COMPORTAMENTO
25/04/2018 11:58 -03 | Atualizado 25/04/2018 14:18 -03

Pais registram a infância de sua filha surda e incentivam o aprendizado de Libras

"O Diário de Fiorella" é um convite para ouvintes e não ouvintes desbravarem o poder da Língua de Sinais.

Reprodução/Facebook/Diario de Fiorella
O casal, que é surdo, começou a pensar em como poderiam ajudar no desenvolvimento da criança e incentivar a pequena a descobrir a língua de sinais. 

Quando Francielle e Fabiano Cantarelli confirmaram a surdez da sua filha Fiorella aos 4 meses de idade, eles marcaram aquele dia como o aniversário de descoberta.

O casal, que é surdo, começou a pensar em como poderiam ajudar no desenvolvimento da criança e incentivar a pequena a descobrir o mundo da língua de sinais.

Por lei, a língua brasileira de sinais (Libras) é reconhecida como a 2ª do País. Mas foi ao criar uma página no Facebook para documentar o desenvolvimento da Fiore que o casal entendeu o quão limitante e limitador ainda era o conhecimento dos sinais.

Para Francielle, o Diário da Fiorella seria uma comunidade para trocar dúvidas e informações com outros pais de filhos surdos.

Porém, a gaúcha percebeu que apenas 5% dos pais surdos também têm filhos surdos. Com o crescimento da comunidade, o casal mudou o objetivo da página e adaptou o conteúdo para que pais ouvintes também pudessem interagir.

Por meio de vídeos, os pais da pequena de 3 anos registram as suas conversas e atividades diárias, como a leitura de livros, a contação de histórias e a percepção de Fiorella sobre o mundo.

Nos registros, os adultos fazem questão de frisar o quão díficil é gravar a menina, que tem se mostrado cada vez mais inquieta e ligeira nas suas inventividades.

Mais do que um registro da ternura que é ver Fiorella crescer, os vídeos são exemplos de como a língua de sinais pode ser ensinada e compreendida por crianças surdas, independente da idade.

"Libras é a 1ª língua da Fiorella, assim como também será a de outras crianças surdas. Os pais precisam compreender e incentivar isso. O desenvolvimento da minha filha é completamente normal e igual ao de crianças ouvintes, eu só preciso adaptar algumas coisas em casa, como a contação de histórias", compartilha Francielle em entrevista ao HuffPost Brasil.

Em conversa com o HuffPost Brasil, a gaúcha compartilhou dicas de como incentivar os pequenos por meio da língua de sinais e também a sua percepção sobre como é ser surda no Brasil.

A Fiorella já nasceu surda? Como vocês começaram a identificar os primeiros sinais da surdez?

Francielle Cantarelli: A Fiorella nasceu surda hereditária. Nós não tínhamos desconfiados da surdez dela, mas no 1º dia da vida fizemos o teste de orelhinha e o fonoaudióloga percebeu que ela não reagiu. Ele pediu para repetir o exame com um mês de vida, e a Fiore também não reagiu. Fizemos os testes umas 3 vezes até marquei com o médico otorrino para fazer outra exame mais profundo para ter certeza. Ela tinha 3 meses e meio de vida e o médico otorrino diagnosticou que ela tem surdez profunda. Nós confirmamos a surdez dela no dia 14 de abril de 2015. Já comemoramos 3 anos de nossa descoberta.

Como é o processo de ensinar Libras para as crianças pequenas como a Fiorella?

Apenas nos comunicando. Os bebês e as crianças aprendem Libras naturalmente com o seu tempo certo, é muito importante que os pais entendam que seus filhos são surdos o mais cedo possível e possam começar a se comunicar em Libras.

Os filhos surdos aprendem Libras como a sua 1ª língua. É a língua natural da Fiorella. Nós não ensinamos, mas nos comunicamos naturalmente e ela aprendeu sozinha com a gente. Também é importante adaptar as coisas em casa, por exemplo, contar as historinhas em Libras com as imagens, com os livros, mostrar sempre os objetos e fazer os sinais.

Pode parecer que não, mas bebês e crianças aprendem os sinais rapidamente! É fundamental que os pais aceitam a surdez dos seus filhos e começam a comunicar em Libras o mais cedo possível. As crianças surdas se desenvolvem normalmente como crianças ouvintes.

Quais tipos de atividade ajudam a desenvolver a relação da bebê com a Língua de sinais?

É fundamental que os pais possam utilizar Libras sempre em casa. Adaptae a literatura, por exemplo, é um ótimo exercício. Os pais devem mostrar as imagens sem a palavra em português. No lugar, é importante mostrar os sinais das imagens. As crianças surdas vão entender os sinais por causa de imagens. Isso é fundamental.

De que forma o perfil nas redes sociais te ajuda?

Quando confirmamos a surdez da Fiorella, logo nos preocupamos com a sua educação, pois já sabíamos que o nosso País não tem muitas estruturas para crianças surdas, principalmente quando se fala de escolas de surdos.

Nós decidimos criar a página no Facebook para compartilhar informação e dúvidas com os pais surdos e filhos surdos. Nós procuramos os artigos e textos sobre o aprendizado da língua de sinais e a educação de crianças surdas.

Nós tínhamos muitas dúvidas sobre como estimular a criança surda e como nós podemos auxiliar o seu desenvolvimento. Sabemos que a Fiore se comunica em Libras como sua 1ª língua, mas também queremos estimulá-la para que ela interaja também com outras crianças não-surdas.

Vocês recebem pedidos de ajuda de outras famílias?

Na página, percebemos que muitos pais não-surdos apresentam muitas dúvidas sobre o desenvolvimento de seus filhos surdos.

Por meio dos vídeos, nós tentamos mostrar o nosso jeito de estimular e incentivar a Fiore. Esperamos que a página ajude-os para que eles entendam como é o mundo surdo e como eles podem incentivar as crianças surdas.

Sempre falamos que a Libras é 1ª língua de pessoas surdas. Por isso, todos os pais ouvintes devem aprender para se comunicar com seus filhos.

A página também nos motiva a continuar esse trabalho que nós estamos fazendo por Fiorella. As pessoas interagem e comentam em nossas publicações.

Sobre a Fiorella, quais são as suas atividades preferidas? E o que ela não gosta?

Por enquanto, ela ama explorar no mundo da literatura. Aqui em casa, nós sempre mostramos os livros com imagens para ela, mostramos desde que ela era bem pequena. Até hoje, ela adora explorar as historinhas.

Mas ela também está em uma nova fase e gosta de andar bicicleta e patinete na praça. Percebemos que está começando a brincar com as bonecas, também, e criar as suas próprias histórias.

Você acha que ainda existe muito preconceito em relação a população surda no Brasil?

Quando eu era criança tinha muito mais preconceito do que agora. Percebemos que muitas pessoas começam a aceitar as pessoas que são diferentes.

Algumas escolas tem a disciplina de Libras, o que ajuda bastante. Muitas universidades píblicas e particulares também têm. É importante que os seus alunos aprendam Libras para se comunicar e ter mais respeito com o mundo surdo.

A Fiore, por exemplo, está na escolinha regular. A diretora a recebeu muito bem, até procurou um professor bilíngue e um assistente bilíngue para atender as demandas da Fiorella. Quando eu era criança, eu não tive essas experiências tão positivas como a Fiorella.