POLÍTICA
28/04/2018 09:42 -03 | Atualizado 28/04/2018 09:42 -03

Grandes partidos afastam renovação e apostam na política tradicional

“As eleições têm se mostrado assim normalmente. O problema é que nós não vivemos um tempo normal”, alerta cientista político.

AFP/Getty Images
Emedebistas podem abrir mão de candidatura para apoiar Geraldo Alckmin.

Motivação para movimentos que ganharam voz em 2017, a renovação política tem sido deixada de lado por grandes partidos nas preparações para a campanha eleitoral. Candidato do PSDB ao Palácio do Planalto, Geraldo Alckmin aposta em duas estratégias tradicionais para ganhar a disputa: tempo de rádio e televisão e alianças regionais.

Políticos no comando de outros partidos de centro-direita que apoiam a candidatura do tucano apostam que, em um momento de crise, os brasileiros não querem renovação, mas segurança.

Político tradicional, Alckmin tem se dedicado às alianças locais a fim de atrair votos. No roteiro dos próximos dias para se tornar conhecido fora de São Paulo, estão Minas Gerais e Maranhão. O tucano também tem sido presença constante em Brasília.

Governador de São Paulo entre 2001 e 2006 e entre 2011 e 2018, Alckmin começou a carreira política em 1972, quando se elegeu vereador em Pindamonhangaba (SP), cidade onde nasceu.

O presidenciável se filiou ao MDB, então PMDB, aos 19 anos, quando cursava Medicina. Desde então, consolidou sua atuação na política, incluindo mandatos de deputado estadual em São Paulo e federal. Em 1988, participou da fundação do PSDB, partido pelo qual disputou a eleição presidencial em 2006, quando perdeu no 2º turno para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Nacho Doce / Reuters
Cientista político alerta para descrença da população com políticos tradicionais nas eleições presidenciais.

Alckmin não avança nas intenções de voto

A 6 meses das eleições, o ex-governador não decolou nas pesquisas. Ele registra entre 6% e 8% das intenções de voto na pesquisa Datafolha divulgada neste mês.

Presidenciáveis identificados pelos brasileiros com a ideia de renovação, por sua vez, registraram resultado mais expressivo. Deputado federal desde 1991, Jair Bolsonaro (PSL) tem entre 15% e 17%. Marina Silva (Rede), ex-senadora e ex-ministra de Meio Ambiente, oscila entre 10% e 16%. Já o ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Joaquim Barbosa (PSB), conquista entre 8% e 10%. A pré-candidatura do jurista, entretanto, ainda não foi lançada.

Aliados de Alckmin apostam que o quadro será revertido quando a campanha começar de fato. Uma das apostas é o tempo de propaganda eleitoral no rádio e TV. "Uma coisa importante é fazer alianças. A campanha é curtinha, só 45 dias, e, queira ou não, a televisão vai ter peso muito grande. Estamos construindo e temos, hoje, talvez 5 partidos e tentamos chegar a 7", afirmou o tucano em evento da Fecomercio, na última semana.

Interlocutores do pré-candidato afirmam que ele conta hoje com 25% do tempo de rádio e TV, com apoio do PSD, PTB, PPS e PV. Juntos, os 5 partidos elegeram 134 deputados. 90% do tempo da propaganda é proporcional à bancada eleita pelo partido na Câmara e 10% são distribuídos igualitariamente entre os candidatos.

Nomes fortes de partidos da centro-direita apostam que siglas como PSD, PP, PR, MDB e DEM devem desistir de lançar nomes ao Planalto e se reunir em apoio ao tucano. Possíveis candidatos do MDB, o presidente Michel Temer e o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles alcançam, no máximo, 2% das intenções de voto. Já o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), oscila entre 1% e 2%. Os partidos têm até 15 de agosto para registrar as candidaturas.

Paulo Whitaker / Reuters
PSDB aposta em aliaças locais e tempo de propaganda em rádio e televisão, estratégias tradicionais, para ganhar as eleições presidenciais.

Eleições de 2018 são atípicas

O cientista político e professor do Insper Carlos Melo alerta que as eleições presidenciais de 2018 acontecem em um momento atípico, após uma série de eventos políticos no País, como o impeachment de Dilma Rousseff e a Operação Lava Jato. Esse cenário influencia na dinâmica das campanhas, de modo que não é possível assegurar que a estratégia tradicional será vitoriosa.

"Quem fala isso (a vitória da estratégia tradicional) está baseado em série históricas. As eleições têm se mostrado assim normalmente. O grande problema é que nós não vivemos um tempo normal", afirma o especialista. "Temos uma eleição após um impeachment, teve a maior depressão da História recente do Brasil, um escândalo enorme que é a Lava Jato, o político mais popular do País está preso. Então, eu diria que é uma afirmação perigosa com grande risco de estar errada", completa.

Na avaliação de Melo, alianças locais podem ser mais efetivas para cargos proporcionais, mas com efeitos limitados na corrida presidencial "Aí [nas eleições para deputados] a máquina talvez tenha uma lógica descolada da crises e dos escândalos porque é o curral [eleitoral] que vai lá e vota no deputado que conseguiu uma ponte ou um posto médico. Agora, presidente da República obedece muito a uma lógica de opinião pública também e hoje ela é avessa ao status quo, aos políticos que nós temos", analisa.

Quanto ao uso dos meios de comunicação, Melo vê uma limitação no alcance das redes sociais para conquistar novos votos, estratégia adotada por alguns presidenciáveis. "A internet prega para convertidos. Não vejo você ganhando votos. São tribos que se fecham", afirmou.

Quem são os presidenciáveis de 2018