25/04/2018 13:17 -03 | Atualizado 25/04/2018 13:42 -03

Luana Hansen: A rapper que teve coragem de apertar o play na música e ir adiante

"Cheguei a fumar 80 pedras de crack por dia. Fui presa no mercado onde trabalhava. Mas não fui mandada embora; eles pagaram tratamento para mim", revela.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Luana Hansen é rapper e produtora musical com 20 anos de carreira.

Foi em 2000 na Fundação Casa do Tatuapé, na zona leste de São Paulo. Era dia das crianças e o grupo de rap do qual Luana Hansen, 37 anos, fazia parte foi chamado para fazer um show para os meninos. O governo do estado mandava uma van buscar o grupo e levava até o local. Coisa fina para uma galera que só cantava na quebrada.

Durante a apresentação, os garotos, todos sentados em cima das mãos, não podiam levantar. Uma briga com o próprio corpo que custava em ficar parado diante do ritmo e da batida forte da música e das letras do rap. Ali, ninguém podia sequer levantar a mão para sentir junto a música. Nada de dedo no ar. O primeiro show.

"Eles não podiam levantar. Ficavam todos sentadinhos só mexendo a cabeça... Isso ficou marcado na minha memória. Na hora pensei que precisava fazer rap pra mudar o sistema. Muitos dos moleques ali eram parecidos com os meus amigos, eu já tinha estado na Fundação Casa e quando vi aqueles moleques não podendo curtir um show foi um divisor mesmo. Foi a primeira vez que tinha sido aplaudida e não tinha feito coisa errada. Vi que tinha que mudar minha vida." Na verdade, Luana já tinha começado a mudar.

"Eu vou através do funk falar da realidade

Só quem caiu na tranca dá valor pra liberdade

De frente com meninos aqui da fundação

Você sente na pele o valor da exclusão"

[Trecho de Funk da Realidade]

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Em seu rap, Luana Hansen canta sobre sua identidade como mulher negra, periférica e lésbica.

Cheguei a fumar 80 pedras de crack por dia. Fui presa no mercado onde trabalhava. Mas não fui mandada embora; eles pagaram tratamento para mim.

Ex-traficante e ex-usuária de crack, Luana passou por uma internação após ser presa em seu trabalho. "Cheguei a fumar 80 pedras de crack por dia, foi um período bem decadente da minha vida. Fui presa no mercado em que trabalhava, mas minha sorte é que a empresa não mandava funcionário com problema de droga embora. Eles pagavam uma clínica."

Após cerca de 2 meses de internação, deixou o crack, mas continuava vendendo drogas e foi nessa época que teve contato com o rap. Com o tempo, largou o tráfico e de lá para cá são quase 20 anos de carreira. E uma carreira para se orgulhar, ela sabe.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Luana foi dependente química, usou crack e traficou drogas. Em prol de sua música, virou essa página.

Mas Luana sabe também que tudo dependeu sempre dela. Começou a escrever as próprias músicas, falava da sua realidade de mulher negra, periférica, assumidamente lésbica. Seu trabalho tem tudo isso. São músicas sobre aborto, machismo, Lei Maria da Penha, racismo, a morte de Marielle — e foram gravadas ali em Pirituba, na sua casa.

Uma casa em uma rua sem saída com numeração impossível de decifrar. Uma garagem bem grande, com portão grafitado. Gatos, brinquedos espalhados. O teclado que as crianças pediram para tocar logo de manhã na garagem, seus troféus em uma prateleira. O estúdio que ocupava um cômodo hoje está montado na cozinha porque o antigo espaço virou quarto das crianças — ela e a mulher Gláucia criam 2 filhos juntas, um de 10 e uma de cinco anos.

"Pediu justiça e clamou pela gente

Tratou a favela de jeito decente

Marielle Presente, Marielle Presente, Marielle

Assasinada por lutar pela gente

E a favela hoje luta e sente

Marielle Presente, Marielle Presente, Marielle Presente"

[Trecho de #Marielle Presente]

E no meio disso tudo, grava suas músicas. É responsável por cada parte de seu trabalho, sozinha. "Abri meu próprio estúdio porque eu não conseguia gravar o que eu queria falar. Não conseguia gravar com os caras, sou lésbica assumida e isso sempre me embarreirou, porque parece que o cara tem que te paquerar para gravar seu CD. Eu conheço todos os DJs da cena, estou há quase 20 anos no movimento, mas as pessoas me invisibilizam pelo viés do meu trabalho. Todo mundo gosta do meu trabalho, me admiram, mas sinto que não tenho parcerias."

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Na casa de Luana, há gatos e brinquedos espalhados, grafite, troféus e um estúdio de gravação na cozinha.

Falei logo de cara que era lésbica, e disseram que não tinha lugar para sapatão no hip-hop. Ouvi muito esculacho, mudei música para ficar hétero. Mas o rap me deu esperança, achei que podia ser alguém na vida.

Com pouco recurso, sem apoios, ainda precisou enfrentar muito preconceito quando começou a buscar seu espaço como rapper, uma área dominada por homens. "Sofri mazelas do hip-hop, falei logo de cara que era lésbica e falaram que não tinha lugar para sapatão, ouvi muito esculacho, mudei música para ficar hétero. Mas o rap me deu uma esperança, achei que eu podia ser alguém na vida."

É alguém, com certeza. Rapper e produtora musical. Trabalha como DJ, aprendeu técnica de som, estudou sonoplastia, faz trilha sonora, produz muitos trabalhos. "Sei que tudo que produzi na minha casa, eu apertando o play e eu mesma fazendo, chegou muito mais longe do que eu podia imaginar. Muito mais mesmo. Nesta semana chegou uma carta da Pinacoteca me convidando para ter acesso livre lá, reconhecendo meu trabalho. Gente, eu nunca entrei na Pinacoteca. Nunca pisei lá. Agora vou poder entrar com carteirinha de vip e com meus filhos."

O filho, aliás, foi parar na diretoria da escola por causa dela. A diretora queria saber se a "Luana cantora" era uma das mães dele. Disse que são fãs do trabalho dela por lá. E o trabalho não fica só nos palcos. Ela atua em escolas e na Fundação Casa. "Levo meu estúdio na fundação para as meninas gravarem um CD lá dentro, levo para escolas, levo meu estúdio para vários lugares porque quero dar oportunidade da pessoa falar o que ela quer falar. O pouco de estrutura que tenho tento passar para os outros."

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Luana planeja casar em maio com sua companheira, com quem cria 2 filhos.

Participa da criação dos 2 filhos biológicos da mulher – planeja gerar um em breve – e quer oficializar a união das duas no mês que vem. A ideia é fazer um casamento na rua, quase uma ocupação, brinca. Porque a vida dela foi conquistando e vivendo a rua mesmo. Faz sentido. E sabe que tem muita coisa para celebrar. "Eu vivo de música há mais de 18 anos. Me acham séria e isso é muito gratificante. Sou uma pessoa realizada naquilo que acreditei. E ainda consigo ter uma família."

E Luana continua com planos. "Ainda acredito que minha carreira vai ter esse valor e que não vou precisar fazer tudo sozinha e vou fazer porque eu quero. Mas ainda não cheguei lá, estou buscando esse lugar."

Vai chegar. Porque ela domina essa arte e esse rolê faz tempo.

E aperta o play.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto:Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição:Diego Iraheta

Figurino:C&A

Realização:RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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