27/04/2018 12:54 -03 | Atualizado 27/04/2018 21:09 -03

Cecília Silveira, a regente de orquestra que ensina música na periferia de Porto Alegre

"Em uma comunidade com baixa autoestima, a Orquestra Villa-Lobos ajudou a gerar um sentimento de pertencimento. A comunidade percebeu que era parte disso."

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
A professora e regente Cecília Rheingantz Silveira ensina há 26 anos crianças e adolescentes da periferia de Porto Alegre.

Cecília Rheingantz Silveira tem um problema com injustiças. E o jeito que escolheu para tentar acabar com elas foi por meio da música.

Há 26 anos, a professora e regente usa os acordes como forma de inspirar e dar a crianças e adolescentes da periferia de Porto Alegre a chance de buscar uma carreira nas artes — ou pelo menos, uma vida longe do tráfico que grassa na Vila Mapa, na zona leste da capital gaúcha.

Ela é a regente da Orquestra Villa-Lobos, um programa que ensina música a mais de 700 jovens e, mais do que isso, forma músicos respeitados até fora do Brasil.

Sempre trabalhei por prazer. E isso não quer dizer que é tudo cor-de-rosa. Também há prazer nos desafios e em superar dificuldades.

Na jornada de Cecília em busca de mais igualdade, ela escolheu ser professora de escola pública — primeiro na rede estadual e depois na rede municipal. Prestou concurso apesar de já ter uma carreira em uma escola particular (e de ter um diploma de jornalista, profissão que exerceu por pouco tempo). "Começou a me dar um desejo grande de trabalhar com o outro lado da história. Precisava disso para me completar."

Assim, passou duas décadas se dividindo entre os filhos da elite porto-alegrense e os da periferia. "Trabalhar nas duas realidades foi fantástico. Ampliei incrivelmente meus horizontes", conta.

Caroline Bicocchi/Especial para Huffpost Brasil
Há decadas, Cecília leciona Artes na Escola Municipal Heitor Villa Lobos e rege orquestra no contraturno escolar.

Se eu tivesse suspirado mais do que respirado, perdido o foco de por que estou aqui, teria desistido no primeiro ano.

Designada para lecionar artes na Escola Municipal Heitor Villa-Lobos, a professora xará da padroeira da música propôs uma atividade no contraturno escolar, para ensinar os pequenos a tocar o instrumento que a arrebatou aos 8 anos de idade e que carregava na bolsa todos os dias. No dia 15 de abril de 1992, nasceu o Clube de Flautas, com 14 alunos inscritos.

Foi necessário muito foco para manter uma atividade que não era obrigação dela nem da escola oferecer. "Se eu tivesse suspirado mais do que respirado, perdido o foco de por que estou aqui, teria desistido." Mas, ao contrário: alguns anos depois, Cecília aumentaria sua carga horária da escola de 20 para 40 horas semanais para se dedicar ao Clube.

Quando se aposentou do ensino privado, 10 anos atrás, fez novo concurso para assumir mais 20 horas semanais no ensino municipal. Ficou, então, com 60 horas de carga horária na Heitor Villa-Lobos. "Me mudei para esta escola. Trabalhava manhã, tarde e noite." Hoje, aos 57 anos, cumpre 20 horas semanais.

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A flauta doce é o instrumento usado por Cecília para combater as injustiças.

Em uma comunidade com baixa autoestima, essa Orquestra ajudou a gerar um sentimento de pertencimento. A comunidade percebeu que era parte disso.

O Clube de Flautas foi crescendo, ganhando mais instrumentos. Cada vez mais turmas de música foram abertas no contraturno das aulas. Alunos mais experientes, que cresciam e deixavam o colégio, se tornaram monitores. Cecília foi estudar para ser regente, o Clube de Flautas tornou-se uma Orquestra e, hoje, é um programa de educação musical.

"Em uma comunidade que não tinha baixa autoestima, essa Orquestra ajudou a gerar um sentimento de pertencimento. A comunidade percebeu que era parte disso e que, portanto, precisava colaborar para que desse certo", analisa.

A Orquestra Villa-Lobos se tornou uma referência na região. "Esta é a única escola da Vila Mapa, é a única opção de lazer da comunidade, precária em vários sentidos, mas é A escola da Orquestra. Isso mudou a minha vida", diz Cecília.

Hoje o grupo artístico tem 45 integrantes, entre 11 e 25 anos. Desses, 24 tocam flauta doce, a marca registrada do trabalho, e os demais se dividem nos naipes cordas (violinos, violas e cellos), harmonia (piano ou teclado, violão, cavaquinho, bandolim e baixo) e percussão. "Não somos uma orquestra sinfônica, e 95% do repertório é música popular", explica a regente.

Além das oficinas de música — que os alunos continuam frequentando de forma voluntária, no contraturno da Escola Municipal —, o programa também atende em três escolas infantis e no Centro de Promoção da Criança e Adolescente São Francisco de Assis, ONG de assistência social que atua na região da Lomba do Pinheiro. As aulas são ministradas por 26 educadores musicais, contratados pela ONG, sendo 14 deles, jovens iniciados na Orquestra.

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A Orquestra Villa-Lobos se tornou uma referência na Vila Mapa, na zona leste de Porto Alegre.
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Não gosto de pena. Pena faz a pessoa continuar uma pobrezinha. Precisamos de autoestima.

O grupo se apresenta cerca de 40 vezes por ano. Assim como não recebem salários, os músicos também não ficam com os eventuais cachês — eles vão vai tudo para uma caixinha, usada em viagens culturais, de intercâmbio e de lazer e também para a manutenção de equipamentos. A professora pondera que a concessão de bolsas aos músicos seria um incentivo para manter as crianças na música mas, por outro lado, poderia se tornar a principal motivação, inclusive um fator de obrigação para as crianças, de estarem na Orquestra para ajudar no sustento da família. "Posso estar completamente errada, mas minha aposta é esta: que o vínculo deles seja por interesse."

Até agora, deu certo. Cecília não tem a conta de quantos jovens já passaram pelo programa nestes 26 anos, mas lembra bem das histórias deles — os sucessos e os fracassos. Conhece pelo nome os 6 que atualmente cursam música na universidade (e os que já se formaram), assim como os poucos que largaram a Orquestra e se envolveram com o tráfico. Conta com particular orgulho a história de Vladimir Soares, que saiu da Lomba do Pinheiro para Stuttgart (Alemanha), onde cursou 2 mestrados e é professor e solista de flauta doce, além de ídolo da gurizada da Vila Mapa. "Ele é um exemplo possível. Não desperdiçou nenhuma oportunidade na vida dele."

A possibilidade de viajar e conhecer outros países é outra experiência que a Orquestra proporciona a seus membros, muito cara a Cecília. Em outubro, por exemplo, eles vão à Argentina para um encontro de grupos musicais latino-americanos. "Hoje, eles não vivem mais só restritos à Vila Mapa; eles querem conquistar o mundo."

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto:Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição:Diego Iraheta

Figurino:C&A

Realização:RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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