar Silencioso': John Krasinski fala sobre sobre carreira, família e seu novo filme

O diretor, co-roteirista e astro do novo suspense 'Um Lugar Silencioso' fala de seus filmes de desempenho fraco, de como virou fã relutante do gênero horror e de como é ser lembrado com o Jim de 'The Office'.

Illustration: Gabriela Landazuri/HuffPost Photos: Getty Images

John Krasinski tem uma confissão a fazer, ou oito. É esse o número de vezes que ele usou "para ser realmente honesto", "para ser franco", "honestamente" ou alguma outra expressão indicativa de sinceridade durante a meia hora em que trocamos ideias na semana passada.

A cada vez, a frase ameaçou anunciar uma revelação profunda, e em alguns casos isso realmente aconteceu. É o sonho de todo entrevistador: sim, me conte seus segredos! Me mostre aquele sorriso cheio de dentes, o sorriso que conquistou corações em The Office e Simplesmente Complicado.

Entre os temas dos quais John Krasinski falou honestamente: como a Paramount Pictures trabalhou para converter em um sucesso enorme seu filme mais recente, um thriller arrepiante sobre uma família que se conserva em silêncio para não chamar a atenção de monstros que percorrem uma paisagem rural pós-apocalíptica e desabitada. Um Lugar Silencioso estreou em meio a elogios no festival South by Southwest, em março, e em 6 de abril chegou aos cinemas dos Estados Unidos, assinalando o quarto trabalho de Krasinski como diretor (e sua primeira colaboração com sua mulher, Emily Blunt, que pediu para atuar no filme depois de ler a nova versão que Krasinski escreveu do roteiro original de Scott Beck e Bryan Woods).

Os outros dois filmes que Krasinski dirigiu – Breves Diálogos com Homens Horríveis (2009) e o misto de comédia e drama Família Hollar (2016) – não chegaram a triunfar nas bilheterias, e o ator e diretor de 38 anos foi honesto em relação a isso também. Mas Um Lugar Silencioso é sem dúvida seu melhor trabalho até agora, de modo que Krasinski pode finalmente começar a ser visto como diretor de cinema de verdade. Discutimos essa evolução, sua fama permanente pelo personagem Jim Halpert, o brincalhão da Dunder Mifflin em The Office, como a paternidade o influenciou criativamente (ou não) e os filmes de horror que inspiraram este projeto.

O gênero do horror está vivendo um momento especial. Os fenômenos que foram It – A Coisa e Corra! tiveram alguma influência sobre as expectativas em torno de seu filme?

Já estávamos filmando quando It estreou, então já estávamos fazendo nosso filme. Isso é bom, porque, honestamente, não sei se eu teria sido forte o suficiente para não me deixar influenciar.

Eu não era grande fã do horror, mas durante o último ano, enquanto me preparava para dirigir Um Lugar Silencioso, assisti ao maior número possível de filmes do gênero. A primeira coisa que percebi foi minha ignorância tremenda, porque eu tinha mantido distância do horror por pensar que sentiria medo. Foi uma decisão que tomei muito tempo atrás, quando eu era criança. E agora aqui estou assistindo a todos esses filmes para fins de pesquisa, sim, mas me dando conta de que Corra!, A Bruxa, The Babadook, Deixe-me Entrar – que esses filmes todos estão entre os melhores que vamos poder ver. A melhor direção, as melhores tramas, a melhor fotografia. E todos têm um tema mais subjacente, todos tratam de algo muito mais profundo.

Não que eu esteja dizendo que um filme que simplesmente nos assusta muito não seja ótimo também. Mas acho que deve ter havido um momento (como sou novo entre os fãs do horror, não falo em nome de todo o mundo) em que os fãs do horror devem ter ficado frustrados porque esses filmes eram vistos como filmes B. Imagino que agora, quando esses filmes vêm recebendo atenção muito maior, isso deve ser tranquilizador. Eu cheguei tarde à festa, mas quero ficar nela por muito tempo. Isto daqui é superdivertido.

Seus quatro trabalhos como diretor, incluindo The Office, são totalmente diferentes entre si em termos de estilo e tom. Em que medida você é um diretor diferente hoje do que era quando acabava de começar?

A diferença é de 1 milhão por cento. A verdade é a seguinte. Esqueci quem falou isso – foi alguém muito mais inteligente que eu, mas alguém, em todo caso: "Quando você pensa que entende o que é a direção, é hora de se aposentar, porque isso é um absurdo. Você nunca para de aprender." Portanto, eu sempre soube que estava aprendendo. Sempre soube que eu poderia melhorar. Mas este filme foi como pular dentro do lado fundo da piscina. Foi o mais diferente que se poderia imaginar de qualquer coisa que eu já tinha feito antes, com certeza muito diferente de Família Hollar e Breves Diálogos com Homens Horríveis. Um Lugar Silencioso teve um orçamento muito maior, foi uma ideia muito maior, houve os efeitos visuais, uma criatura foi criada. Não foi apenas uma coisa, foi toda uma série de coisas, e só consegui dar conta porque senti uma ligação tão forte com a questão fundamental do roteiro, que é a família.

Se aquele elemento da família não existisse, eu não teria sido a escolha certa para dirigir o filme, porque eu não seria capaz de trabalhar apenas com o elemento assustador ou o elemento do silêncio. Era preciso que tudo viesse da mesma origem. Mas entendi que a história podia ser uma alegoria incrível da paternidade. Meu roteiro (reescrito) enfatizou esse aspecto, ele ressaltou mais detalhes para voltar a destacar a questão da família. Tudo remetia à família. E então entendi: meu Deus, é por isso que o filme é tão assustador para as plateias, porque as pessoas se solidarizam com a família do filme.

Você assistia a filmes sobre seres estranhos? Acho que podemos considerar The Babadook um filme sobre um ser estranho, mas Um Lugar Silencioso tem mais semelhanças com Alien, o Oitavo Passageiro e Sinais.

Sim, eu via tudo. Quanto à estrutura do filme, eu assisti a exatamente esses filmes. Há um elemento que remete a esses filmes e que eu quis captar. Por mais que eu ame os filmes de horror modernos, há algo em Tubarão, Alien e O Bebê de Rosemary, um clima hitchcockiano, que eu queria captar. Eu quis que o clima de Um Lugar Silencioso fosse um pouco nostálgico, que o filme parecesse próprio para qualquer época e qualquer lugar.

Mas, quanto aos seres estranhos, para ser honesto com você, eu quis fazer minha lição de casa muito bem. Analisei todos os seres estranhos possíveis, desde Olhos Famintos e Pumpkinhead até Resident Evil: O Hóspede Maldito. Foi fascinante, porque percebi imediatamente que não havia nada que eu pudesse tirar de todos esses filmes, mas adoro saber o que provocou reações nas pessoas e por quê. No caso de Olhos Famintos, eu não tinha um olho, um rosto ou uma boca como o vilão dessa história, mas enxergava os elementos dele que são superassustadores. Foi superdivertido.

É interessante ouvir você falar em conferir um clima nostálgico a Um Lugar Silencioso. Você falou a mesma coisa sobre Família Hollar, disse que o filme evocava dramas familiares mais antigos como Laços de Ternura.

É verdade. Talvez eu esteja preso dentro de uma cápsula do tempo.

Sony Pictures Classics

Bom, isso provoca pelo menos uma pergunta óbvia: você está insatisfeito com os filmes de estúdio que estão sendo feitos hoje ou com a máquina de fazer cinema, de modo mais geral?

Essa é uma pergunta interessante. Eu curto tantos filmes. Fui ver Pantera Negra na semana passada e amei. Sou ótimo como parte da plateia, porque sempre adoro os filmes que vou assistir. Adoro os filmes da Marvel, adoro os filmes da saga Star Wars, mas acho que há um orçamento maior, um espetáculo maior nesses filmes.

Os filmes que sempre mexeram mais comigo tinham uma intimidade, uma ligação com o coração, com a alma e com a cabeça, foram mais do que apenas uma grande curtição e diversão. O que mexeu comigo foi assistir a coisas em momentos que me transformaram completamente e para sempre – e estou falando a sério. Não foram apenas filmes de horror em que me inspirei para fazer Um Lugar Silencioso. Me lembro de ter assistido a Entre Quatro Paredes antes de fazer meu filme. Me recordo daquele momento em que Tom Wilkinson toca seu travesseiro, no lugar onde seu filho descansava a cabeça. Nunca vou esquecer como chorei naquele momento. Estou com vontade de chorar agora. Para mim, o poder do cinema consiste em nos mostrar coisas com as quais podemos nos identificar.

O entretenimento é algo maravilhoso e super emocionante. Quando Emily e eu fomos ver Pantera Negra, deixamos as crianças em casa. Elas tinham passado três semanas doentes, e queríamos ver um filmão. Na semana passada tentamos assistir a Trama Fantasma. Estávamos no clima para ver o filme, mas os ingressos no cinema Alamo Drafthouse estavam esgotados.

É legal saber disso, considerando que o filme saiu em dezembro.

Também acho, é bacana. Paul Thomas Anderson precisava ficar sabendo.

Então acho que aqueles filmes clássicos têm alguma coisa especial, provavelmente porque não tinham orçamento ou tecnologia suficientes para virarem produções grandes demais. Mesmo o Star Wars original, ou Tubarão – aquele foi o primeiro grande blockbuster e ainda tem um certo ar de filme independente.

Comparado com os blockbusters de hoje, Tubarão é glacial. O ritmo é realmente lento. Não acontece muita coisa, mas é um suspense enorme.

É verdade. Mas é um dos melhores trabalhos narrativos que já vi. É tão eficiente, nada está fora do lugar. É maravilhoso.

Você mostrou uma versão de Família Hollar a Rian Johnson para ter o feedback dele. Você mostrou Um Lugar Silencioso a algum outro diretor ou outra pessoa que mereça ser mencionada?

A verdade é que eu queria demais fazer isso. Mas não havia tempo para isso no nosso cronograma. Não sei se é ruim dizer, mas terminamos de rodar o filme no dia 1º de novembro, com previsão de estréia no dia 6 de abril. Então são quase exatamente cinco meses. É um tempo de pós-produção muito curto para qualquer filme, mas, quando ainda se têm efeitos visuais e muito som a manipular, é pouquíssimo tempo. Para ser franco, ainda estávamos literalmente cortando o filme e editando o som 18 ou 24 horas antes da estréia do filme em março no festival South by Southwest.

Então o filme tinha acabado de sair do forno. Eu não estava superfeliz com isso. Foi o momento de maior medo de minha vida profissional, porque você sempre quer que seus amigos vejam um filme antes de você mostrá-lo para uma plateia de 1.200 pessoas. Foi intenso. Mas uma parte de mim pensou: "Sabe de uma coisa? Que se dane. Trabalhamos muito duro. Talvez seja melhor que tenha sido assim." E entendi que talvez a atitude de mais respeito para com o público do gênero horror tenha sido deixar que ele assistisse ao filme primeiro, sem nenhum filtro. Foi incrível.

Nem Breves Diálogos com Homens Horríveis nem Família Hollar acabaram atraindo grandes bilheterias. Breves Diálogos rendeu menos de US$100 mil, e Família Hollar, menos de US$2 milhões. Isso deixou você preocupado? Como você preparou o espírito para dirigir outro filme, mesmo assim?

Foi difícil. Não foi superdivertido, pode ter certeza. Mas acho que você entende o produto que está criando. Acho que você entende que quando faz uma estreia pequena – Breves Diálogos saiu em menos de cem cinemas, e Família Hollar em 400 ou 500 --, o filme não vai render tanto dinheiro assim. Sempre fui realista. Isso não significa que não seja doloroso ou duro, mas a falta de sucesso de bilheteria não me queimou. Porque eu era realista, sabia o que estava acontecendo. Os dois estúdios foram muito francos comigo. Especialmente a Sony Pictures Classics, que distribuiu Família Hollar, foi transparente e franca. Eles amaram o filme e me falaram o que ia acontecer. Acho que estavam apostando mais no sucesso do filme no mais longo prazo após a estreia, que tem sido bom. Isso é bacana.

Um Lugar Silencioso é a mesma coisa: é um filme de baixo orçamento com o qual meu objetivo foi apenas conseguir que o estúdio recupere seu investimento. Acho que ninguém estava prevendo a reação do South by Southwest. Acho que ninguém estava prevendo as resenhas positivas. Serei franco com você. Acho que o estúdio está querendo fazer este filme virar o maior sucesso possível. Espero que consiga, mas em algum momento essa passa a ser uma decisão comercial. Não foi para isso que fiz o filme, mas, se ele fizer sucesso comercial, será fantástico.

Trabalhei num filme chamado Por Uma Vida Melhor.

Que não recebeu o reconhecimento devido.

Obrigado! Também adorei o filme. Mas, para ser totalmente honesto, não sei se já falei disso antes, porque Emily falou: "É muito estranho o jeito como você encara más notícias. Como você vai enfrentar isso?". Me lembro que quando não fui chamado para Capitão América, falei "ok, vamos sair para jantar", e Emily disse "Quer ficar sentado aqui e chorar?", e eu falei "não, está tudo bem". Mesmo com Família Hollar, ela disse "você está bem, mesmo sabendo que o filme não se saiu bem?", e eu respondi "sim, é a vida, a gente tem que aceitá-la do jeito como acontece".

Mas a única coisa que me proporcionou essa visão da vida foi a decepção enorme que tive com Distante Nós Vamos. Eu estava no início da minha carreira. Uma semana antes de o filme estrear, lembro que houve todo um entusiasmo em torno dele. De repente comecei a receber ligações de meus agentes e outras pessoas dizendo "uau, você vai estar em um filme indicado ao Oscar, não poderia ser melhor". E eu era tão jovem que pensei "meu Deus, é demais, lá vamos nós!".

Mergulhei com tudo naquela onda, e ela morreu na praia. Me lembro que foi quase como se alguma coisa física tivesse se partido na minha cabeça. Pensei "é melhor eu não fazer isso de novo. Pelo bem da minha sobrevivência, não vou me deixar voar tão alto. Se acontecer, maravilha. Se não acontecer, não vou me deixar arrasar. Vou tentar ficar no meio termo." Foi difícil, mas aquele momento mudou minha vida. Eu acreditei naquele filme. Não foi tipo "ei, cara, você trabalhou num filme horrível que vai se sair superbem". Não foi assim. O filme foi algo tão pessoal para mim – o relacionamento entre Maya Rudolph e eu, o ótimo trabalho feito por Sam Mendes, foi um filme tão especial. Então quando ele quebrou o pescoço, fiquei mal de verdade. Mas prometi que não deixaria isso acontecer comigo de uma próxima vez.

Vamos falar um pouco sobre Breves Diálogos. Foi um filme de 80 minutos composto em boa parte de homens fazendo monólogos sobre seus sentimentos em relação a mulheres. Dois dos homens se solidarizam com estupradores. Você acha que poderia fazer o mesmo filme hoje, considerando o quanto revimos a dinâmica do poder de homens e mulheres?

Não, acho que esse filme não poderia ser feito hoje, mas não apenas por esse motivo. A outra razão é que hoje em dia os filmes são muito mais comerciais. É bem mais difícil fazer qualquer filme. Tenho certeza que Pantera Negra levou um pouco mais tempo para sair do papel. Alguns anos atrás as pessoas se arriscavam mais, ou algo assim. A impressão é que se faziam filmes com mais frequência.

Mas, em relação ao que você falou sobre o movimento que está acontecendo neste momento, isso tem dois lados, e acho que um deles é que o livro e o filme – especialmente o livro, com certeza – fizeram um ótimo trabalho de identificar aqueles homens como sendo pessoas cheias de falhas.

Está no próprio título.

Isso mesmo! exatamente. Mas acho que talvez este seja o melhor momento para assistir ao filme. Aquele livro mudou minha vida, e vou te contar por que. Eu estudava na Brown University. Comecei a trabalhar como ator só para fazer amigos e fazer parte de um grupo de pessoas. Eu fazia principalmente humor de esquetes, fazia as pessoas dar risada, era superdivertido. Eu estava curtindo de verdade. E então Chris Hayes da MSNBC, que na época era diretor, falou "vou dirigir uma adaptação de um livro. Vamos ler o livro em voz alta sobre o palco." Falei "bacana". Ele me convidou a fazer, e eu pensei, honestamente, que fazia parte da moçada bacana, porque ele estava chamando atores bacanas para fazer, e até então eu não fazia parte desse grupo.

Participei da leitura. Me lembro que havia 99 ou 100 assentos no teatro e havia mais 200 pessoas querendo entrar naquela noite. Eu não estava esperando aquilo. Pensava que haveria umas dez pessoas na plateia. As pessoas compareceram. Houve gente que saiu no meio, houve gente que começou a chorar. Fizemos a leitura apenas uma ou duas noites, e me lembro que no dia seguinte, quando eu estava caminhando no campus, uma professora me procurou e disse "foi a melhor coisa que já vi feita por um grupo de teatro estudantil", e então outra professora falou "sabe de uma coisa, é bom tomar cuidado com o que você faz, aquilo foi muito ofensivo".

Não que eu seja Andy Kaufman nem nada assim, mas algo naquela reação tão dramaticamente divergente me mostrou a responsabilidade que a gente tem como ator ou contador de histórias. O que fazemos não é apenas entretenimento. Podemos dizer coisas muito importantes. Então achei que aquele livro deslanchou uma discussão que foi muito interessante, muito necessária.

Naquela época se considerava que o importante era ser honesto, quer você fosse homem ou mulher, e se identificasse como algo. E, se você se identificasse como alguma coisa, poderia defender essa coisa. É claro que aqueles homens [do livro] não têm como defender o que fazem.

Esse filme foi uma das primeiras coisas que mostrei a Emily quando começamos a namorar. Falei "acabei de dirigir este filme, estou prestes a entregar". Ela disse "não sei não, cara. Este filme é realmente intenso." Foi uma daquelas coisas. Dirigi o filme porque ele realmente mudou minha vida, me mostrando o que é possível.

É complicado. Você tem um grupo de homens falando de mulheres, mas em última análise a ideia é que os depoimentos sejam vistos desde a perspectiva de uma estudante de pós-graduação que está fazendo pesquisas feministas. Você poderia ter intitulado o filme O que os Homens Querem. Ou O Que os Homens Não Deveriam Querer.

Eu fui criado tendo que admitir quando tinha feito algo de errado. O que achei interessante foi que aqueles homens se posicionavam de modo altamente defensivo. Era tão diferente de mim. E os caras que achei realmente interessantes são os que, na metade de seu monólogo, percebiam que estavam passando uma impressão muito ruim, então, em vez de dizer "desculpe, acho que não é bem isso o que eu quero", começam a atacar a entrevistadora. Começam a direcionar toda a raiva deles para ela, e isso pareceu uma decisão tão horrível, tão errada. E aqueles homens eram tão lamentáveis, já que foi exatamente esse o caminho que seguiram.

Passando para frente, houve um momento em que você e Aaron Sorkin estavam desenvolvendo uma minissérie sobre o hotel Chateau Marmont, que soa como uma delícia de ideia. O que foi feito desse projeto?

Uau, você está mergulhando fundo. Adoro isso. Foi uma daquelas ideias que a HBO deixou em desenvolvimento por um tempão. A HBO é incrível, mas às vezes deixa as coisas paradas na fase de desenvolvimento.

Ela é famosa por isso.

Sem falar que Aaron então foi fazer um monte de outros trabalhos. Ele estava super ocupado, e acho que acabou levando tanto tempo que André Balazs [o proprietário do Chateau Marmont] pegou os direitos de volta.

Mas vou revelar um segredo: estou com um contrato com a Paramount TV, acabamos de comprar os direitos do novo livro sobre o Chateau que o autor da biografia de Paul Newman está escrevendo. Estamos esperando o livro sair, acho que será em setembro.

Você está trabalhando com Sorkin outra vez?

Não, desta vez vamos fazer sozinhos. Acho o máximo que você saiba isso a meu respeito, não poderia haver nada mais legal. Não quero ver ninguém representando uma pessoa famosa – o interessante é a relação entre patrões e empregados. Quero que seja como "Assassinato em Gosford Park".

Exatamente. Esse é o ponto de referência perfeito. E é muito diferente dos filmes que você já dirigiu. Depois de Família Hollar e Um Lugar Silencioso, e tendo dois filhos você mesmo, imagino que você tenha uma certa fixação com histórias que tratam da estrutura familiar.

É só disso que ando pensando, de certo modo – sobre criar dois pequenos seres humanos que espero que se tornem autossuficientes e corajosos em qualquer coisa que decidam fazer. Esse filme chegou às minhas mãos três semanas depois do nascimento de nossa segunda filha. Foi um impacto forte, porque eu estava aberto para isso. A questão da família não é necessariamente a única coisa em que estou pensando, mas sei que existe um pool enorme de diretores de talento. Prefiro assistir a eles dirigindo a maioria dos filmes que me são propostos. Então, para que eu queira fazer um filme eu mesmo, tem que haver algo de pessoal.

Isto dito, você acertou em cheio quando disse que, tirando Breves Diálogos, os filmes que fiz são basicamente sobre a questão da família. Quando fiz Família Hollar, nossa primeira filha tinha acabado de nascer. Então, basicamente, cada vez que tenho um filho, vou ter que fazer um filme [ri]. É isso que estamos dizendo, não? Ou então, cada vez que faço um filme, temos que ter um filho.

Mas eu estaria disposto a fazer um thriller político ou algo assim. Só é preciso ser a história certa. Como você falou sobre o gênero cinematográfico – e esta não é uma hipótese bem pensada, então talvez eu esteja errado --, há coisas que têm seu momento, e outras coisas que, por melhores que sejam, este não é o momento de fazê-las. E acho isso realmente triste. Meu filme favorito de todos os tempos é O Veredicto. Duvido que ele fosse feito hoje. Aliás, ouso dizer que duvido até que Argo seria feito hoje. É estranho ver a rapidez com que a indústria está deteriorando no que diz respeito aos filmes, porque aqueles são filmes que eu gosto de verdade. Espero que voltem, certo? Tem que ser uma coisa cíclica. Mas hoje, eu poderia escrever um filme como Sideways e as pessoas diriam "não vamos financiar isso". Hoje, é mais uma questão de o que vai ser uma perda de tempo.

Você mencionou Sideways, um filme de Alexander Payne. Não importa qual seja a paisagem do cinema hoje, Alexander Payne pode basicamente fazer qualquer coisa que quiser. Tendo já conquistado reconhecimento fora do mundo da direção, você se vê chegando perto de ter esse mesmo privilégio? Com certeza o fato de você ser Jim de The Office não atrapalhou o potencial de marketing de Família Hollar.

É verdade, mas não sei se o fato de ter sido Jim Halpert ajudou com Um Lugar Silencioso, porque não acho que tenham pensado "ah, tá, Jim Halpert, filme de horror, vamos apostar nisso". Mas sim, existe um nível de sucesso ou de reconhecimento por parte dos estúdios, em que o fato de que eles me conhecem ajuda. Mas acho que isso também pode atrapalhar, porque eles te rotulam. Não que isso seja um problema para mim. Não vou me incomodar nem um pouco se ao final de minha carreira o trabalho pelo qual vou ser mais conhecido é ter sido Jim de The Office. Melhor que isso, impossível.

Quanto ao que você disse sobre a possibilidade de me deixarem fazer qualquer coisa que eu tenha na cabeça hoje, minha mulher disse algo interessante ontem: "Se lhe dessem US$250 milhões para fazer um filme, será que seu nível de envolvimento pessoal seria o mesmo? Você é uma pessoa que trabalha muito bem sob pressão. Talvez, se tivesse toda a liberdade de ação, a experiência fosse muito diferente." E acho que ela tem razão. Para mim, conseguir fazer este filme de novo seria fantástico, mas a próxima coisa que vou fazer também é realmente importante. Não que eu sinta necessidade de traçar uma estratégia, mas simplesmente faço o que faz sentido para mim, por causa de The Office. Com todo o devido respeito, essa série me colocou em uma posição financeira que me permitiu esperar até fazer Família Hollar. Algumas pessoas não podem fazer a mesma coisa. Aprecio tremendamente a oportunidade que essa série me proporcionou.

Isto dito, tenho que destacar que há algo de muito bacana no que Jordan Peele fez. Ele desenvolveu um material que é importante para ele e que diferia do que as pessoas pensavam que seria seu próximo trabalho, tipo dirigir um Corra! 2 ou o próximo filme da Marvel. Ele falou "não, vou fazer coisas bacanas que venho querendo fazer há algum tempo". Isso é demais. Eu só quero encontrar alguma coisa que faça tanto sentido para mim.

Antes de encerrarmos a entrevista, como Um Lugar Silencioso é tecnicamente um filme sobre um monstro, quantos modelos de monstro você analisou?

Drew Goddard [diretor de Lost e Cloverfield], depois de ler o roteiro, me disse: "O único conselho que eu lhe daria é começar a criar sua criatura agora. Você vai ter sorte se encontrar a versão certa na terceira ou quarta tentativa. É mais provável que seja a décima-segunda." Foi nossa oitava, acho. Mas a coisa mais louca foi que tínhamos o monstro já pronto durante a filmagem inteira e eu o modifiquei na pós-produção, no meio do trabalho de edição.

Uau, quer dizer que os atores estavam reagindo a um monstro que pensavam que tinha aparência completamente diferente?

Isso mesmo.

Diferente até que ponto?

São bem diferentes, mas suas propriedades e a razão por que são como são são exatamente as mesmas. É a aparência que é diferente. Então isso não mudaria muito na atuação dos atores, porque tudo girava em torno do som. Me recordo de alguém me dizer: "Quando você faz muitos filmes de efeitos visuais, pode ver suas criaturas na tomada". E realmente, quando já estávamos editando o filme havia seis semanas, pensei "este monstro não vai ficar tão bom quanto o outro". Então voltei e redesenhamos o monstro. O primeiro tinha mais jeito de uma criatura de fantasia.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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