ENTRETENIMENTO
18/04/2018 22:38 -03 | Atualizado 24/04/2018 09:59 -03

‘7 Dias em Entebbe’: Conversamos com José Padilha sobre filme baseado em história real

Como de praxe, diretor carioca não se esquiva de temas delicados e comenta episódio por trás do longa.

Divulgação/Diamond Films

Após O Mecanismo, série brasileira da Netflix que deu bastante o que falar poucas semanas atrás, estreia neste mês outra obra que leva a assinatura de José Padilha: o longa-metragem 7 Dias em Entebbe. E, não diferente de seus trabalhos anteriores na ficção, este também é baseado em uma história real — bem como pode render calorosos debates políticos.

No dia 27 de junho de 1976, dois radicais alemães da organização marxista Células Revolucionárias, em parceria com dois membros da Frente Popular para a Libertação da Palestina, realizaram o que se tornou um episódio emblemático do conflito de Israel e Palestina.

A equipe sequestrou um avião da Air France, cujo ponto de partida era Tel Aviv e o de chegada Paris, e manteve refém todos os passageiros e tripulação por sete dias em Entebbe, Uganda, enquanto as negociações com o governo israelense se desenrolavam — era a vida das centenas de israelenses em troca da liberdade de dezenas de militantes palestinos em Israel. O ditador ugandense Idi Amin, em apoio aos terroristas, chancelou a entrada do avião no aeroporto de Entebbe.

"Nenhum grupo social quer passar por algo semelhante ao que ocorreu durante o Holocausto. Esperamos que a História não se repita nunca mais", diz o diretor de 50 anos em entrevista ao HuffPost Brasil.

Agora você talvez esteja se perguntando: o que o Holocausto e o conflito entre Israel e Palestina têm a ver um com o outro? Bastante coisa, como explica Padilha.

Os terroristas alemães, Wilfried Böse (interpretado por Daniel Brühl) e Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike), quase entraram em parafuso quando o trato que fazem dos judeus sequestrados é comparado com o dos nazistas da Segunda Guerra Mundial.

Em uma cena que sintetiza a situação, uma senhora judia, sobrevivente de Auschwitz, tem uma crise nervosa e se despe diante dos reféns e dos terroristas — ela não percebe que já não está no campo de concentração, mas ainda assim há armas apontadas contra ela e pessoas andando enfileiradas.

"Não foi uma tentativa minha de trazer a questão do nazismo de volta, pois ela já estava posta pela realidade", defende Padilha, que também está por trás de Narcos, outra série da Netflix, e venceu o Urso de Ouro do Festival de Berlim por Tropa de Elite (2007).

Divulgação/Diamond Films
Quando um sobrevivente do Holocausto mostra a Böse um número tatuado no braço, o ataque terrorista ganha uma nova dimensão.

O episódio se encerrou com uma operação do exército israelense invadindo o local em que os reféns estavam alocados dentro do aeroporto em Entebbe, com Böse e Kuhlmann morrendo no processo; um quarto da força aérea de Uganda foi destruída; e 102 dos 106 reféns foram resgatados.

Trata-se de mais um exemplo em que a necessidade urgente de diálogos "não ortodoxos", como Padilha propõe, se mostram necessários e urgentes para Israel e Palestina chegarem a um acordo.

Na entrevista ao HuffPost, o diretor explica por que decidiu trabalhar em 7 Dias em Entebbe, o significado da cena em que a senhora judia se despe e a função narrativa que os números de dança contemporânea têm no enredo. Leia abaixo:

HuffPost Brasil: Você disse na coletiva de imprensa que não tinha muita proximidade com o tema de 7 Dias em Entebbe até o fazer. O que motivou você de verdade a dirigir o filme?

José Padilha: Eu achei o roteiro [de Gregory Burke] extremamente bem escrito. Fui ler a respeito daqueles setes dias em Entebbe e comecei pelo livro do Saul David [Operation Thunderbolt], que também é muito bem escrito e aí passei a me interessar pelo assunto. Fui para Israel, entrevistei uma série de pessoas, passageiros do avião que foi sequestrado, soldados que entraram no terminal. Em suma, conversei com muitas pessoas que estavam diretamente envolvidas no evento e, depois disso tudo, resolvi fazer o filme porque o acho relevante para os dias de hoje. Aprendi bastante sobre o que acontece no Oriente Médio. Parte do que eu faço é interessante porque aprendo novas coisas.

O filme levanta a questão do nazismo como um um trauma que os judeus não querem viver novamente uma vez que se inicia o conflito entre Israel e Palestina. Como isso acontece?

Os terroristas alemães sequestraram judeus e, entre eles, havia uma senhora que passou por Auschwitz. Ela teve uma crise nervosa e começou a tratar os pilotos como se fossem soldados nazistas. Isso afetou e irritou bastante tanto a Brigitte quanto o Böse, a ponto de o Böse ter dúvidas a respeito do valor do que ele mesmo estava fazendo ali. Não foi uma tentativa minha de trazer essa questão do nazismo de volta, pois ela já estava posta pela realidade. Nenhum grupo social, nenhuma nação quer passar por algo semelhante ao que ocorreu durante o Holocausto. E não apenas com os judeus, mas também os ciganos. Esperamos que a História não se repita nunca mais.

Divulgação/Diamond Films
José Padilha: 'O conflito não termina enquanto não tiver uma série de posturas não ortodoxas'.

7 Dias em Entebbe mostra que o nazismo e o conflito de Israel vs. Palestina habitam o mundo do judaísmo. O que ambas as questões, vistas como parte de um só tecido, podem nos dizer?

Não dá para tirar o Estado de Israel do contexto histórico no qual ele foi formado. Logo antes da Segunda Guerra Mundial e depois, houve um enorme fluxo de judeus para a Palestina. A população, que era de predominância árabe, começou a ficar cada vez maior e cada vez mais composta por pessoas de origem judaica. Na ocasião, existia o domínio britânico, que controlava territorialmente a Palestina. Tanto é que os britânicos foram alvos de atentados terroristas de grupos judaicos. Teve um atentado no King David Hotel que matou 97 pessoas, com uma bomba colocada por um grupo israelense. Não dá para separar do nazismo, porque a origem do conflito está na Segunda Guerra Mundial, que fez um fluxo de população que ocasionou o conflito. Além disso, logo na sequência, na ONU, teve a resolução que criou o Estado de Israel, que por sua vez veio logo depois da guerra. Os palestinos não aceitaram a proposta da ONU porque não era razoável do ponto de vista deles, que tinham a maioria da população e ficariam com menos da metade do território. O conflito vem daí, está ligado necessariamente ao nazismo.

Durante a sua pesquisa, você encontrou alguma proposta de solução a esse conflito que você avalie como boa?

Eu acho que, durante a História, existiram dois momentos em que poderia haver paz, mas ambos foram sabotados pelo mesmo fenômeno. O primeiro foi em Oslo [em 1993], quando o [Yasser] Arafat [líder palestino] e [Yitzhak] Rabin [ex-primeiro-ministro de Israel] realmente tinham um projeto de paz que não foi a frente porque Rabin foi assassinado por um radical ortodoxo de direita. Aí Oslo não foi a cabo. O segundo momento foi em Camp David [em 2000], quando o representante de Israel era [o então primeiro ministro] Ehud Barak e o Arafat. Nesse caso em específico, o Arafat simplesmente se recusou a negociar com o Barak, apesar de as propostas terem sido razoáveis. Eu imagino que o Arafat não tenha negociado porque provavelmente seria assassinado dentro da Palestina, assim como Rabin foi em Israel.

O longa tem belas cenas de dança, coreografadas por Ohad Naharin. O que elas expressam e por que números de dança para dizer o que poderia ser dito por outros recursos narrativos?

É uma forma de pensar o escape da ortodoxia, inclusive da ortodoxia religiosa, que também tem a ver com o conflito de Israel e palestina, de ambos os lados. A dança já foi feita como é mostrada, eu só decidi colocá-la no filme. Mas achei, e ainda acho, que era uma maneira elegante, bonita de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Por um lado, ressaltar que a cultura de Israel é rica e tem muitas coisas bonitas, como o [grupo] Batsheva. A dança moderna de Israel é linda. E, por outro lado, achei também que seria uma maneira bacana de dizer "olha, esse conflito não termina enquanto não tiver uma série de posturas não ortodoxas, ideologia não é daqui, é de lá. Quando isso não sehuf sobrepujar à ortodoxia, a gente não terá paz entre Israel e Palestina".

Divulgação/Diamond Films
A inglesa Rosamund Pike como a terrorista alemã de '7 Dias em Entebbe': Padilha a escolheu para o papel por considerá-la 'excelente'.

7 Dias em Entebbe estreia nesta quinta-feira (19). Tem 107 minutos de duração, classificação indicativa 12 anos e distribuição da Diamond Films.

Veja o trailer abaixo:

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