26/04/2018 13:08 -03 | Atualizado 26/04/2018 13:09 -03

Maria Marighella: A inimiga nº 1 do sucateamento da cultura no Brasil

"O teatro se tornou a maneira que eu encontrei de ter os meus próprios problemas, enquanto a vida da minha casa girava em torno dos problemas do País", conta ativista que é neta de Carlos Marighella.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
Maria Marighella é neta do militante comunista Carlos Marighella, inimigo nº1 da ditadura militar no Brasil.

Século 20, década de 30. Carlos Marighella abandonou o curso de Engenharia Civil para ingressar no Partido Comunista Brasileiro (PCB) ainda adolescente. Militante profissional, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi preso pela primeira vez, em 1932, após escrever um poema com críticas ao interventor Juracy Magalhães. Voltou à prisão em 1936, durante a ditadura da Era Vargas, por subversão. Fugiu e passou a viver na clandestinidade até 1939, quando foi posto mais uma vez detrás das grades.

Elegeu-se deputado federal pela Bahia em 1946 e terminado o seu mandado, fez filho, viajou à China para viver de perto a Revolução Chinesa. De volta ao Brasil durante o período do regime militar, foi preso e torturado algumas vezes — e não só resistiu firmemente como também montou o grupo armado Ação Libertadora Nacional, que participou do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick. Considerado o inimigo nº 1 da ditadura, foi morto em 1969, numa emboscada na capital paulista.

Aos menos inteirados na História, saibam ao menos que o "mulato baiano, muito alto e mulato", cantado por Caetano Veloso em Um Comunista, do álbum Abraçaço, é ele. O herói do filme de estreia do ator Wagner Moura na direção, com previsão para estrelar as telonas dos cinemas mundo afora em fevereiro, também é ele. E entre outras coisas, ele também é o avô da protagonista da nossa história: a atriz Maria Marighella.

Eu pegava no comitê do partido e vendia os broches das Diretas Já na escola. Minha mãe diz que com 3 anos eu saía cantando na rua: 'assim que se vê, a força do PC'.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
Nos anos 80, a efervescência política em casa fez Maria Marighella buscar seu refúgio emocional no teatro.

Nascida em 1976, Maria não chegou a conhecer o avô. Mas não foi precisa a presença física para que os ideais revolucionários já povoassem sua cabeça desde bem cedinho. "Eu pegava no comitê do partido e vendia os broches das Diretas Já na escola. Minha mãe diz que com 3 anos eu saía cantando na rua: 'assim que se vê, a força do PC [Partido Comunista]' (risos)."

Só que essa militância constante em casa era, para uma criança, "muitas vezes muito chata". "Às vezes era terrível. Eu me lembro muito da campanha de 82, em que meu pai foi candidato... Era o ano da minha alfabetização, eu tava aprendendo a ler e a escrever, tendo as minhas crises e construindo uma coisa importante, e meus pais estavam nessa correria", relembra.

No maior estilo Mafalda (eu juro que o vestido vermelho foi pura coincidência), apesar de curtir ter acesso e vivenciar aquelas experiências políticas dentro da boca do furacão, na frente dos pais, batia o pé e dizia: "isso tudo é um saco, quero viver a minha própria vida, meu direito, meu espaço, minha individualidade, vocês não me respeitam, vocês não ligam para mim".

O teatro se tornou a maneira que eu encontrei de ter os meus próprios problemas, enquanto a vida da casa girava em torno dos problemas do País.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
Marighella descobriu-se como atriz e, logo depois, como militante de políticas culturais na Bahia e no Brasil.

Dividir a atenção com o retorno da democracia após 21 anos não era só árduo quanto egoísta, então tratou de procurar um lugar no qual pudesse ser a personagem principal. "O teatro se tornou a maneira que eu encontrei de ter os meus próprios problemas, enquanto a vida da casa girava em torno dos problemas do País, do coletivo. O teatro era onde eu podia ter as minhas próprias crises, as minhas próprias questões", explica.

Entrou nas artes dramáticas para escapar e acabou fisgada. Fez parte do grupo teatral do colégio — que por acaso tinha entre os membros um rapazinho chamado Vladmir Brichta —, saiu para ingressar no Curso Livre de Teatro da UFBA, em 1992, e, no ano seguinte, quando teve idade para se inscrever numa faculdade, passou no curso de Artes Cênicas, com bacharelado em Interpretação Teatral.

Apesar de até ter ingressado a Juventude Comunista na adolescência, lá não fez "nada muito relevante". Seguiu o que traçou desde a infância: uma vida voltada para o mundo artístico.

"Toda família fica preocupada — mesmo as mais progressistas (risos) — quando o filho ou uma filha almeja uma carreira, uma vida profissional como artista", revela, apontando para a série de quadrinhos na parede da sala do apartamento. Nela, a seguinte pergunta escrita em bilhetes de loteria: "artista precisa de sorte?".

Toda família, mesmo mais progressista, fica preocupada quando o filho ou uma filha almeja uma carreira, uma vida profissional como artista.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
Seja na arte ou na política cultural, o sangue revolucionário sempre pulsou nas veias de Marighella.

O sangue revolucionário, no entanto, não demorou a voltar a pulsar nas veias de Maria — e a melhor parte: unindo o útil ao agradável. A primeira consciência real sobre a importância das políticas das artes veio em 2002, quando houve o lançamento das câmaras setoriais, que tinham por finalidade a consolidação de um canal organizado para o diálogo, a elaboração e a pactuação entre os segmentos das artes e o Ministério da Cultura (MinC). Participou olhando de longe e dando um pitaco aqui e ali como atriz militante, até 2011.

Muita coisa já havia mudado no cenário cultural do Brasil quando recebeu o convite para assumir a coordenação teatral da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb). Entre os principais desafios encontrados, manter os dois eixos principais de mudança já iniciados pela gestão anterior: 1) A política de territorialização, que sugeria descentralizar a verba antes concentrada somente em Salvador para o restante da Bahia; e 2) a política de fomento, que pretendia estabelecer uma arrecadação que não fosse exclusivamente oriunda de empresas privadas.

"Eu pude finalmente vivenciar uma experiência política, da política como direito, como cidadania, construindo políticas públicas para o campo cultural, que foi onde eu me formei", aponta. Gostou tanto da coisa e gostaram tanto do trabalho que lá ela fez que foi chamada, em 2014, para assumir a coordenação de teatro da Funarte (Fundação Nacional das Artes), ligada ao MinC. O objetivo era o seguinte: fazer em caráter nacional tudo aquilo que foi aplicado no estado.

Eu pude vivenciar a experiência política, construindo políticas públicas para o campo cultural, que foi onde eu me formei.

Se propôs a auxiliar na elaboração de uma Política Nacional das Artes (PNA), que pretendia desenvolver "projetos em parceria para territórios específicos visando à coesão territorial", basicamente o que foi realizado nos estados, mas agora com um caráter nacional. "A gente tem um Sistema Nacional de Cultura, mas não tem uma pactuação federativa para o campo artístico, não sabe bem quem é responsável hoje por cada coisa, se é município, estado ou União... Não tem um grande acordo, e esse era o objetivo do PNA", resume.

No entanto, houve um impedimento no meio do caminho. Tanto Marighella quanto a equipe responsável por elaborar a política optaram por deixar a pasta em 2016, com o impeachment da então presidente Dilma Rousseff. "Antes de sairmos conseguimos publicar, fizemos um compêndio das experiências. Está entregue à sociedade para que a própria sociedade possa tomar conta desse acúmulo. Foi uma experiência curta, mas como diz Wagner Moura, intensa."

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
Marighella foca em suas ações culturais nos municípios, onde "a sua vida se realiza".
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É no município que a sua vida se realiza. A União o estado são, de certo modo, uma abstração. A gente precisa hoje pensar na vida da cidade, na vida comum, no território onde a gente bota o pé.

Foi bonito, foi. Foi intenso, foi. Mas ela não ficou parada por muito tempo não. Logo que deixou o MinC, voltou à Bahia com mais um novo desafio: assumir a diretoria dos Espaços Culturais da Secretaria de Cultura do estado, "tomando conta" de 17 espaços culturais distribuídos em 12 municípios baianos. E, segundo ela, foi nesse retorno que entendeu que o poder da cultura está justamente onde ela havia começado: nos municípios. "É nos municípios que a sua vida se realiza. A União o estado são, de certo modo, uma abstração. A gente precisa hoje pensar na vida da cidade, na vida comum, no território onde a gente bota o pé."

Para Maria, hoje, mais do que nunca, é necessário vislumbrar estes espaços culturais como equipamentos que funcionem como territórios livres para a invenção, convivência e experimentação. Mesmo engajada com as políticas culturais, ainda lhe sobra energia para se dedicar à paixão que a fez se enxergar como pessoa no mundo lá no comecinho.

E haja energia, diga-se de passagem: está em cartaz com o espetáculo Solas, no qual interpreta um monólogo protagonizado pela Ovelha Dolly – sim, essa mesma que você está pensando – e estreará, em breve, uma série para a TV aberta chamada Crimes Bizarros.

Entre um projeto e outro, ainda arranjou tempo para homenagear o sobrenome que carrega com um orgulho descomunal. No longa Marighella, interpretará a avó Elza, mãe de seu pai Carlinhos, e primeira mulher de Marighella. "É uma história muito difícil de ser contada. Afinal são 40 anos de luta. Mas o Brasil precisa saber que tem grandes lutadores e precisa saber quem foi Marighella."

Ressalto somente que o País precisa saber quem foi Marighella e, agora, quem é Marighella.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto:Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição:Diego Iraheta

Figurino:C&A

Realização:RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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