23/04/2018 12:43 -03 | Atualizado 24/04/2018 14:58 -03

May HD: Todas as camadas sensoriais de uma artista multidimensional

Andrea May ultrapassou os limites dos planos sensoriais desta galáxia ao explorar sua arte.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
Andrea May, ou May HD, ultrapassou os limites dos planos sensoriais desta galáxia ao explorar sua arte.

Som indistinto sem harmonia; estrondo. Rumor causado pela queda de um corpo ou pelo choque entre dois ou mais; barulho. Som de várias vozes ao mesmo tempo; gritaria, tumulto. Os significados que os dicionários nos trazem são vários — e olha que deixamos de fora o uso da expressão no sentido figurado. Aumente o volume, recoste o corpo e ouça. Não, não é para subir o áudio do seu celular ou computador, mas do seu próprio aparelho auditivo. Preste atenção em todo e qualquer ruído.

Essa é a proposta de May HD, uma artista multidimensional. Essa classificação foi criada por ela mesma, pois acredita que sua proposta já ultrapassou os limites dos planos sensoriais desta galáxia e passou a se aventurar por outras tantas.

Deve ser por isso, talvez, que a informação sobre ela seja tão difícil de se encontrar na World Wide Web. Se você pesquisa o seu nome, Andrea May, nos serviços de busca online, as opções que surgem à tela variam de uma escritora italiana, uma médica gastroenterologista famosa, até uma atriz de filmes pornôs.

O pseudônimo veio, então, para tentar diminuir essa interferência. A sigla HD que acompanha seu sobrenome não tem nada a ver com hard disk drive ou high definition ou download: é abreviação de Happy Downlady. A tradução do inglês sugere uma dama triste, mas na verdade ela fala sobre aquilo que incomoda, só que passa despercebido mesmo que esteja debaixo dos nossos olhos. A arte das ruas, nas ruas e para as ruas. A gente já vai chegar na parte do ruído, mas antes disso, senta que lá vem história.

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Nos anos 2000, May HD se apaixonou por street art.

Nunca ninguém se opôs à minha escolha pela arte lá em casa, sempre deram muita força. Pensando hoje em dia, em termos mercadológicos, eu não sei se isso foi bom ou foi ruim (risos).

Desde pequenininha desenhava para caramba. Filha única à época, vivia enfurnada no seu "mundinho visual". Qualquer dinheiro que recebia ou ocasião na qual ganhava presentes era desculpa para comprar material para as suas obras. Neta de arquiteto e com uma mãe que tinha tendência para o desenho, não foi difícil achar apoio em casa para as "coisas loucas" que fazia.

"Nunca ninguém se opôs lá em casa, sempre deram muita força. Pensando hoje em dia, em termos mercadológicos, eu não sei se isso foi bom ou foi ruim", diz, aos risos. Pensou até em seguir outra carreira, de serviço social, mas desistiu quando se deu conta que não tinha para onde correr: "eu sou completamente arte o tempo todo". Optou, portanto, pelo curso de artes visuais e ainda na faculdade, entre uma greve e outra, já começou a trabalhar fazendo qualquer tipo de coisa relacionada ao desenho.

Se formou, montou uma exposição aqui e ali, morou na Alemanha para aprender o idioma e. quando voltou ao país, no início dos anos 2000, se encantou com um expoente da arte específico: o street art. "Eu pirei, fiquei louca naquilo. Comecei a procurar e trocar ideia com quem já fazia porque meti na cabeça que queria fazer aquilo também."

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
Os ruídos sonoros e incômodos compõem a trilha artística produzida por Andrea May.

Eu acho que não tinha para onde correr. Eu sou completamente arte o tempo todo.

Trocou ideia e resolveu montar o coletivo Colativo, que ia às ruas colar lambe-lambes dos mais diversos. Continuou pesquisando e em meio aos estudos sobre o que a arte urbana estava aprontando nos outros continentes, se deparou com um negócio esquisito. "Nas minhas pesquisas, vez e outra aparecia o diabo de um Toy Art, a galera linkando com o grafite, com a arte de rua. E ninguém ainda tinha feito nada disso aqui no Brasil, só um cara de São Paulo, que fazia uns de madeira. Fiquei pirada com aqueles bonequinhos." A piração foi tanta que ela, que não costurava, resolveu costurar os seus próprios personagens. A falta de talento com a agulha rendeu uns monstrinhos que eram comparados frequentemente com as personagens do diretor americano Tim Burton.

Os 100 toys "bem handmade" que criou renderam uma exposição com direito a projeção e trilha sonora original. Funcionou, e a vertente teve um boom no País. Sem abandonar o primeiro coletivo, criou outro, de Toy Art. "Todo dia eu dava entrevista sobre isso. Eu não aguentava mais. Eu até disse na época: se for para eu ficar rica com alguma coisa, é agora. Mas não foi porra nenhuma (risos)."

O intercâmbio com os artistas de outros cantos do País empolgou, e ela resolveu não parar por aí: montou o Attack +, um projeto de intervenções simultâneas de street art em várias capitais. No dia combinado, os artistas saiam as ruas, trocavam conhecimento e espalhavam suas obras pelas ruas.

Na época em que o criador do Instagram deveria estar estudando equação de primeiro grau no colégio, o meio virtual de difusão dessas imagens era o finado Fotolog. No começo dos anos 2000, Andrea já encarava a galáxia da Internet como espinha dorsal das sociedades contemporâneas e criadora de uma aldeia global de ideias. "Eu sempre estive conectada nesse lance de virtualidade, tanto para fazer a arte, quando para difundi-la, estabelecer contato. E eu sempre fui assim, fui uma das primeiras pessoas a ter celular aqui em Salvador – tenho até vergonha de dizer isso (risos). Na minha vida sempre teve essa questão das artes se misturando através das mídias virtuais e eletrônicas."

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
As mídias eletrônicas também sempre estiveram presentes na arte de Andrea May.

Eu preciso da minha coisa independente, ter a minha métrica, meu compasso, meu ritmo. Eu preciso do meu ritmo próprio para tudo na minha vida.

Paralelo a tudo isso, Andrea May sempre manteve também os seus "trampos com o som". Conta que, entre um bico e outro com produção cultural, parou um certo dia e falou: "gente, eu quero fazer música". Em 2 meses já havia composto 30 faixas. Se tocava alguma coisa? "Batia um violão doido." "Eu fui mostrar para algumas pessoas e elas falavam: 'nossa, suas músicas são muito loucas, eu não consigo tocar isso não'", conta, divertida.

"Eu tinha facilidade, mas tinha ojeriza de decorar notas. Quando eu tocava eu perguntava: ai, não dá para fazer uma coisa freestyle não? (risos). No fim, acabou que eu não queria mais de jeito nenhum fazer forminha de música, ficar decorando as harmonias ou acordes. A minha compreensão de música tem uma abstração, acho que a gente precisa ser livre. E eu preciso da minha coisa independente, ter a minha métrica, meu compasso, meu ritmo. Eu preciso do meu ritmo próprio para tudo na minha vida". Em busca dessa liberdade de criação, decidiu então juntar sua paixão pelo virtual e se embrenhar com os beats eletrônicos.

Segue nessa vertente até hoje, junto ao companheiro Junix11 — guitarrista da banda BaianaSystem —, compondo trilhas experimentais e arranhando de DJ. Entre os projetos que traz na bagagem, estão o "Ipodrido", que é de apodrecimento de sons, e o "luvebox FX", no qual a dupla faz música visual com influências da noise music em livres experimentações.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
May HD é contra "purismos"; ela valoriza a própria métrica, o ritmo de sua própria vida, a sua "coisa" independente.

Eu tô sempre nessa busca de conexão, nunca me isolei: 'ah, sou pintura, sou purista'. Tô sempre buscando outras dimensões porque nessa daqui eu já fiz de tudo um pouquinho.

Para que possamos finalmente adentrar no grande encantamento da nossa personagem, é preciso que você, leitora, fique a par de uma expressão bem conhecida na Bahia chamada Zoada. Pode ir tirando o cavalinho da chuva, que não tem nada a ver com zoar. Vamos de aplicação numa frase: "Todo mundo fala que eu sou bem zoadenta, em casa toda hora eu derrubo panela, é um horror... Espirro alto, arrasto o chinelo no chão, ave maria!". Zoada, nada mais é do que barulho, ruído, desordem. E é essa miscelânea de sons "fora do lugar" que agora norteiam a obra e as pesquisa da artista.

"O ruído pode ser um ruído de comunicação, que você acha que entende, mas tem outra conotação, pode ser uma poluição virtual, uma coisa distorcida. Pode ser, quando se pensa em som, um ruído sonoro que incomoda; e no quesito imagem, aquilo que não é linear, que te traga uma perturbação que pode simbolizar um ruído na sua cabeça", explica. Em outras palavras, agora, May HD junta toda a sua inquietação visual, acumulada nos anos de street art pulsante, e suas experimentações sonoro-digitais.

O assunto é, inclusive, tema do mestrado da artista, que pesquisa a tradução intersemiótica em processos artísticos da estética dos ruídos. Em suas palavras, a obra parte do fluxo e refluxo dos resíduos, das práticas acumulativas e outros paradigmas, como a efemeridade das coisas. Andrea quer entender os limites da matéria, questionar a fragilidade da superfície e os paralelos entre pertencimento e caos; excesso e precariedade; refugo e poesia visual. Os ruídos da terra como manifestações de poder.

"O ruído é uma coisa inerente do ser humano e da vida, da terra, do planeta, do universo. E o silêncio pode ser um grande ruído também. Às vezes a pessoa tá calada, quieta, e tá super ruidosa por dentro – em todas as metáforas que o ruído pode simbolizar. O ruído não é só o som, o visual, é um incômodo, um atravessamento de algo, é uma interpretação de cada um, então ele pode ter essa amplidão. Eu acho que fui por um viés verdadeiro em mim."

Depois de conversar com o Huffpost, logo ao fim da montagem da sua mais recente exposição Overlook, recebo dela, no celular, a mensagem: "como ficou a matéria? afff deu pra espremer akela gravação? Rsss".

Aproveito o espaço para confessar que depois do papo foi difícil voltar a atenção, no áudio capturado, a uma coisa só. Afinal, havia também o barulho do vento, os carros na rua, os ônibus barulhentos, a respiração no microfone do celular, música de rádio tocando nos alto-falantes do café, o bater de copos da mesa ao lado...

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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