16/04/2018 00:00 -03 | Atualizado 16/04/2018 10:15 -03

Tamires de Souza: Ela venceu dificuldades após se tornar órfã e mãe no mesmo dia

"O primeiro velório que fui na vida foi o da minha mãe. Mas eu não tive luto, não deu tempo", disse, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Tamires Oliveira de Souza é a 40ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Aos 19 anos, Tamires Oliveira de Souza, hoje com 30 anos, ficou órfã e se tornou mãe no mesmo dia. Não de uma, mas de três crianças. Foi no dia 7 de maio de 2007: mais um dia normal de trabalho em que Tamires, depois de perambular pelas ruas de Porto Alegre como vendedora de telefonia móvel, ligou para casa como de costume, após o expediente. Enquanto batia um papo pelo telefone com a mãe, Márcia, algo aconteceu. A ligação caiu. Tamires rediscou o número de casa, e quem atendeu foi a irmã mais nova. "A mãe caiu", disse Jéssica, com 8 anos na época. "Parem de brincadeira, deixa eu falar com ela", desconversou Tamires, acostumada com as brincadeiras de Márcia. "Mana, eu acho que é de verdade", respondeu Jéssica. "Corre e chama a Bete!", ordenou Tamires, e a irmã mais nova foi pedir socorro à vizinha.

A ambulância veio, mas as tentativas de reanimar Márcia, hipertensa, portadora de doenças cardíacas, não tiveram sucesso. Ela morreu aos 42 anos, deixando seis filhos de dois casamentos. Tamires era a segunda mais velha, e imediatamente assumiu a guarda dos menores - de dois, quatro e oito anos.

O primeiro velório que fui na vida foi o da minha mãe. Mas eu não tive luto, não deu tempo.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
A atenção do pai seus irmãos nunca tiveram, e isso para Tamires foi mais difícil do que qualquer problema financeiro.

"Nunca me passou pela cabeça deixar eles com o pai biológico. No velório mesmo eu já o informei que ia ficar com as crianças", conta Tamires. O pai dos três pequenos já estava separado de Márcia e não se dava bem com os mais velhos (além de Tamires, um menino de 17 e uma moça de 21). À época, ela cobrava que ele desse atenção aos irmãos, talvez porque ela mesma não tenha convivido com o próprio pai. Queria que eles tivessem essa vivência, mas a relação era conturbada. "Todas as visitas acabavam em briga", conta.

Eu ia levar flores no cemitério, e tinha de levar eles junto, fazer o quê? Aí eu explicava que o corpo da mamãe estava morando ali, mas ela estava em outro lugar, no céu.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil

A primeira providência da ainda adolescente foi sair da casa da família, em Viamão, cidade vizinha de Porto Alegre. Não suportava a ideia de permanecer no ambiente em que sua mãe morreu. Se mudou dali com as três crianças - Leonardo, o caçula, Lucas e Jéssica, a mais velha - para a capital. Morou de aluguel em três endereços diferentes, chegou a trabalhar fora o dia todo, deixava os dois meninos com uma babá e na creche. Jéssica ia para a escola de manhã e ficava à tarde sozinha no apartamento.

"Eu chegava em casa e tinha de deixar tudo pronto para o dia seguinte. Ia dormir de madrugada. No final de semana, pegava ônibus com os três para ir ao parque, ao shopping. Onde eu ia, eles iam". Inclusive ao cemitério. "Eu ia levar flores, e tinha de levar eles junto, fazer o quê? Aí eu explicava que o corpo da mamãe estava morando ali, mas ela estava em outro lugar, no céu. Ainda rezo todo dia, mas parei de ir lá". Nesta época, Tamires foi trabalhar como secretária em consultório médico, ofício que desempenha até hoje.

Nunca me passou pela cabeça deixar meus irmãos com o pai biológico dele.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Tamires luta para que o pai das crianças ajude-os financeiramente. Ela trata abertamente com os três sobre a situação do pai.

Naquele tempo, a avó paterna das crianças apoiava bastante os netos, financeira e afetuosamente. Tamires fazia questão que convivessem com tias e primos, mas a atenção do pai eles não tinham, e isso para ela foi mais difícil do que qualquer dificuldade financeira. Um ano após a morte de Márcia, ela recebeu uma notificação da Justiça: o ex-padrasto reivindicava a guarda dos filhos. "Aí foi que eu comecei a sofrer. Tinha 20 anos, não entendia nada de leis, me desesperei. Achei que não tinha condições de ir contra o pai deles". Tamires procurou uma advogada, juntou notas fiscais e documentos de colégio, remédios, médicos e, na audiência judicial, conseguiu provar à juíza que vinha proporcionando uma vida confortável aos três - que o pai, por outro lado, não conseguiu mostrar que manteria.

"Ali, a juíza encerrou a questão e manteve a guarda comigo", conta. Desde então, a família perdeu o contato. Seis anos depois, cansada de ter de correr atrás da contribuição informal de R$ 200 dele todo mês, Tamires decidiu processar judicialmente o pai das crianças para que cumpra com suas obrigações. O processo ainda corre e, segundo Tamires, ele está com a prisão decretada.

Ontem isso aqui estava uma bagunça, botei todo mundo na faxina. Não quer lavar a louça? Vai limpar o banheiro!

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Tamires guarda um porta-retrato com "MAMÃE" entalhado, com uma fotografia dela, ao lado do marido e seus quatro "filhos".

Ela trata abertamente com os três irmãos sobre a situação do pai, e conta tudo o que acontece no processo. Perguntou à irmã, hoje com 19 anos, se, diante do risco de prisão, queria que a ação fosse retirada, e recebeu como resposta um sinal verde para seguir em frente: "Se ele pagar a dívida que tem, pelo menos vou poder fazer pelos guris o que não pude fazer pela Jéssica. Pagar inglês, futebol, informática".

Casada desde 2009 com Luís Fernando, Tamires voltou para Viamão. Hoje mora na casa que era da mãe com o marido e as três crianças. O casal havia, inclusive, decidido não ter filhos. "Já tínhamos uma vida de pai, mãe. E ainda um monte de sobrinhos". Mas, quando a vida parecia estabilizada de novo, veio outra surpresa. Tamires tinha trocado de pílula anticoncepcional, por orientação médica, mas não se adaptou e, com apenas horas de atraso na menstruação, já sabia que algo estava acontecendo. Fez um teste de farmácia e, por dois dias, "só chorava". Contou a novidade para os irmãos antes de criar coragem de dizer a Luís Fernando, que seria pai.

Meu marido faz tudo. Eu não lavo UMA cueca dele.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu ia levar flores no cemitério, e tinha de levar eles junto, fazer o quê?", conta, sobre a da morte da mãe e seus irmãos.

Hoje Bernardo tem um ano e três meses e olhos amendoados muito brilhantes. Tamires chegou a deixar o emprego no consultório médico para cuidar dele, mas foi chamada de volta e hoje trabalha meio turno - Jéssica assumiu as manhãs. Os dois tios ajudam a cuidar do pequeno, assim como da casa: louça, roupa, faxina, todas as tarefas são compartilhadas com os três homens no lar simples de quatro cômodos e um banheiro. "Meu marido faz tudo. Eu não lavo uma cueca dele".

Na estante da sala, um porta-retrato com "MAMÃE", em letras garrafais entalhadas mostra uma fotografia com seis pessoas: Tamires, o marido e seus quatro "filhos".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.