21/04/2018 09:11 -03 | Atualizado 22/04/2018 11:04 -03

Marta Krafta: A bióloga que foi até a Antártida e quer cruzar novos limites

"Muita gente fala que eu tenho muita sorte. Não acho; eu trabalho pra caramba", afirma bióloga gaúcha.

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
Marta Krafta é uma bióloga que cruza extremos geográficos e demográficos.

Marta Krafta é uma mulher de extremos — ao menos, geograficamente falando. Nos últimos dois anos, foi de uma cidade de 27 mil para outra de 24 milhões de habitantes. E, de lá, para um território com cerca de 500 pessoas.

Mudanças não assustam essa bióloga de 25 anos. Pelo contrário. Marta já nasceu cidadã do mundo, em Oxford, no Reino Unido, filha de pais brasileiros. Foi criada em Porto Alegre, em um ambiente multicultural e bilíngue que viria a definir o estilo de vida dela e também da irmã, ambas sempre de malas prontas.

Sua carreira profissional foi moldada por desafios. Primeiro, de deixar a pesquisa para trabalhar com gestão de projetos. Depois, de sair de Porto Alegre para trabalhar em São José do Norte, cidade espremida entre o mar e a Lagoa dos Patos, cuja ligação com o continente se faz apenas de barco. Lá, no extremo sul do Rio Grande do Sul, Marta capitaneou boa parte da construção do EBR, estaleiro erguido pela Toyo Setal para a montagem de plataformas petrolíferas.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Após temporada de verão na Antártida, Marta Krafta está de volta a Porto Alegre.
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Em São José do Norte, o escritório era eu, um notebook e um celular.

Ela era o crachá 0001, ou seja: foi a primeira funcionária da empreiteira a fincar pé, em 2011, no vilarejo de pescadores, que nos anos seguintes se transformaria junto com o resto da região graças aos investimentos vultosos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em infraestrutura de portos.

O funcionário número 2 só chegou em 2013. "Quando fui para São José do Norte, o escritório era eu, um notebook e um celular." Como responsável pelos contratos terceirizados da obra, pelas mãos de Marta passaram todas as providências para que o canteiro começasse a operar — do aluguel de banheiros químicos a (principalmente) licenciamentos ambientais diversos.

A primeira licença saiu em março de 2013 — "uma sexta-feira 13". A última, que tornou o estaleiro operacional e encerrou o ciclo da bióloga no pólo naval, em fevereiro de 2016. A situação do empreendimento era complicada desde setembro de 2014, quando Augusto Mendonça, executivo da Toyo Setal, fez o primeiro acordo de delação premiada entre os empreiteiros denunciados na Operação Lava Jato. "Fiquei lá até conseguir a última LO [licença de operação]. Ali, fechei meu ciclo. Estava tudo cumprido."

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Marta não acredita que tenha sorte, mas sabe que suas conquistas são fruto de muito trabalho.

Aprendi a prestar muita atenção à natureza, porque na Antártida é ela que diz o que se pode ou não fazer.

Seis meses depois, viria o convite que a levaria para sua maior aventura até hoje. Marta estava em Londres, onde pretendia morar, quando foi indicada para uma vaga na China Export and Import Electronic Corporation (Ceiec), estatal que venceu a licitação da Marinha brasileira para construir a nova Estação Comandante Ferraz, na Antártida (substituindo aquela que pegou fogo em fevereiro de 2012, matando duas pessoas). Não pensou duas vezes. "Em cinco dias, eu estava em Xangai."

Na China, ficou um ano, trabalhando como gerente de projetos assistente. Seu trabalho era principalmente intermediar os contatos, documentos e decisões entre a estatal chinesa e a Marinha brasileira. O ápice foi em dezembro de 2017, quando ela partiu para a ilha Rei George com a equipe de mais de 200 pessoas (sendo apenas quatro civis brasileiros) responsáveis pela construção.

"Aquela paisagem, não tem nada igual. O mar cada dia tem uma cor diferente. Aprendi a prestar muita atenção à natureza, porque na Antártida é ela que diz o que se pode ou não fazer", comenta. E quem manda mais é o vento. As rajadas facilmente chegam a 200 km/h, o que torna inviável erguer um guindaste, por exemplo.

Por conta desses fatores, além do fato de que a obra só pode ser tocada no verão antártico (dezembro a março), os trabalhos não param: o ritmo é 24/7. Não tem Natal, Ano-Novo nem Carnaval. A única folga foram dois dias no Ano-Novo chinês.

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
Depois da Antártida, Marta está planejando aterrizar em outros canteiros de obra.

Muita gente fala que eu tenho muita sorte. Não acho; eu trabalho pra caramba.

Esta foi a 2ª oportunidade em que Marta se candidatou a ir para o Pólo Sul com a equipe. No ano anterior, o fato de ser a única mulher cotada tornou a missão impossível. "Levar uma mulher só é um problema logístico, pois lá o espaço é escasso, e teria de haver um banheiro e um dormitório exclusivos." Desta vez, ela pôde partir porque haveria mais cinco chinesas na comitiva.

"Muita gente fala que eu tenho muita sorte. Não acho. Muitas pessoas têm as oportunidades e não aproveitam. Mas eu trabalho para caramba! Obra grande é jornada de 12 horas, com frio, vento, chuva, o tempo todo no rádio ou no telefone."

E, no entanto, obra é o que ela quer seguir fazendo. A bióloga está se preparando para obter uma certificação internacional em gestão de projetos, um documento para atestar o que ela já aprendeu na prática. "Sempre fico devendo, porque trabalho na gestão mas sou bióloga; trabalho em obra, mas não sou engenheira."

Quem sabe em que canteiro Marta vai aterrissar agora?

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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