COMPORTAMENTO
20/04/2018 12:06 -03 | Atualizado 20/04/2018 12:09 -03

O projeto que ensina crochê para detentos em SP será exibido em desfile do SPFW

A atividade desenvolve a autoestima e a socialização dos presos na penitenciária.

O Brasil tem a 3ª maior população carcerária do mundo, com 726 mil presos. Mais da metade dessa população é de jovens de 18 a 29 anos e 64% são negros. A ressocialização dessa população, porém, ainda é um desafio para a sociedade.

No entanto, há iniciativas que buscam humanizar o período no cárcere. Uma delas trata-se de uma atividade pouco comum para homens na prisão, mas que foi capaz de transformar a rotina de pelo menos 120 detentos da Penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Garulhos (SP).

Por meio de oficinas de crochê, os alunos produziram mais de 30 peças que serão desfiladas na abertura da semana de moda de São Paulo (SPFW) no próximo sábado (21) e depois ficarão expostas no Museu da Resistência dentro da Estação Pinacoteca, também em São Paulo.

O projeto Ponto Firme foi idealizado em 2015 pelo designer e artesão Gustavo Silvestre, embaixador da marca de fios para trabalhos manuais Círculo S/A, e despertou a curiosidade dos detentos para as atividades manuais.

"Observamos algumas mudanças no comportamento de quem está envolvido com esta iniciativa desde o início, como a socialização, uma vez que incentiva a convivência com os demais encarcerados, a quebra de preconceito, responsabilidade, empreendedorismo e até autoestima", explica o diretor técnico do Centro de Trabalho e Educação da penitenciária, Valdinei Freitas.

Danilo Sorrino

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Gustavo Silvestre compartilhou a sua experiência com as oficinas de crochê e contou como será o desfile na SPFW.

HuffPost Brasil: Como surgiu a sua relação com a moda?

Gustavo Silvestre: Sempre trabalhei com moda, mas eu comecei a questionar alguns processos da indústria após uma visita a China. Aquela viagem me impactou muito, ver dezenas de pessoas amontoadas em uma garagem, costurando sem parar, sem nenhuma condição de trabalho. Depois, a indústria têxtil é uma das mais poluentes do mundo.

Bastou fazer uma breve pesquisa pra ter a certeza de que eu não queria fazer parte desse tipo de indústria. Algumas vezes até pensei em abandonar a moda, mas trabalhar com isso era tudo o que eu tinha aprendido. Estava perdido, até que conheci algumas iniciativas em que a moda era feita de forma diferente. Era uma produção limpa e que valorizava o material humanos, as pessoas, em todo o processo.

Me envolvi em um projeto que mapeava comunidades de artesanato no Brasil inteiro. A gente mapeava o trabalho dos artesãos e dava algumas consultorias, alguns workshops, de como eles poderiam melhorar a produção. Fiz isso por mais de 1 ano, mas acabou a verba e tivemos que pausar as consultorias.

Desde então eu fiquei com esse incômodo: como valorizar a moda e as artes manuais no Brasil?

Foi ai que você descobriu o crochê?

Sim. E eu me apaixonei. Comecei fazendo aulas em uma escola e eu era o único homem da turma, em sua maioria composta por senhorinhas e suas netas. Com o tempo, desenvolvi uma técnica própria do crochê e segui produzindo peças. O crochê me deu uma liberdade criativa e autonomia muito grande.

Danilo Sorrino

Quando você começou a dar aulas na penitenciária?

Depois de 6 anos descobrindo o crochê, um dia eu fui convidado pelo pessoal da escola em que eu havia começado a fazer aulas para participar do projeto em parceria com uma pastoral de uma igreja da região. A pastoral havia contatado os professores e disseram que alguns detentos em uma penitenciária de Guarulhos desenvolviam peças em crochê e queriam aprender mais. Vi ali uma oportunidade de trazer a arte manual e a moda para a realidade.

Estruturei um curso em 2015 e comecei com 11 alunos, desses apenas 3 tinham afinidade com as agulhas. Nascia assim o projeto "Ponto Firme". Os detentos faziam peças mais simples, toalhinhas para banheiros e coisas do tipo. Eu investi nessa técnica que eles já sabiam e incentivei cada um a aprimorar as suas referências. Começamos a produzir tapetes, almofadas, cortinas e até redes. Foi um sucesso.

E a ideia do desfile, surgiu aí?

Entre 2016 e 2017, eu já tinha introduzido outras técnicas de crochê no curso. Começamos a fazer pequenas esculturas em crochê. No ano passado, em uma das revistas que eu sempre levo para a aula, tinha uma receita de como fazer uma camiseta em crochê. Eles começaram a testar as peças de roupas. Levei uma professora especializada em roupas de crochê para dar aulas específicas e eles começaram a produzir cada vez mais.

Quando eu vi o material que a gente estava produzindo, eu senti que precisávamos fazer algo com aquilo. Conversei com os diretores e surgiu a ideia de montar um desfile com as peças. No início era só uma brincadeira. Perto da penitenciária tinha um outdoor com uma imagem belíssima da Gisele Bundchen. A gente falava que ela viria desfilar usando o nosso crochê.

A brincadeira foi ganhando força e eu comecei a fazer algumas pesquisas e orçamentos. Se quiséssemos realmente desfilar as nossas peças, íamos precisar de uma estrutura do zero. Quando eu vi os valores do orçamento, eu entendi que sozinho não ia funcionar.

Resolvi procurar o Paulo Borges, diretor da SPFW. Apresentei a coleção feita pelos meninos e ele adorou. Depois disso, foi tudo muito rápido. Ele confirmou o nosso desfile e estamos aqui na reta final da produção.

Mas nesse processo ainda teve um detalhe: os meninos precisavam ver as suas peças nas passarelas. Tivemos conversas com o Estado e com a Secretaria de Segurança Pública, mas foi inviabilizado que eles saíssem da penitenciária. Por isso, fizemos um desfile lá dentro no dia 9 de abril, com tudo o que tinha direito. Modelos, maquiadores, passarela e fotógrafos. Eles se emocionaram muito com o resultado, foi um momento especial.

Danilo Sorrino

Você enfrentou alguma dificuldade durante as aulas com os detentos?

Eu nunca tive barreiras nas aulas na penitenciária. Não era algo distante ou assustador ter um professor de crochê. Depois que o curso começou, eles me contavam que os outros caras detentos estranharam a atividade ter virado um curso estruturado. Mas ficou por isso.

As pessoas têm uma fetichização do que é o sistema carcerário, como se só existissem as pessoas mais terríveis da Terra em uma prisão. E não é assim... Aprendo muito com eles.

Danilo Sorrino

Quantos alunos produziram as peças para esse desfile?

Nas oficinas do projeto, nós já formamos mais de 120 alunos. Mas não é um ciclo fixo. Como o tempo das penas variam, muitos entram, passam um tempo lá e mudam de penitenciaria. Porém, para o desfile, nós utilizamos todas as peças já produzidas pelo grupo, até os tapetes dos anos iniciais foram usados.

Danilo Sorrino

O que você espera para a moda no futuro?

A indústria da moda ainda é muito inconsequente e inconsciente, principalmente no que se trata das relações humanas. As condições de trabalho são péssimas e há todo o desperdício de água, de matéria prima. Falta muito pra uma renovação real da moda. Precisamos, também, de ajuda da tecnologia. Mas são projetos como esses que nos mostram que estamos no caminho certo.

*O desfile oficial do SPFW acontecerá no sábado (21) às 15h. Para mais informações acesse o site do evento.

Photo gallery
NBA reforma quadra de projeto social no Rio de Janeiro
See Gallery