MULHERES
24/04/2018 18:15 -03 | Atualizado 26/04/2018 15:26 -03

A revolta das meninas nojentas

Ilustradora de 25 anos está descrevendo orgulhosamente os hábitos corporais mais nojentos das mulheres. Bem-vindo ao mundo da menina nojenta.

Tallulah Pomeroy

Sou uma menina nojenta, e é assim que me identifico desde que consigo me lembrar.

Devo agradecer em parte à minha mãe. Apesar de ela passar uma camada grossa de batom antes de fazer qualquer coisa, inclusive entrar na banheira, ela segue à risca a regra de deixar o xixi na privada, para economizar água.

Para mim e minhas irmãs, essas transgressões higiênicas sempre foram motivo de orgulho. Quando éramos menores, competíamos para ver quem passava mais tempo sem tomar banho e dávamos risada comparando que parte do corpo estava coçando mais. Fazíamos castelos de papel higiênico nas privadas amareladas deixadas pela minha mãe, empilhando o papel como nuvens de algodão pairando sobre um fosso cheio de urina.

Continuei nojenta depois de crescer.

No primeiro ano da faculdade, usava a mesma legging todos os dias, tirando o cheiro da área da virilha em vez de lavá-la. No último ano, em vez de descer para o banheiro (que ficava no térreo), comecei a fazer xixi num vidro. Se caísse um pouco pra fora, eu limpava com alguma roupa suja.

Tem mais gente como eu. Já vi provas em listas de internet. Tem as "49 coisas mais nojentas de que as meninas gostam secretamente", que inclui passar os dedos nos pelo pubianos de maneira não-sexual. As "19 coisas nojentas que todas as mulheres fazem na vida privada (ou pelo menos quando acham que não tem ninguém olhando)", da Bustle, exalta a alegria de "examinar a sujeira da sua calcinha como se fosse cientista". As "13 coisas supernojentas que as mulheres fazem e que os homens não sabem", da Cosmopolitan, é a campeã: descreve limpar-se depois de um combo cocô-menstruação.

As manchetes deixam claro que inúmeras mulheres curtem essa nojeira por curiosidade, preguiça e puro fascínio. Mas essas ofensas corporais, tão contrárias à imagem de limpeza refletida em livros de etiqueta e catálogos de bonecas, muitas vezes ficam em segredo – ou, no mínimo, fora da jurisdição dos homens.

Tallulah Pomeroy
E então temos A Girl's Guide do Personal Hygiene (guia de meninas para higiene pessoal, em tradução livre), livro ilustrado pela artista britânica Tallulah Pomeroy e cheio de confissões nojentas que deixam as minhas no chinelo.

Dividido em capítulos que incluem "Cantinhos", "Menstruação" e "Lanchinhos Gostosos", o livro de Pomeroy – lançado em 13 de fevereiro pela Soft Skull Press – contém histórias enviadas anonimamente detalhando as nojeiras que as mulheres fazem de portas fechadas, desde cheirar calcinhas sujas a deixar a menstruação escorrer pelas calças.

O livro de 112 páginas é uma celebração de tudo o que é feminino e sujo – uma homenagem às mulheres com cera demais no ouvido, muitos pelos pubianos e um excesso de roupas manchadas de sangue.

Pomeroy, ilustradora da Catapult, começou o projeto há dois anos. A inspiração veio de uma conversa que ela entreouviu: duas mulheres estavam fofocando sobre uma terceira que tinha cagado na pia. Escandalizadas, elas declararam que quem era capaz de algo assim "não era menina". Isso levou Pomeroy, 25, a pensar: quais dos seus hábitos a desqualificariam dessa categoria?

Na mesma época, o então namorado de Pomeroy lhe emprestou Wetlands, livro de Charlotte Roche que conta a história de uma menina que vai parar no hospital depois de uma depilação anal que deu errado. A protagonista, acamada, não poupa nenhum detalhe de sua vida sexual e de seus hábitos de higiene. "Amo quando o esperma seca na minha pele, quando forma uma casquinha", diz uma frase relativamente comportada.

Não é suficiente? Tem mais aqui:

"Quando masturbo alguém, sempre me certifico de que cai um pouco de porra na minha mão. Esfrego entre meus dedos e deixo secar embaixo das minhas unhas compridas. Assim, mais tarde lembro do meu parceiro de foda roendo as unhas e mordiscando os pedacinhos de porra; mastigo e, depois de deixá-los derreter e saboreá-los, engulo tudo. É intencional, e tenho orgulho: um bombom sexual memorável."

Essas são as passagens que estimulam uma parte dos leitores e deixa o restante com enjoo. Pomeroy se inclui no primeiro grupo, maravilhada com a capacidade de tratar o corpo como um objeto de prazer sexual e glórias grotescas. Ela quis fazer o mesmo com A Girl's Guide do Personam Hygiene.

"Ela é desavergonhada a ponto de sentir orgulho", diz Pomeroy sobre a personagem principal de Wetlands. "Ela adora ser nojenta. Acho que foi com isso que mais me identifiquei – que poderia me sentir positiva a respeito dessas coisas, em vez de sentir vergonha."

Tallulah Pomeroy

Essa combinação de eventos – ler Wetlands e entreouvir a conversa da menina que cagou na pia – levou Pomeroy a criar um espaço em que mulheres pudessem compartilhar detalhes nojentos de suas vidas. Em 2016 ela criou um grupo privado no Facebook chamado ironicamente de "A Girl's Guide do Personal Hygiene" e convidou todas suas amigas a participar. As amigas convidaram mais amigar e a coisa virou "uma loucura", diz Pomeroy.

As histórias começaram a aparecer, numa competição para ver quem conseguia ser mais nojenta. Pomeroy criou um formulário para que as histórias pudessem ser contadas anonimamente. As confissões atingiram um nível "Roche". "Gosto de tirar catota do nariz enquanto me masturbo. Ajuda", escreveu uma. "Gosto do cheiro do meu copinho de menstruação, porque me disseram que tem cheiro de carne", escreveu outra.

As mulheres começaram a usar o grupo para conselhos – como colocar um DIU, por exemplo, ou ter orgasmos múltiplos. Rapidamente ficou claro para Pomeroy que o espaço não era somente algo que as mulheres queriam – era algo de que elas precisavam.

Desde o começo, diz ela, existiu o sonho de transformar as confissões em livro – um guia de etiqueta irônico que "tiraria um sarro da ideia de que mulheres têm de ser higiênicas". Mas ela tinha suas dúvidas. Além da gratificação, o grupo despertou em Pomeroy um senso até então desconhecido de humilhação.

"A voz da vergonha", explica ela. "A voz que você ouve desde criança, dizendo que seu corpo é sujo. Dizendo que as mulheres são limpas e bonitas e não espremem espinhas."

Em texto para revista The Atlantic, Leslie Jamison discutiu um tipo semelhante de humilhação relacionado a escrever sobre temas corporais. "Uma certa vergonha", escreve ela, "como um ligeiro cheiro corporal que eu não sentia porque era meu: era corpo demais, e esse corpo-demais era melodrama e banalidade ao mesmo tempo".

Roche trata de algo parecido. Apesar de Wetlands tornar-se uma obsessão cult – foi o livro mais vendido do mundo em março de 2008 e traduzido do alemão para 27 línguas -, alguns críticos disseram que o romance era "apelativo" e nada pioneiro, mas sim "falsamente chocante". Em uma resenha para o The New York Times, Sallie Tisdale destruiu o livro, classificando-o de "banal e repetitivo", e o vocabulário da autora de "limitado".

É claro que os homens há muito tempo podem conversar sobre seus segredos sexuais e hábitos de banheiro. "Conhecemos esse tipo de humor masculino e o estereótipo do homem fedido", diz Pomeroy. Mas, quando uma mulher quer rir de um pelo encravado ou de um fluxo mais malcheiroso, corre o risco de ser considerada "sem graça, sem emoção, não-provocadora e certamente nada excitante" (http://www.complete-review.com/reviews/moddeut/rochec.htm), escreveu Nicola Barr, do The Guardian, sobre Roche.

Pomeroy ataca esse tipo de crítica literária. "É muito mais fácil dizer que o livro é ruim e banal do que chamar-se a si mesmo de 'pudico'", afirma ela. Pomeroy acha que a prosa de Roche, escrita da perspectiva de uma adolescente, está correta – é íntima, despretensiosa e imperfeita.

"A linguagem de Wetlands não é complicada", diz ela. "Não está tentando impressionar. A forma é sincera, aberta e conversacional. Parece que [a autora] está do seu lado."

Tallulah Pomeroy

As dúvidas de Pomeroy não duraram muito. Com a ajuda da Soft Skull Press, ela começou a compilar as melhores histórias do grupo do Facebook e a desenhar as ilustrações. Com a exceção de alguns erros de digitação corrigidos, os textos foram preservados.

"As meninas estavam dizendo essas coisas pela primeira vez", afirma Pomeroy. "Elas pensaram nas palavras que queriam usar. Acho importante não tentar fazer parecer mais grandioso do que realmente é."

Decidir que anedotas entrariam no livro foi difícil. Uma mulher contou que, às vésperas de um ménage, tirou o absorvente interno e o guardou num bule de chá – que foi encontrado pela mãe do namorado. Os editores acharam que a história era mentira; Pomeroy deu risada porque conhecia os envolvidos.

As histórias ganham vida com as ilustrações de Pomeroy. Pintada com guache, uma mulher cagando parece vagamente cool. Como a linguagem, as imagens não tentam dourar a pílula. Pomeroy desenha com clareza os momentos mais vis – cocô saindo da bunda, calcinhas manchadas, espinhas com pus.

"É engraçado porque poderia ser eu [nos desenhos]", diz ela. "Não tive de melhorar nada. Os desenhos são muito rústicos. Sempre são as primeiras versões. Se fizer mais de uma, eles perdem aquele imediatismo. Queria que tudo parece novo e sincero, como as histórias. Foi um alívio perceber que meu estilo funcionava."

Como muitas das confissões são anônimas, Pomeroy não sabe quantas – ou se -- mulheres trans ou não-conformistas de gênero contribuíram. "Meu entendimento do termo 'meninas' se refere a qualquer pessoa que se identifique como mulher, a despeito de gênero", diz ela. "A maioria das histórias se refere a corpos fisicamente femininos, mas nem todas, e há o tema subjacente de resistir à ideia de feminilidade, que é relevante para mulheres trans e cis."

O livro foi elogiado por escritoras como Carmen Maria Machado (Her Body and Other Parties) e Alissa Nutting (Tampa, Made for Love), ambas autoras que incluem a experiência corporal feminina em seus livros. Quando o livro chegou à redação do HuffPost, eu e minhas colegas nos debruçamos sobre ele, apontando as histórias que aconteceram conosco e quais pareciam absurdas. Logo depois estávamos contando as nossas próprias anedotas de cera de ouvido e cabelos da bunda.

Uma das principais mensagens do movimento #MeToo é o poder das histórias das mulheres. O subtexto, entretanto, é que, para serem levadas a sério, elas têm de tratar de histórias pessoais de trauma e dor.

"É importante contar essas histórias também", diz Pomeroy. "Elas não diminuem a força das histórias mais sérias. Elas ainda afirmam que o corpo das mulheres é nosso."

Talvez o direito de espremer as próprias espinhas não seja a cruzada feminista que defina nosso tempo. Mas a turma de Pomeroy não está só causando. Elas estão se rebelando contra crenças antigas de que o corpo da mulher é motivo de vergonha, é sujo, é obsceno – pelo menos antes de uma dose de arrumação. Elas mostram o lado cabeludo, fedido e grudento em parte em solidariedade com as mulheres que querem ficar à vontade em seus próprios corpos.

"Não fomos criadas para o prazer de outro", diz Pomeroy. "Nossos corpos não são para uso alheio. Não estou aqui para ser apalpada e também não estou aqui para ouvir que meu corpo é nojento. Acho que é tudo a mesma coisa. Se alguém fica ofendido com a ideia de meninas mexendo em seus pelos encravados, precisa pensar melhor no que espera das mulheres. Tem algum problema aí."