24/04/2018 13:16 -03 | Atualizado 24/04/2018 13:17 -03

50 Tons de Pretas: A banda de mulheres negras que nasceu na colônia alemã do RS

🎶Solta esse cabelo black / E vai onde quiser / Respeite a minha herança, sou guerreira, sou mulher. 🎶

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
Dejeane Arruée, Graziela Pires e Monique Brito integram os 50 Tons de Pretas.

"Preta, olha onde você chegou

Pois um dia acreditou

Que a vida ia sorrir pra ti"

A primeira estrofe da primeira música lançada já dá o tom do que a 50 Tons de Pretas tem a dizer. É música com muita atitude, muito orgulho e muito trabalho.

A banda formada por Dejeane Arruée, de 38 anos, Graziela Pires, de 31, e Monique Brito, de 21, publicou no dia 13 de abril seu 1º clipe, A Mais Pura Verdade. Na letra de Grazi, uma história comum a tantas pretas desse Brasil:

"Preta, quantas vezes em transição

Os olhares de negação da tua cor, da tua raça, da tua voz"

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
A banda composta só por mulheres negras foi ironicamente fundada na colônia alemã do Rio Grande do Sul.

Ironicamente, a banda foi fundada no seio da colônia alemã do Rio Grande do Sul. As Pretas se conheceram na região do Vale do Sinos, onde desembarcaram os primeiros imigrantes 194 anos atrás. Dejeane e Graziela lecionam música na cidade de Campo Bom, e Monique foi aluna de canto de Grazi desde os 13 anos. "Ela foi a segunda professora negra que eu tive na vida, mas a primeira representativa. Quando cheguei na aula dela, foi um impacto enorme ver aquela negra que vivia de música", recorda a caçula da banda.

Tudo aconteceu muito rápido, acho que pela identificação das pessoas que pensam: a gente também pode ocupar esse espaço.Dejeane

Natural de Salvador, Moni foi ainda bebê para Campo Bom com a família. Dejeane, que é de Porto Alegre, dá aulas e rege bandas marciais de escolas da cidade, incluindo a Escola de Arte e Educação. Lá, Graziela, que mora na vizinha Novo Hamburgo, dava aulas de canto e era regente dos corais. Em março de 2017, o gabinete da primeira-dama pediu a Grazi que reunisse artistas para uma apresentação comemorativa ao Dia da Mulher.

O grupo reunido na época tinha 5 mulheres (a formação atual tem 6 meses). "Um colega da comunicação da prefeitura me ligou e perguntou: Grazi, como é o nome da banda? Falei sei lá, bota 50 Tons de Pretas. Foi assim, saiu na hora, porque estavam lançando o filme [50 Tons de Cinza], e ficou. Quando acabou a apresentação, na porta já tinha gente chamando para outros shows. Nunca mais paramos."

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
O trio reflete sobre as dores e os desafios das mulheres negras no Brasil.

Minha avó sempre falava: 'Grazi, vai bem arrumadinha, porque tu vai ser a única'. Eu era sempre a única. Era sempre a exceção.Graziela

Cantar é um meio de afirmação do orgulho que as 3 têm das raízes tantas vezes disfarçadas. "Com 7 anos, eu já alisava o cabelo. Já usei todo o tipo de química braba que tu imaginar. Hoje, me dizem 'que bonito o teu cabelo black', mas é um baita rolê, é muita coisa que a gente passa", narra Monique.

"Minha avó sempre falava: 'Grazi, vai bem arrumadinha, porque tu vai ser a única'. Eu era sempre a única. Era sempre a exceção". Dejeane completa: "Minha mãe também tinha essa coisa de estar sempre bonitinha, penteadinha".

As famílias têm papel importante na narrativa das Pretas. Dê, que perambula com seu trombone na noite porto-alegrense desde os 15 anos, sempre teve a companhia do pai para garantir que pudesse entrar nas casas noturnas. Na infância, Grazi saracoteava em casa admirando uma medalha de melhor cantora que era da mãe — vencida antes que um AVC a deixasse em um coma por 3 meses, do qual acordou despida da "faceirice". "Eu queria cantar Whitney, Mariah, mas ficava sem voz! Vi que tinha algo errado e fui fazer aula de música. Com 15 anos, pagava com o dinheiro que ganhava no estágio. Com 23, já estava dando aulas", conta. Aos 31, se formou musicoterapeuta.

"Preta, agora chegou tua vez

A história que você fez entre lágrimas, lutas, turbantes e anéis

Preta, busca na tua ancestralidade a mais pura das verdades

Pra se reconstruir"

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
Monique ajeita turbante de Grazi. Junto com Dejeane, elas formam os 50 Tons de Pretas.

Ainda antes da banda, cada uma das 3 Pretas já tinha conquistado seu espaço: Dejeane lidera as bandas marciais, além de seguir tocando com importantes músicos da cena gaúcha; Grazi, além de dar aulas, é assessora da Secretaria de Educação e Cultura de Campo Bom; e Monique, que cursa licenciatura em Música, dá aulas de canto. Em paralelo, elas mantêm uma rotina de pelo menos um show por semana, além dos ensaios. "Como grupo, é recente, mas individualmente, estamos plantando essa semente há muito tempo", observa Dê.

Eu estou numa posição de destaque, sou uma professora negra. Mas tem dias que dói, que os olhares machucam.Monique

Dando seu tom a composições de Leci Brandão, Beth Carvalho, Liniker, Elza Soares e Clara Nunes, além das músicas próprias, elas fazem da banda um veículo de empoderamento da cultura negra e feminina. Os sonhos são grandes, e o caminho é longo.

"O racismo não vai acabar. Tem de saber enfrentar, achar maneiras todos os dias. Eu, agora, estou numa posição de destaque, sou uma professora negra. Mas tem dias que dói, que os olhares machucam", diz Monique. "Todo dia, temos de estar provando algo", acrescenta Graziela.

"Solta esse cabelo black

E vai onde quiser

Respeite a minha herança, sou guerreira, sou mulher"

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
"A Mais Pura Verdade" é o 1º clipe lançado por 50 Tons de Pretas.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem:Caroline Bicocchi

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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