ENTRETENIMENTO
26/04/2018 18:09 -03 | Atualizado 27/04/2018 14:02 -03

Ex-Pajé, um retrato da 'inquisição evangélica' e da potência da cultura indígena

Diretor Luiz Bolognesi fala ao HuffPost Brasil sobre bastidores de longa premiado que combina documentário e ficção.

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Longa acompanha o dia a dia do ex-pajé Perpera, da tribo dos Paiter Suruí.

"O etnocídio não é a destruição física dos homens, mas do seu modo de vida e pensamento". A frase do antopólogo francês Pierre Clastres (1934-1977) aparece nos primeiros instantes de Ex-Pajé e sintetiza os 81 minutos do novo filme de Luiz Bolognesi, em cartaz a partir desta quinta-feira (26).

O documentário mostra as consequências do avanço das madeireiras, do agronegócio e, mais especificamente, da religião evangélica neopentecostal na tribo dos Paiter Suruí. Até 1969, a comunidade situada na região de Rondônia, no norte do País, não havia travado contato com os brancos.

No centro desse cenário particular e com equivalentes nacionais está Perpera, um pajé que foi forçado a abrir mão do posto de autoridade espiritual da tribo depois que seus conhecimentos, ritos e contatos com os espíritos da floresta foram tachados como coisas do diabo por um pastor evangélico que atua na região.

"O filme tem cenas que são flagrantes: a gente abriu a câmera e filmou o que estava acontecendo. E também cenas baseadas nas histórias que eles contavam", explica Bolognesi por telefone. Com essa linguagem híbrida, o longa conquistou o prêmio especial do Júri Oficial de Documentários da Mostra Panorama, no Festival de Berlim, e o prêmio da crítica do Festival É Tudo Verdade.

Além do drama vivido por Perpera - que apesar de convertido continua tendo visões dos espíritos da floresta -, Ex-Pajé aproxima o espectador do índio contemporâneo por meio de olhar repleto de simbolismo e poesia. Aquela imagem dos nativos que usam arco e flechas para proteger seu território dá lugar à figura de índios que portam armas, usufruem de energia elétrica, dirigem caminhonetes, manuseiam maquinário de agricultura, celulares e as redes sociais.

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"Eu nunca tinha ouvido falar de ex-pajé, alguém que estava destituído desse lugar", conta o diretor Luiz Bolognesi.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, o cineasta paulistano falou sobre a proximidade que tem com o universo indígena, iniciada com o roteiro do aclamado Terra Vermelha (2013), e sobre a preocupação estética que teve neste novo projeto - filmado por uma equipe pequena com o mesmo equipamento usado em filmes da saga Star Wars.

Responsável por roteiros de longas famosos como Bicho de Sete Cabeças (2001), Elis (2016) e Bingo – O Rei das Manhãs (2017), Bolognesi lamenta que Ex-Pajé esteja em cartaz em apenas 12 salas no Brasil, onde o "mercado de exibição está montado para a indústria americana", mas comemora os prêmios que o longa recebeu e que proporcionaram uma carreira internacional que terá início em breve.

Rejeitando o rótulo redutor de obra de denúncia, o cineasta acredita que Ex-Pajé é um documentário que vai além da exposição da "inquisição evangélica" sofrida pelos indígenas no País. "O filme também traz reflexão pra gente lutar pela tolerância, pelo direito de que o outro exista com outros valores - seja a comunidade LGBT, seja o terreiro de umbanda, seja o candomblé, sejam os pajés, sejam os judeus, seja a igreja evangélica", afirma.

Leia a entrevista na íntegra:

HuffPost Brasil: Como nasceu o projeto?

Luiz Bologensi: Eu já fiz alguns filmes de temática indígena. Fiz o roteiro de Terra Vermelha, filme que competiu no Festival de Veneza e foi distribuído em mais de 50 países. Depois fiz também um desenho animado, Uma História de Amor e Fúria, que é sobre a história do Brasil e baseada no ponto de vista de um tupinambá que seria imortal. Esse filme também ganhou um festival importante na Europa, o Annecy, depois foi premiado no Japão e na Grécia e também teve distribuição mundial e no Brasil. Eu estava desenvolvendo um documentário sobre pajés, mas no meio do caminho eu conheci o Perpera, que é este ex-pajé na aldeia. Eu nunca tinha ouvido falar de alguém havia sido destituído desse lugar de pajé. Quando eu o conheci, resolvi mudar projeto. Em vez de entrevistar 8 pajés, eu achei que era urgente contar a história dele especificamente. Decidi então passar um mês na aldeia, filmando o dia a dia para contar a história dele, que se vê obrigado a deixar de ser pajé por uma perseguição - quase uma inquisição evangélica.

Ex-Pajé mescla documentário e ficção. Como foi a construção dessa narrativa?

O filme tem cenas que são flagrantes: a gente abriu a câmera e filmou o que estava acontecendo. E tem também cenas baseadas nas histórias que eles contavam. A gente reencenava e eles mesmos viviam o que tinham relatado. Foram feitas muitas cenas desse tipo. A gente então estabeleceu uma ordem para elas na ilha de edição, criamos uma montagem com uma estratégia de narrativa de ficção e o filme ficou com essa cara: não dá pra saber se é um documentário ou se é uma ficção. Eu chamo de documentário porque a história é toda baseada em fatos reais e acontecimentos reais.

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Filme foi premiado no Festival de Berlim e no É Tudo Verdade - um dos mais importantes festivais de documentários da América Latina.

O filme também chama a atenção pela qualidade estética. De onde veio essa preocupação?

O meu objetivo era não só contar essa história da violência evangélica, mas também apresentar a potência da cultura indígena. E a maneira que eu achei melhor de contar essa história e de mostrar essa potência era pela poesia da fotografia e do som. A beleza deles [os índios] está na calma, na serenidade, no pé de mamão carregado. Está na maneira holística como eles vivem em lugares bonitos - porque eles preservaram a floresta. Então eu optei trabalhar com uma câmera de cinemascope, que é muito sofisticada de fotografia - a mesma que rodou Star Wars. A gente não usou nenhuma luz artificial, só natural. A equipe era muito pequena, filmamos em apenas cinco pessoas essa história. O objetivo desse olhar rigoroso com era não fazer uma câmera nervosa, uma câmera que corre atrás dos acontecimentos, tentando assim traduzir a maneira deles de ser. Eles têm essa calma, essa serenidade, esse olhar contemplativo. Eles não são evasivos e nem agressivos. E eu tentei trabalhar com a fotografia dentro desse registro, entendendo que seria a melhor maneira de traduzir a poesia que existe nessa civilização indígena tão forte.

Você definiria seu filme como uma peça de denúncia?

Eu não vejo ele como uma peça de denúncia. Porque o objetivo do filme era igualmente mostrar, como te falei, a beleza da vida indígena. Acho que tocar o alarme dizendo "atenção, está havendo uma inquisição evangélica" era uma coisa importante, mas não a única. O olhar estético de tentar traduzir o modo de vida indígena também era muito importante. Eu fiz Ex-Pajé nesse formato cinemascope e com som muito sofisticado. Ele oferece uma experiência de um grande filme. Porque eu queria trazer essa percepção que a gente tem quando está com eles de que a floresta está viva, de que há muitos bichos, de que tudo isso está preservado e tem valor. Eu sempre quis que o filme fosse uma experiência sinestésica, uma grande viagem na sala de cinema. Eu acho que a denúncia faz parte, mas não resumiria o filme a isso.

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Longa dispensa recurso de entrevistas para registrar o dia a dia do protagonista.

O longa foi premiado no Festival Berlim e no Festival É Tudo Verdade. Qual é a importância desse tipo de reconhecimento para o filme?

Eu estou muito feliz. Foi muito difícil fazer o filme. A gente sabe que é um filme pequeno, mas eu tinha medo de que ele caísse no ostracismo. Tinha medo de que nem os índios gostassem e nem o público e a crítica se interessassem. Eu já mostrei Ex-Pajé para várias lideranças indígenas e eles gostam muito do filme. Eles imediatamente me pedem DVD para levar para a aldeia. E eu estou me comprometendo a mandar isso para eles daqui um mês, quando o filme já estiver no final da carreira de cartaz. Ex-Pajé teve essa, digamos, consagração ao ser selecionado para [o Festival] Berlim e, mais que isso, ser premiado. Foi selecionado para o É Tudo Verdade, que é uma seleção muito restrita, e ganhou o prêmio da crítica - um prêmio que me deixou muito feliz. Além da questão da nossa própria satisfação pessoal e reconhecimento, o mais importante dos prêmios é que divulga o filme. As pessoas querem ver um filme quando ele é premiado. Com o prêmio de Berlim, o filme conseguiu ter sessões programadas em três continentes. Já tem exibição prevista para Israel, Cracóvia, Munique, Paris e Vancouver, no Canadá. O filme pegou uma onda boa. Até agora, ele teve nove sessões: quatro no Festival de Berlim e cinco no Festival É Tudo Verdade. As nove sessões foram absolutamente lotadas, com gente na porta esperando sobra de lugares. Isso está me deixando muito feliz. E nós sabemos que é um filme pequeno. Vamos estrear no Brasil com 12 cópias, enquanto Vingadores [Guerra Infinita] está estreando com 2 mil.

Aproveitando que tocou nesse assunto, como você se sente ao ver um filme seu, premiado, sobre um assunto urgente, entrando em cartaz em apenas 12 salas no Brasil?

Isso é triste, mas estou naquela fase de pensar que não é o momento de ser pessimista. É hora de ir à luta. O filme vai ser exibido em 12 salas, mas nós vamos correr por outras cidades na sequência. Nós vamos para mais oito ou dez cidades ainda. Vai ocorrer uma segunda e uma terceira etapa de lançamento. O importante é lutar. Mas o mercado de exibição está montado para a indústria americana, com uma ação de marketing muito grande e a gente tem pouco público para filme de arte. De um modo geral, não só os brasileiros. É uma coisa que a gente tem que mudar no longo prazo, melhorando a educação do nosso povo. É preciso que que mais gente leia livros, veja filmes diferentes - não apenas aqueles de entretenimento fácil. É preciso que mais gente veja a arte como um espaço para reflexão. Você se diverte, você se alimenta, mas você também é incomodado. Você não vai ali só para só dar risada ou só viver a adrenalina de uma cena de violência. Mas é isso é uma luta de longo prazo. Hoje o mercado é esse. É o que temos. E a gente tem é que lutar.

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Em breve, longa será exibido em salas de Israel, Cracóvia, Munique, Paris e Vancouver.

Colocando em perspectiva essa sua proximidade com a cultura indígena, você vê com otimismo ou pessimismo as mudanças pelas quais ela passa?

Eu enxergo com muita preocupação, mas com otimismo. Porque eu acho que existem muitas lideranças e pajés que estão se organizando para enfrentar o problema. Eu acredito também que dentro da igreja evangélica, nem todos são fundamentalistas. Ou seja, nem todos pregam o ódio e a perseguição aos pajés. Esta semana mesmo estive em Belo Horizonte e um pastor foi ver o filme. No final, veio conversar comigo e disse que conhece essa realidade e que acha um absurdo. Para ele é uma negação dos princípios da igreja evangélica pregar o ódio e a perseguição e não reconhecer o direito de uma outra cultura viver. Ele me disse ainda que é possível a igreja e os pastores conviverem com o candomblé e com a umbanda. Por isso eu sou otimista. Acredito que tem muita gente lutando e resistindo contra a intolerância. O filme também traz reflexão pra gente lutar pela tolerância, pelo direito de que o outro exista com outros valores - seja a comunidade LGBT, seja o terreiro de umbanda, seja o candomblé, sejam os pajés, sejam os judeus, seja a igreja evangélica. Temos todos direito de existir e não faz sentido uma ideologia política ou uma religião que pregue a destruição de todas as outras formas de cultura. Isso é muito nocivo. Acredito que a gente vai se organizar e que a resistência está vindo em várias áreas.

Éx-Pajé está em cartaz no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. Tem 81 minutos de duração, classificação indicativa livre e distribuição da Gullane.

Veja o trailer abaixo:

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