POLÍTICA
20/04/2018 10:04 -03 | Atualizado 20/04/2018 10:04 -03

Ascensão de Marina Silva nas pesquisas não indica sucesso na campanha, advertem ex-membros da Rede

Ex-colegas de partido acreditam que pouca exposição na TV e distanciamento da esquerda comprometem candidatura.

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Ascensão de Marina Silva nas pesquisas não impressiona ex-membros da Rede.

A ascensão de Marina Silva, pré-candidata à Presidência da República pela Rede Sustentabilidade, na última pesquisa realizada pelo Datafolha — a 1ª desde a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva — não é suficiente para empolgar ex-membros do partido.

O cientista político Marcio Sales Saraiva, professor na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), trocou recentemente de partido, deixando a base da Rede para se filiar ao PCdoB. Em conversa com a reportagem do HuffPost Brasil, ele fez algumas ponderações sobre quem, porventura, possa estar entusiasmado com o crescimento sua ex-correligionária.

No cenário sem Lula, que deve ser barrado pela Lei da Ficha Limpa, Marina tem até 16% das intenções de voto e cola no líder da pesquisa, Jair Bolsonaro, com 17%. Em eventual 2º turno, ela vence de Bolsonaro por 44% a 31%.

"A posição da Marina hoje nas pesquisas é absolutamente compreensível. Ela está em sua terceira eleição para presidente e ocupa o lugar que sempre ocupou, pois tem vaga cativa com certa parte do eleitorado, algo entre 14% e 18%. Não vejo com espanto. Ela achou o lugar dela", analisa Saraiva.

Ter 'achado o lugar dela', no entanto, não significa que Marina esteja forte na corrida para ocupar o lugar de Michel Temer após as eleições de 2018, alerta Saraiva.

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Marina subiu nas pesquisas, mas cientistas políticos acham difícil pré-candidata da Rede chegar à presidência.

"Acho muito difícil ela chegar à Presidência, pois há outras variáveis e outros cenários que podem se formar. A tendência é que o eleitorado dela migre para o chamado voto útil", projeta.

Fundador e ex-integrante da Rede, o antropólogo Luiz Eduardo Soares faz análise similar à do colega. Caso seja barrada a candidatura de Lula, fruto da condenação, Soares duvida que os eleitores dele migrem para Marina:

"A Marina sempre foi uma player importante e teve 20 milhões de votos nos últimos pleitos, mas analisar esses números é muito difícil neste momento, pois a pesquisa está afetada por fatores diversos e a reação popular ainda está se formando. Qualquer análise feita agora pode criar grandes ilusões, mas é muito difícil ela herdar qualquer patrimônio eleitoral do lulismo", diz ao HuffPost Brasil.

Soares acredita que não será Marina quem se beneficiará com os votos que seriam destinados ao principal ícone do Partido dos Trabalhadores.

"O Lula está praticamente fora da disputa e, quando se pronunciar e indicar alguém, essa marca ficará colada a esse candidato. Não haverá sobra para outros herdeiros. Além disso, a Marina queimou as caravelas com a esquerda quando apoiou o impeachment da Dilma. Ela cortou laços importantes desse lado e não criou novos com os mais conservadores de centro ou de direita."

Em outubro de 2016, 7 dirigentes da Rede deixaram o partido com uma carta de desfiliação recheada de críticas à líder, sobretudo sua posição a favor do impeachment de Dilma Rousseff.

Entretanto, o Datafolha mostra que os dois herdeiros do espólio eleitoral de Lula neste momento são justamente Marina e Ciro Gomes (PDT), respectivamente com até 20% e 15% dos eleitores do petista.

Apontados como plano B, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) e o ex-governador da Bahia Jaques Wagner (PT) não alcançam mais que 3% dos eleitores de Lula cada.

Pouco tempo na TV também atrapalha

Tanto Marcio Sales quanto Luiz Eduardo Soares apontam que a pouca exposição de Marina Silva na TV e a possível ausência nos debates — depende de convites das emissoras de TV que organizarem os eventos — também prejudicarão o sonho da ambientalista de suceder Michel Temer.

"Ela terá poucos segundos de exposição e, em um País continental, ela desaparecerá. O Joaquim Barbosa, por outro lado, tem uma situação melhor, pois conta com a empatia do PSB e uma estrutura melhor", ponderou Sales, citando o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), que já conta com 8% das intenções de voto mesmo sem estar confirmado no pleito para presidente.

"Esse pouco tempo na TV é um obstáculo importante. Não é absoluto, pois há internet, mas atrapalha muito. Só não acredito que fique fora dos debates, pois as TVs terão liberdade para incluí-la, principalmente se continuar bem colocada nas pesquisas", acrescentou Luiz Eduardo Soares.

A reportagem do HuffPost Brasil entrou em contato com mais dois ex-integrantes da Rede, mas ambos preferiram não emitir opiniões. Miriam Krenzinger, professora da UFRJ, informou, em contato por e-mail, que não gostaria de se pronunciar sobre qualquer assunto relacionado à candidata Marina Silva.

Jefferson Moura, que está acertando seu ingresso no PCdoB do Rio de Janeiro, também não quis se posicionar sobre os números do Datafolha e pediu a gentileza de ser contatado novamente em uma outra oportunidade, quando já estiver efetivamente ligado ao seu novo partido político.