17/04/2018 11:09 -03 | Atualizado 17/04/2018 13:55 -03

Aíla Oliveira: A jovem que está vingando pais e antepassados ao avançar na educação

"Eles falavam para mim: 'estamos fazendo isso porque a gente quer que você seja grande'", conta estudante de História da UFBA.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
Aíla Oliveira vive há 20 anos nesta casa no Cabula, no centro da península de Salvador.

Caso estivéssemos de olhos fechados, somente a escutando, seria penoso acreditar que tamanha sabedoria e tranquilidade saem da voz de uma menina de apenas 20 anos — e cuja aparência transparece até menos do que isso.

Ela fala de tudo com a convicção de quem já viveu uma vida inteira, mas hesita quando o assunto é falar de si própria. "Eu nunca paro para pensar em mim enquanto texto. Aí a minha cabeça às vezes buga", confessa, aos risos, sentada em posição de lótus na poltrona de seu quarto. Ok, deixa a parte do texto com a gente então.

Aíla Oliveira é estudante de história na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Só que antes de adentrar as portas da Academia, percorreu um caminho comprido na militância do povo negro e das mulheres negras, muitas vezes por de trás de seu computador, dentro do sossego do lar, numa esquina do Cabula.

Nessa mesma casa bem pequena, mas com um quintal onde um pé de jenipapo desenha um pontinho verde em meio a prédios e condomínios que não cessam de brotar, ela nasceu e vive até hoje.

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O pé de jenipapo recorta a paisagem da casa de Aíla.

A soma das duas décadas de sua idade é também o número que corresponde aos anos que os seus pais têm de casados e de Salvador — cidade na qual foram morar depois que deixaram o interior da Bahia. Dona Rosângela estudou até a 5ª série. Seu Rosival foi um pouco além e completou o Ensino Fundamental. Ela é empregada doméstica; ele, desempregado.

Apesar dos percalços, desde os primeiros anos da filha única, ambos tinham uma única certeza: com Aíla seria diferente.

Eles falavam para mim: 'estamos fazendo isso porque a gente quer que você seja grande'. Dá felicidade de ver que eles fizeram a opção certa.

"Mesmo com o dinheiro contado, a mensalidade estava sempre em dia, eu tinha uniforme e todos os módulos. Eles falavam para mim: 'estamos fazendo isso porque a gente quer que você seja grande, a gente acredita no seu potencial'. Imagine só, duas pessoas que, para a sociedade, não são nem letradas. Dá felicidade de ver que eles fizeram a opção certa. Eles brocaram (risos)."

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A conexão de Aíla Oliviera com sua identidade como mulher negra é muito forte.

Os estudos lhe foram impostos e ela, de bom grado, aceitou. Mas foi arrebatada mesmo por uma disciplina específica: História. Quando criança não fazia ideia se um dia conseguiria chegar ao Ensino Superior, mas sua curiosidade acerca das coisas que a rodeavam lhe davam a certeza de que seria este o curso escolhido. "Eu perguntava muito sobre o porquê de as coisas serem de tal forma. E para isso eu sempre buscava uma lógica, um fio histórico. Para mim o 'porque sim' nunca foi suficiente", explica.

E de tanto se questionar sobre isso e aquilo, acabou aos 16 anos se aventurando por grupos de debates no Facebook, principalmente naqueles organizados por mulheres, e também em coletivos do movimento negro da capital baiana. "Eu não me reconhecia enquanto preta, tinha discursos muito retrógrados quanto ao ser mulher e todas as pautas referentes ao feminino. E pela internet eu passei a ter acesso a todos esses debates e entendi: eu sou isso, a sociedade me lê desta forma, então eu preciso me projetar dentro dos meios que falem a minha língua, falem sobre o meu corpo, falem sobre as minhas dores."

Foi dentro de um desses coletivos que recebeu um convite que viraria a sua vida do avesso. A Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, buscou, em todos os estados do Brasil, representantes da juventude para auxiliar na montagem do I Encontro Nacional de Adolescentes Negros e Negros, em Brasília. A escolhida para representar a Bahia não poderia ter sido outra: ela mesma, Aíla. Só que o que ela ainda não sabia é que seria a única jovem a participar desse processo. "Era um evento sobre juventude e todos os coletivos brasileiros mandaram pessoas de mais de 40 anos! Nas mesas de debates só tinha eu de adolescente. Mas acho que deu certo porque, depois disso, eles [a Unicef] colaram em mim."

A parceria não parou por aí: em 2016 escreveu, para a entidade, um manifesto em comemoração aos 25 anos da criação do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) no País e hoje em dia trabalha na criação de uma agenda sobre os homicídios dos jovens negros em Salvador. "Essa pauta é tarefa do Estado, mas o Estado não faz. Estamos trabalhando em um enfrentamento a esses homicídios, querendo saber por que eles acontecem, quais são os motivos que colocam estes jovens numa situação de vulnerabilidade, e tentaremos reverter o quadro", conta.

Atualmente, confessa que tem ficado um pouco desencantada das instituições por trás dos movimentos sociais. "A subjetividade da gente é muito apagada dentro desses processos políticos. Eles falam das camadas populares como se elas fossem universalizadas: você é preta, você sofre essas determinadas dores, portanto você tem que falar e agir desta forma, votar nesse candidato. O que forma cada um é deixado de lado."

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Aíla já participou de debates da Unicef, gravou curtas e estuda História na UFBA.

Hoje, Aíla diz estar num processo que classifica como "entendimento sobre o que pode fazer de fato". Por isso, é na área da militância educacional que encontra a sua menina dos olhos.

Pesquisa e atualiza, junto à sua orientadora, o chamado Projeto Político Pedagógico (PPP), documento obrigatório a todas as escolas públicas, que destrincha as especificidades de cada uma, mas que muito diretor nem sabe que existe. A palavra chave aqui, assim como em seu distanciamento das militâncias, é a não-universalização. Afinal, cada escola tem as suas especificidades.

O debate educacional no Brasil gira em torno dessa questão de universalizar as escolas, como se todas tivessem a mesma demanda. Só que uma escola que é numa favela é muito diferente de uma no centro.

Se você frequentou algum festival de cinema pelo Brasil ou até mesmo mundo afora entre o ano passado e este de agora, talvez esteja se questionando: "rapaz, eu conheço esse rosto de algum lugar". E tá certíssima. Entre um projeto e outro e faculdade, Aíla ainda encontrou tempo para protagonizar o curta Fervendo, da diretora baiana Camila Gregório. "Um dia ela chegou para mim e disse: 'amiga, escrevi um roteiro aqui em 15 minutos e eu não consigo ver outra pessoa a não ser você atuando'. Aí eu respondi: 'Camila... eu não sou atriz, pelo amor de Deus'. Ela teimou que eu era e me convenceu. Na outra semana a gente já estava gravando no banheiro da casa dos avós dela na Pituba'."

E, como em tudo que se dispõe a fazer, arrasou — "tá rodando o Brasil inteiro e eu tipo: hã? (risos) ". Até agora, foi indicada a 5 prêmios de melhor atriz e adivinha só: ganhou todos. No enredo do filme, assuntos aos quais ela está mais do que habituada, como a relação dos jovens com as redes sociais, abuso, aborto, relação dos jovens com a família e sororidade. E não para por aí, em fevereiro deste ano gravou mais dois curtas — Talha e Durma Agora com Fogo, ambos pelo coletivo "Feito a Facão" – que devem chegar ao cinema no próximo semestre.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
Aíla é motivo de orgulho para Dona Rosângela.

Quanto mais eu avanço na educação, mais eu sinto que tô vingando meus pais e os que vieram antes deles.

É por essas e outras que arranca, constantemente, lágrimas de orgulho de Dona Rosângela e Seu Rosival, os quais se refere como melhores amigos. "É tudo para eles e por eles. Eles não puderam concluir os estudos, então eu acho que sou ligada nisso da educação porque foi algo que foi negado a eles. Hoje, quanto mais eu avanço nesse aspecto, mais eu sinto que tô vingando meus pais e os que vieram antes também. É isso que me sustenta e me alimenta a ponto de eu pensar no futuro não com desespero, mas com a certeza que o que é para ser, vai ser. Porque é assim que eles encaram a vida."

"Tudo são trechos que escuto, vêm dela, porque a minha mãe é a minha voz", canta Caetano Veloso em Genipapo Absoluto (sic), uma das faixas do álbum Estrangeiro. Coincidência ou não, é com um saco plástico abarrotado dessa frutinha – plantada pelas mãos da própria Rosângela, colhidos por Rosival e entregues por Aíla –, que deixamos o lugar com a mesma certeza que eles carregam.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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