MULHERES
21/04/2018 08:46 -03 | Atualizado 21/04/2018 08:47 -03

'Por que, Hilda, você é toda pungente?': O que há de indispensável em Hilda Hilst

A homenageada da Flip deste ano nasceu há exatos 88 anos.

Wikimedia Commons
Poeta, dramaturga e ficcionista, Hilda Hilst é um dos principais nomes da literatura brasileira do século 20.

Poeta, dramaturga e ficcionista, Hilda Hilst é um dos principais nomes da literatura brasileira do século 20.

A autora nasceu na cidade de Jaú, em São Paulo, há exatos 88 anos. Considerada hermética, enigmática e até estranha por alguns de seus críticos, Hilda Hilst é nome indispensável para quem quer conhecer um pouco mais da produção das poetas brasileiras.

Tamanha a importância de seus escritos, ela será homenageada na edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) em 2018. A escolha de Hilda se deu em um contexto em que sua obra tem circulado mais até do que quando a escritora era viva. Hilda Hilst morreu em 2004, aos 73 anos, por complicações de saúde.

"A Hilda ia estar muito contente. Ela dizia que seu sonho era ter a obra lida nos bondes, nos salões de beleza, nas ruas - acho que está chegando essa hora", compartilhou Daniel Fuentes, diretor do Instituto Hilda Hilst, em entrevista à Folha de S.Paulo.

Para Joselia Aguiar, curadora da festa literária, a obra de Hilda se relaciona aos temas mais existenciais, que devem pautar o evento literário deste ano.

"A Hilda é uma autora de uma obra densa, que inclui poesia, prosa, teatro. Como pessoa pública, tinha muitas ideias e não era nem um pouco banal ou óbvia."

Conheça alguns poemas de Hilda Hilst

Dez chamamentos ao amigo

Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.

Amavisse

Como se te perdesse, assim te quero.

Como se não te visse (favas douradas

Sob um amarelo) assim te apreendo brusco

Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,

A mim me fotografo nuns portões de ferro

Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima

No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações

Ou contornando um círculo de águas

Removente ave, assim te somo a mim:

De redes e de anseios inundada.

(II)

* * *

Descansa.

O Homem já se fez

O escuro cego raivoso animal

Que pretendias.

Poemas aos Homens do nosso tempo

Amada vida, minha morte demora.

Dizer que coisa ao homem,

Propor que viagem? Reis, ministros

E todos vós, políticos,

Que palavra além de ouro e treva

Fica em vossos ouvidos?

Além de vossa RAPACIDADE

O que sabeis

Da alma dos homens?

Ouro, conquista, lucro, logro

E os nossos ossos

E o sangue das gentes

E a vida dos homens

Entre os vossos dentes.

***********

Ao teu encontro, Homem do meu tempo,

E à espera de que tu prevaleças

À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras,

Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te conheças

E convides o poeta e a todos esses amantes da palavra, e os outros,

Alquimistas, a se sentarem contigo à tua mesa.

As coisas serão simples e redondas, justas. Te cantarei

Minha própria rudeza e o difícil de antes,

Aparências, o amor dilacerado dos homens

Meu próprio amor que é o teu

O mistério dos rios, da terra, da semente.

Te cantarei Aquele que me fez poeta e que me prometeu

Compaixão e ternura e paz na Terra

Se ainda encontrasse em ti, o que te deu.

Yuri Vieira/Wikimedia Commons.

Vida e obra de Hilda Hilst

Hilda Hilst iniciou a sua produção literária em São Paulo em 1950, quando tinha apenas 20 anos, com o livro de poemas Presságio. Aos 22, ela se formou em Direito pela Universidade de São Paulo, onde conheceu a escritora Lygia Fagundes Telles, com quem manteve uma longa amizade.

Mais tarde, em 1965, ela se muda para Campinas onde construiu a "Casa do Sol". O espaço serviu como um porto seguro para a sua sua criação e foi ali que ela realizou mais de 80% de sua obra.

A autora produziu mais de 40 títulos, entre poesia, teatro e ficção, e escreveu por quase 50 anos, recebendo importantes prêmios literários no País. Em seus textos, Hilda trata da incansável busca pelos significados e representações da condição humana.

Divulgação/ Instituto Hilda Hilst

"Fiquei sem luz, li com as velas e pensei pensei. Por que, Hilda, você é toda pungente? Trágica? Impulsiva? E o que há com teu corpo?"

O trecho escrito à caneta azul no dia 25 de fevereiro da agenda de 1973 de Hilda Hilst é parte de seu diário que foi reproduzido pelo Instituto Hilda Hilst.

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