POLÍTICA
17/04/2018 13:46 -03 | Atualizado 20/04/2018 19:42 -03

Delação da JBS: Aécio se diz ingênuo e vítima de armadilha

"Isso vai me dar uma ajuda do caralho", disse o senador após acertar propina de R$ 2 milhões.

Ueslei Marcelino / Reuters
Em julho do ano passado, quando retornou ao mandato após um mês e meio afastado, o senador se defendeu e disse que fez as declarações em caráter privado.

Alvo de 9 inquéritos no STF e agora réu por corrupção e obstrução de Justiça, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) se considera ingênuo, vítima de armadilha e alega que a série de palavrões que aparece nas gravações não faz parte de seu vocabulário comum.

Ele afirma ainda que tem se penitenciado diariamente pelos seus erros, mas ressalta que não cometeu nenhuma ilegalidade. Para ele, a decisão do STF de julgar a denúncia na qual é acusado de ter pedido R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista é resultado uma ânsia de punir.

O tucano alega que não ofereceu nada em contrapartida e diz que caiu em uma armadilha do empresário. A denúncia, entretanto, diz que o senador trabalharia em favor do dono da JBS no Congresso.

Áudio entregue por Joesley em sua delação à Procuradoria-Geral da República mostra que, ao pedir esses R$ 2 milhões, Aécio trata do tema com muita desenvoltura:

Aécio: Como é que a gente combina?

Joesley: Tem que ver, você vai lá em casa ou...

Aécio: O Fred

Joesley: Se for o Fred, eu ponho um menino meu pra ir. Se for você, sou eu. Só Eu só faço desse jeito.

Aécio: Pode ser desse jeito.

Joesley: Entendeu? tem que ser entre dois, não dá pra ser...

Aécio: Tem que ser um que a gente mata ele antes dele fazer delação.

Joesley: Eu e você. Pronto. Ou o Fred e um cara desses... pronto.

Aécio: Vamos combinar o Fred com um cara desse. Porque ele sai de lá e vai no cara. Isso vai me dar uma ajuda do caralho.

O vocabulário "incomum", como o senador chamou os palavrões, aparece em outros trechos grampeados. Ao detalhar um plano para barrar a Operação Lava Jato, Aécio diz: "O que vai acontecer agora, vai vir inquérito sobre uma porrada de gente, caralho, eles aqui são tão bunda mole que eles não notaram o cara que vai distribuir os inquéritos para os delegados".

Em julho do ano passado, quando retornou ao mandato após um mês e meio afastado por causa dessa denúncia, o senador se defendeu. Disse que estava fazendo críticas, em caráter privado, às investigações.

O linguajar também é usado em uma das gravações interceptadas pela Polícia Federal. Na conversa, Aécio repreende o senador Zezé Perrella (MDB-MG).

"Deixa eu te falar bem rapidamente aqui. Eu acho que não preciso provar o quanto sou teu amigo na vida, né, cara? Então, vou te falar aqui como amigo, com a liberdade de amigo. Olhe, poucas vezes eu vi uma declaração tão escrota, Zezé, como essa que você deu hoje", disse o senador.

A conversa em que os dois falam sobre financiamento de campanha termina com os senadores rindo de uma reposta de Perrella: "Porque eu sou muito agredido pelo negócio do helicóptero até hoje, sabe, Aécio? Eu não faço nada de errado, eu só trafico drogas".