ENTRETENIMENTO
20/04/2018 22:58 -03 | Atualizado 21/04/2018 10:45 -03

Anelis Assumpção, a Taurina: Uma conversa sobre mulheres compositoras e divas estranhas

Cantora e compositora paulistana fala sobre novo disco e as pazes que fez com a própria história.

Divulgaçãoo/Caroline Bittencourt

Anelis Assumpção acaba de lançar seu terceiro disco de estúdio, Taurina, mas garante de antemão que não se trata de um trabalho com pegada astrológica, tampouco centrado apenas nela, uma paulistana do signo de Touro nascida em 16 de maio.

Ela começa nossa conversa por telefone contando que o título que batiza o álbum surgiu no meio do processo de produção dele. Entre uma composição e outra, a artista passou a se questionar por que é o touro e não a vaca o animal que simboliza o signo. "Dentro da minha livre interpretação astrológica, fazia mais sentido que ele fosse simbolizado por uma vaca", ela diz antes de enumerar alguns aspectos pelos quais o signo é conhecido, incluindo teimosia, gula e lentidão nos processos.

Conhecedora do assunto, ela menciona também Vênus, planeta regente de Touro, ressaltando a questão da doação como um elemento presente em maior grau na simbologia feminina do animal. "Há doação no touro. Mas a vaca dá mais. Ela dá o leite, o queijo, o couro, os ossos, a carne. Tudo da vaca é aproveitado", enumera mais uma vez. Depois de alguns minutos, ela interrompe o raciocínio afirmando que tudo aquilo não passava de "paralelos de loucura" que ficava pensando durante a produção do álbum.

Anelis sabe que não há animais fêmeas nas representações dos signos do zodíaco. "Mas eu quis inventar a minha própria astrologia. Eu sou taurina. Sou de vaca, não sou de touro. Amo o animal touro, mas quis fazer essa brincadeira e fiquei trabalhando essas simbologias que o signo têm dentro das letras", conclui.

Das 13 músicas que compõem Taurina, seis remetem de imediato a sabores, cores ou texturas: Chá de Jasmin, Pastel de Vento, Caroço, Água, Moela e Receita Rápida. Quando se ouve o novo disco de Anelis - coproduzido por Beto Villares e Zé Nigro e com direção dela mesma -, essa viagem de sensações fica ainda mais gostosa. Há um "azedo limão" no meio do peito em uma faixa e sabor de baunilha e framboesa em outra. As letras transitam pela cozinha e pela feira de rua. Falam sobre jejum, moela, costela, pele e osso.

A artista ainda discorre sobre prazer, desejos e a finitude da vida. É tudo costurado com metais e tambores ancestrais. Anelis atribui o impacto sensorial do disco à presença de Beto Villares. "Ele é muito sensível e conseguiu entender várias coisas sem que houvesse uma explicação", conta.

Divulgaçãoo/Caroline Bittencourt

Anelis em paz com a própria história

Filha de Itamar Assumpção (1949-2003), um dos expoentes da cena musical independente de São Paulo nas décadas de 70 e 80, Anelis conta que durante a realização do novo trabalho sentiu um impulso de "atravessar uma barreira da ancestralidade".

"Eu fiquei muito tempo criando a partir de uma influência que é inegável. Eu nem consigo te dizer quando ela começa e por quê", ela conta. "Dessa vez, acho que fui em um sentido anterior a tudo isso que vivi. E o Beto [Villares] entendeu tudo sem que a gente tivesse que falar África, por exemplo". Esse processo de descobrir algo novo e ainda mais autoral na própria arte não foi fácil. "Porque música tem vida própria. Você acha que está controlando, mas ela vai para outro lugar", filosofa a artista. O resultado final, no entanto, é motivo de orgulho. "Eu entrei num outro lugar. Um lugar inédito pra mim."

Quão longe Anelis foi ao trabalhar essas questões ligadas à sua ancestralidade? "Acredito que eu fui o mais longe para uma taurina. O que não é muito longe, não", ela responde antes de soltar uma gargalhada. Em seguida, explica que considera Taurina uma "continuação quase finalizadora" de um processo que começou quando decidiu seguir carreira solo. Ela integrou o extinto DonaZica, um supergrupo com 9 integrantes antes de lançar Sou Suspeita Estou Sujeita Não Sou Santa (2011) e Amigos Imaginários (2014). "E agora parece.... Parece, não. Eu me sinto pessoalmente mais pronta, mais segura, andando com as minhas pernas", revela.

Ela transmite sincero alívio ao contar que superou o período em que não entendia "o quanto era eu, o quanto era ele", referindo-se ao pai. "Hoje eu consigo dar uma entrevista sem que ninguém me pergunte sobre ele. Mas também quando ninguém me pergunta, eu falo", diz, rindo. "O que eu quero dizer é hoje eu me relaciono de uma forma mais madura com a influência, a falta e a música dele", conclui.

Em Taurina, Anelis também aborda de forma franca e sem amarras temas ligados ao sexo e à sexualidade feminina. Uma vez que a censura voltou a ser discutida no contexto das artes no Brasil, pergunto qual seria para ela o papel da arte na quebra de tabus que prejudicam as mulheres. "Às vezes, eu acho que a arte é fundamento nesse aspecto. E às vezes eu acho que ela, a arte, não deve ser responsabilizada por nada", responde. Ela explica que, como artista feminista, qualquer obra sua é refletida por essa postura. E salienta que seu feminismo é mutante, "construído todos os dias". "Existe uma filosofia sobre isso. E a filosofia é uma eterna busca", diz.

Divulgaçãoo/Caroline Bittencourt

Ao entrarmos nessa papo sobre arte, feminismo e quebra de tabus, Anelis deixa claro seu apreço pela existência e o sucesso de mulheres compositoras. Segundo sua análise, o cenário é positivo. "Acredito que nunca houve tantas mulheres compositoras em atividade na música brasileira." Mas faz a ressalva de que essas compositoras devem ter seu "tempo de elaboração". E justifica:

"Ainda ouve-se por aí: 'não escreve como o pai' ou 'não escreve como Caetano, Gil e Chico'. Oras, agora que nos foi dada a oportunidade de escrever. Durante uma vida inteira, as mulheres foram intérpretes de pensamentos e composições feitas por homens. O Chico Buarque é um gênio, claro. Mas ele teve todo o estímulo para chegar em um lugar enquanto letrista e poeta. Porque estava tudo estruturado para ele ser livre para isso. Inclusive, para pensar como uma mulher – o que fez dele um dos maiores 'feministas', num outro momento de pensamento feminista. Ele escrevia na primeira pessoa de uma mulher. Ninguém nunca tinha feito isso. Isso não é somente criatividade e intuição. É um desejo de desconstruir a palavra, um desejo de exercitar o pensamento a partir de outro ponto de vista. Isso é estudo. É prática. É escrever todo dia. Nós mulheres estamos começando a ter essa oportunidade agora."

Durante a conversa, Anelis também fala sobre o domínio masculino no mundo da música. Ela cita a própria banda, composta por 5 homens e os técnicos, roadies, produtores e contratantes com que tem que lidar a cada novo show. Esse cenário — cujas mudanças ainda são tímidas, segundo ela — foi extremamente tóxico para a artista durante o início de sua carreira. Ela afirma ter sofrido boicotes de músicos e artistas de televisão.

As más experiências fizeram que ela ficasse "esperta" e passasse a lidar de forma diferente com as relações de hierarquia."Teve um momento em que poderia dizer 'não, não fui que dirigi', com medo. Hoje, não", revela. E prossegue: "Parece que é só uma vaidade. É uma vaidade como fazer música, mas é justo. Eu pensei em todos os processos desse disco. Todos. Eu orientei e dirigi cada pessoa. E eu estou falando isso realmente com humildade. Foi fundamental a presença e energia de trabalho de cada um. Mas são outras relações de parceria. Existe uma diferença nessas relações neste momento pra mim."

Capa do disco 'Taurina'
Retrato que ilustra 'Taurina' é assinado pela artista plástica Camile Sproesser.

Anelis se mostra otimista diante do crescimento do número de compositoras em destaque - Ava Rocha, Tulipa Ruiz e Céu são três que participam do álbum- e das novas possibilidades de atuação das mulheres no meio musical. Mas nem tudo são flores. "Uma mulher que canta uma composição escrita por um homem na primeira pessoa feminina que sublinha o pior da relação entre as mulheres, que é essa coisa do recalque, da inveja: isso me incomoda um pouco", ela diz. "Acho divertido na festa, mas sinceramente, acho complicado quando o Brasil começa a interpretar o feminismo a partir desse lugar", indigna-se. E completa: "Acho essa cena rasa."

Ela justifica seu otimismo colocando em perspectiva as mulheres que estão compondo e sendo donas de seus trabalhos no universo da música independente, a qual rotula de "classe C da música". "A gente ficou muito tempo sendo orientada para ser diva. Era tudo sobre ser apenas bela ou arrogante. E as divas não precisam pensar, necessariamente. Elas só têm que ser incríveis, cantar muito bem, emocionar."

Marisa Monte é citada como uma marco inicial de mudança desse cenário. "Ela [Marisa] começou a cuidar da obra dela, administrar as coisas dela, aí veio outra e depois mais outra. Isso ainda é muito inédito." Na sequência, Anelis emenda uma ode às novas divas ou "divas estranhas". Cita Linn da Quebrada e Liniker (que participa da faixa Paint My Dreams). Para ela, uma é de uma inteligência que impressiona."Ela quebra um prato na minha cara toda vez que converso com ela", diz sobre Linn. A outra, é dona de uma excelência técnica que impressiona. "E tem esse frescor de alguém com 22 anos, que tem uma sede de transformação", diz sobre Liniker.

Anelis comemora ascensão das colegas — que com seus trabalhos também colocam em discussão questões ligadas à identidade de gênero — e analisa essa nova presença feminina nos palcos a partir da democratização da informação e acesso à internet. "Estamos derrubando aquelas paredes onde estava emoldurada uma forma de ser artista e cantora. Tudo que a gente acreditava que era necessário fazer para ter sucesso, como ir no Faustão ou tocar na novela, caiu. Foi por água abaixo."

Pode-se dizer que o começo da carreira de Anelis foi motivada pela existência de uma diva estranha: Alzira Espíndola, irmã de Tetê Espíndola e parceira de trabalho do pai de Anelis. "Nos anos 80 e 90, eu não via nenhuma mulher compondo. Quem compunha era Alzira. E eu estava sempre ali. Eu era criança, a referência maior ainda era Elis Regina", ela conta recordando que seu nome é uma homenagem à Elis, uma das grandes intérpretes da música nacional. "Alzira foi a primeira pessoa que eu olhei e pensei 'ela é estranha e isso é legal'. Ela não canta igual a essas todas que a gente aprendeu a amar. Ela escreve, ela toca", recorda, revelando que a amizade com sua diva estranha é mantida até hoje.

Antes de desligar o telefone, pergunto para Anelis se ela é uma uma figura inspiradora para outras jovens artistas, assim como Alzira foi para ela. A pergunta soa meio truncada, já que ela responde de bate-pronto: "Não sei". Alguns segundos de silêncio depois, ela recorda de alguns momentos em que esteve na condição de referência e achou estranho. "Acredito que o que tem acontecido cada vez mais é que as mulheres se identificam com forças, não exatamente com a musicalidade ou com a poesia, mas com a existência mesmo daquela força. Nesse aspecto eu não acho estranho. Mas musicalmente, às vezes eu acho esquisito", diz e solta uma gargalhada.

Photo gallery40 fotos surpreendentes de mulheres trabalhando pelo mundo afora See Gallery