20/04/2018 12:03 -03 | Atualizado 20/04/2018 17:32 -03

Ana Costa, a cadeirante que acelera na leveza e no bom humor

"Na minha cabeça, o negócio era viver a vida naturalmente. E eu vivo", celebra a funcionária de multinacional na capital paulista.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Ana Costa vê o lado positivo da vida em sua experiência como cadeirante.

Sobre duas rodas, ela vai mais rápido. É o jeito que encontrou para continuar tocando a vida no seu ritmo.

Encontra obstáculos no caminho, claro, mas gosta de pensar positivo e olhar para frente. Não que ela tenha pressa, não é isso. Mas tem vontades, como qualquer outra pessoa. E no que depender dela, não vai deixar de realizar nenhum desses planos.

Ana Costa, 39 anos, aprendeu a ter uma vida nova há 7. Paralisada da cintura para baixo por causa do lúpus, uma doença autoimune que descobriu em 2009, precisou de tempo para se adaptar ao seu novo corpo. Mas, hoje, diz que muitas vezes nem se lembra que sua condição é diferente. "Agora ando de cadeira de rodas pra dar uma acelerada", brinca.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Ana Costa é assistente da diretoria de multinacional e muito querida por seus colegas de trabalho.
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Não está na minha mão estar em uma cadeira de rodas. Mas está na minha mão falar 'que ótimo que ela existe porque ela me tira da cama'.

Foi esta a escolha que ela fez. "Tento sempre buscar o lado positivo, escolho levar para o lado mais leve." E poderia ser diferente.

Ana sofreu um sequestro relâmpago em 2008. Na sequência, desenvolveu o lúpus — a doença costuma se manifestar em momentos de emoção e estresse muito altos e foi diagnosticada no ano seguinte. Em 2010, um novo pico de estresse. Sua casa ficou alagada após uma forte chuva em São Paulo. Viu todos os móveis com 6 meses de uso boiando em 1 metro e meio de água. Em 2011, foi parar no hospital por causa de uma febre que custava passar. Saiu de lá já na cadeira de rodas.

"Fui internada com suspeita de meningite e 2 dias depois acordei sem conseguir me mexer. Me mandaram para a UTI. Quando cheguei lá eu tive a certeza de que não mexia mais as pernas. Não tinha noção do que estava acontecendo. Na hora que me colocaram sentada na cama pela primeira vez eu caí. Você volta a ser neném. Usa fralda né, gente? É bem complicado, tenso. Vi que ia ter algumas coisas para aprender na vida."

A paralisia podia ter atingido também os braços e até matado Ana. Isso não aconteceu. E ela olhou o lado positivo. "O que está na minha mão eu resolvo. Não está na minha mão estar em uma cadeira de rodas. Mas está na minha mão falar 'que ótimo que ela existe porque ela me tira da cama'."

Fora da cama, retomou a vida. Foi internada em uma clínica de reabilitação que mostrou as possibilidades que tinha. Ficou 2 anos afastada do emprego — nesse tempo, a empresa faliu. Foi então atrás de um novo trabalho e começou a atuar como analista de Recursos Humanos da Kimberly-Clark.

Ela conta que foi um aprendizado grande porque era a primeira funcionária cadeirante na unidade da empresa. E era o seu primeiro emprego depois da paralisia. Tudo novo. E teve muito apoio. "Sou bem tratada nos lugares, as pessoas esquecem que sou cadeirante. Vamos almoçar e eles colocam o prato na minha mão e vazam. Aí eu brinco e pergunto: 'colega, e eu toco a cadeira como agora?' [risos] É prova de que eles esquecem."

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Sob duas rodas, Ana Costa vai muito rápido. Brinca. Vai leve.

Eu não tenho problema que me vejam como cadeirante, mas quero que me vejam como uma pessoa normal.

Hoje, Ana é assistente de diretoria da empresa. No prédio, enquanto desliza pelos corredores, é fácil perceber que é querida por ali.

No café, abraços, beijos, sorrisos e tchauzinho à distância. Leve e bem humorada. Do jeito que quis ser.

"Na minha cabeça, o negócio era viver a vida naturalmente. E vivo. Eu não tenho problema que me vejam como cadeirante, mas quero que me vejam como uma pessoa normal. Eu só não ando igual."

Sendo normal, no início do ano resolveu até pular de paraquedas. "Meu medo foi embora junto com [o movimento] das minhas pernas." Pretende repetir a dose em breve.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
"Na minha cabeça, o negócio era viver a vida naturalmente. E eu vivo", ensina Ana Costa.

Escolho se quero viver irritada ou se eu quero dar risada. E eu quero dar risada.

Durante a entrevista, Ana se preocupou se estava falando demais. Imagina, não estava. Contava histórias, perrengues e aventuras que já passou por aí, rodando com sua cadeira. O que ela fala muito é sobre xixi. Mas dá para entender perfeitamente. No início da paralisia, ela saia de casa com horário marcado para voltar, usar a sonda e esvaziar a bexiga. E precisava de duas pessoas para isso. Depois, aprendeu a usar sozinha e conquistou mais independência. "Hoje isso não é mais um empecilho."

E assumiu a fralda. E fala disso. Porque acha que tem que ser natural. Porque deixa claro que não vai se privar de nada por causa disso.

"Não está na minha mão controlar o escape de xixi, mas está em colocar fralda e sair de casa. Escolho se quero viver irritada ou se eu quero dar risada. E eu quero dar risada."

Conta mais uma história de como foi carregada com cadeira de roda e tudo escada acima — e abaixo — pelos amigos meio bêbados para ir ao banheiro. E se diverte.

Em todos os lugares que vai.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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