18/04/2018 14:03 -03 | Atualizado 19/04/2018 15:54 -03

Thaisa Storchi Bergmann, a cientista cuja vida gira em torno dos buracos negros

"Foi um dilema quando tive o caçula. Liguei para o diretor do observatório e falei: 'tenho um filho, mas também tenho a minha ciência'", conta a astrofísica gaúcha.

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
A astrofísica gaúcha Thaisa Storchi Bergmann pesquisa buracos negros.

Vida de cientista tem um quê de abnegação. Uma vontade grande de descobrir coisas que extrapola horários de expediente, invade os finais de semana, as noites, a vida em família.

Sempre foi assim para a astrofísica gaúcha Thaisa Storchi Bergmann, uma das cientistas brasileiras mais reconhecidas internacionalmente. Sua pesquisa contribuiu para comprovar que há buracos negros no centro de todas as galáxias — uma constatação que ajuda a explicar a formação delas e também, portanto, a História do universo.

Em seu estudo mais famoso, publicado em 1993, a astrofísica gaúcha demonstrou que havia um buraco negro do tipo supermassivo (e não estelar) no centro de NGC 1097, uma galáxia a 50 milhões de anos-luz da Terra ("relativamente próxima"!). A descoberta colaborou para comprovar que essa conformação é comum a todas as galáxias.

"O buraco negro captura a matéria, a matéria brilha, e a gente vê essa 'assinatura', a evidência de que há gás girando em altíssima velocidade, na forma de um disco achatado. Não fui a primeira a observar isso, mas fui a primeira a mostrar que naquela galáxia este fenômeno estava acontecendo."

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A pesquisa de Thais permitiu comprovar que há buracos negros no centro de todas as galáxias do universo.

Quando mostrei os dados para o meu supervisor, ele achou esquisito. 'Tu fez algo de errado, faz de novo.' Eu sabia que estava certa.

Os gases observados por Thaisa viajavam a 10 mil quilômetros por segundo, o que é uma velocidade altíssima até para os parâmetros superlativos dos astrofísicos. "Quando mostrei os dados para o meu supervisor, ele achou esquisito. 'Tu fez algo de errado, faz de novo'. O que eu tinha enxergado se achava normalmente em buracos negros estelares, mas com velocidade 10 vezes menor. Eu sabia que estava certa, eu conferi." A observação, afinal, apontou que havia um objeto de massa "enorme" no centro: um buraco negro.

A descoberta foi feita durante o pós-doutorado na universidade de Maryland, nos Estados Unidos. Os dados para chegar lá foram coletados no Observatório Interamericano de Cerro Tololo, no Chile.

Mas não pense que a lente de quatro metros de diâmetro de um telescópio permite enxergar um objeto àquela distância. Os cientistas usam um aparelho chamado espectrógrafo para medir os comprimentos de onda da luz e inferir assim as distâncias e tamanhos dos corpos celestes. "A astronomia é o estudo da luz que vem dos objetos. Até hoje, nunca se viu a sombra de um buraco negro. Enxergamos o que está acontecendo através da luz dos gases."

Liguei para o diretor do observatório e falei que tinha direito a ir, que sou mulher, tenho um filho, mas também tenho a minha ciência!

O espaço para usar um observatório era (e ainda é) disputadíssimo. Uma observação astronômica, nos anos 90, durava cerca de uma semana, na qual o pesquisador trocava o dia pela noite (hoje, o volume de dados que se obtinha em 6 dias é obtido em 6 horas, e o cientista nem precisa se deslocar: envia todos os números, calibragens e parâmetros, e uma equipe local retorna os dados). Aquela década foi o auge das observações na carreira da cientista. E foi também quando nasceram os filhos.

Em janeiro de 1997, chegou o caçula. Em abril, Thaisa teria direito a usar o observatório de Cerro Tololo. Ela estava amamentando, mas não queria abrir mão do espaço que havia obtido na agenda do centro de pesquisas. Porém, o ambiente, com dormitórios pequenos, contíguos, e necessidade de silêncio absoluto, não é adequado à presença de crianças.

"Foi um dilema. Eu queria muito ir. Liguei para o diretor do observatório e falei que tinha direito, que sou mulher, tenho um filho, mas também tenho a minha ciência." Após uma semana de negociação, o diretor providenciou um alojamento separado para a pesquisadora, onde o bebê poderia chorar à vontade. Thaisa contratou uma babá e partiu para as montanhas chilenas.

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
Quando deu à luz seu caçula, a cientista exigiu no espaço do observatório onde trabalhava espaço para amamentar o bebê.

Pesquisar é uma escolha, diz Thaisa. Há, na Academia, quem prefira se concentrar apenas nas aulas. "Para fazer pesquisa, tem de trabalhar em fim de semana, de noite. É uma carga que fica a teu critério, o quanto vais te dedicar. E as bolsas de pesquisa existem para premiar isso", observa ela, lamentando a falta de investimentos federais nesta área.

O currículo da pesquisadora rendeu a ela em 2015 o prêmio da Unesco e da Fundação L'Oréal Women in Science, que homenageia a cada ano 5 mulheres cientistas (uma de cada continente), por suas realizações. Mas ela pondera que o reconhecimento não teve impacto nas suas pesquisas; a repercussão maior foi fora da Academia, porque ficou mais conhecida.

Thaisa não se considera uma feminista, mas diz que a ciência ainda é muito masculina. E que a sociedade como um todo está condicionada por um "viés inconsciente" que penaliza as mulheres. "Recentemente, fui convidada pela Unesco a dar uma palestra em Paris, e meu marido, por conta dele, me acompanhou. Na recepção do hotel, o balconista disse: as suas despesas, senhor Bergmann, estão cobertas, mas as da sua esposa, não. As pessoas sempre consideram primeiro o homem."

Somos penalizadas por um viés inconsciente, que está ali sempre. As pessoas sempre consideram primeiro o homem.

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
A cientista já deixou a sala de aula, mas mantém as pesquisas na UFRGS e não se enxerga parada.

Aos 62 anos, Thaisa já deixou a rotina das salas de aula, mas ainda dá expediente na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), onde segue capitaneando pesquisas e orientando alunos de doutorado, mestrado e iniciação científica.

Mantém pesquisas em parceria com cientistas de outros países, dando sequência àquela descoberta do começo dos anos 90. "Não me imagino parada, ainda tenho muita vontade e muitos resultados para ver."

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem:Caroline Bicocchi

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização:RYOT Studio Brasil

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