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14/04/2018 09:41 -03 | Atualizado 14/09/2018 14:27 -03

A fé da viúva de Marielle no poder transformador de cada um de nós

Monica Benício: “Qualquer pessoa pode lutar pela democracia, de qualquer lugar, não necessariamente dentro do Parlamento”.

Levar as bandeiras, missões e ideais da Marielle a gente pode fazer de qualquer lugar, qualquer pessoa pode fazer isso.

É com fé no poder transformador de cada um que a viúva de Marielle Franco, Monica Benício, encara a responsabilidade de preservar o legado da vereadora do Rio de Janeiro pelo PSol, assassinada brutalmente em 14 de março.

Marielle e seu motorista Anderson Gomes foram atingidos por um total de 13 tiros em Estácio, na região central do Rio. Negra, da periferia e lésbica, a vereadora, que era uma das vozes de denúncia sobre violência policial, se tornou um símbolo de luta pelos direitos humanos.

"Existem várias formas de continuar essa luta", explica Monica ao HuffPost Brasil. "Existe a forma pela qual Marielle escolheu, que é por dentro do Parlamento, por dentro do sistema. Acho que a política hoje ainda é uma das formas mais bonitas que a gente encontra de lutar pela democracia, embora o Brasil não seja o melhor exemplo que a gente tenha de prática disso, mas eu acredito nisso. Só que também há outros meios de fazer isso", pontua.

Como arquiteta e urbanista, com mestrado em curso, Monica, por exemplo, acredita no poder da sala de aula. "No meu lugar de fala, [a luta] pode ser na instrução de alunos para que se tornem bons urbanistas, que pensem em cidades para todos, que pensem em uma cidade que não seja tão segregada, violentamente como a gente tem hoje", explica.

Para ela, uma doméstica pode fazer isso quando está na militância ou só quando ensina o filho a ter bons valores, a não ser machista, a não aceitar a sociedade patriarcal. "Qualquer pessoa pode fazer isso, de qualquer lugar, não necessariamente dentro do Parlamento", reforça.

No momento, o principal objetivo de Monica tem sido não deixar essa luta parada. "Minha colaboração tem sido falar com a imprensa", afirma. "Acho importante o papel que venho fazendo dando essas entrevistas para pressionar as investigações, para gente cobrar resultados. Isso tem demandado muito do meu tempo e modificado demais a minha rotina", conta.

Em meio a essa rotina distante da que tinha até o início de março, Monica não viu o tempo passar. "Na verdade, fui informada quando passou 1 mês. Eu não percebi essa passagem de tempo. Ainda não tive o tempo de fazer o luto da minha mulher, da minha companheira. Eu sequer entendi ainda que a minha esposa faleceu. Estou em uma demanda de trabalho que luta pela resposta do assassinato brutal que hoje a torna um símbolo de luta pelos direitos humanos, mas do campo pessoal, particularmente, não consegui fazer esse luto."

Sem respostas

Embora exista um clamor popular por uma resposta rápida, Monica demonstra paciência. Diz que é preciso entender que o tempo das investigações é "diferente do nosso, de luto". Na avaliação dela, o crime foi muito bem planejado. "Por isso acredito que de difícil solução, mas não impossível. Acredito que essa reposta virá."

As autoridades responsáveis pelo caso no Rio de Janeiro garantem que o trabalho de investigação segue intenso. O carro de Marielle foi perseguido e alvo de disparos. A suspeita é que o crime tenha sido cometido por milicianos, denunciados por Marielle e pelo deputado estadual Marcelo Freixo (PSol) na CPI das Milícias, em 2008. Não há muitas informações além dessas.

NurPhoto via Getty Images
Protestos contra o assassinato de Marielle e em defesa dos direitos humanos tomaram as ruas de diversas cidades do País.

"Acho que o papel que estamos fazendo hoje mantendo a resistência nas ruas, cobrando, ele é fundamental para que essa resposta venha e venha o mais rápido possível, mas essa demora não me desanima. Essa demora na verdade faz que eu me mantenha nessa luta. A gente não pode ter uma resposta só para ter uma resposta. A gente quer ter a resposta correta, e mais importante que saber quem matou Marielle é quem mandou matar a Marielle, quem articulou esse crime e quais foram as motivações que levaram a essa execução", acrescenta Monica.

Mais importante que saber quem matou Marielle é quem mandou matar a Marielle, quem articulou esse crime e quais foram as motivações que levaram a essa execução.

A morte de Marielle despertou a indignação em boa parte da população, o que levou a uma esperança de mobilização. Ao ver a manifestação no dia seguinte à morte da vereadora, Ivo Herzog, diretor-executivo do Instituto Vladmir Herzog, que leva nome de seu pai, morto na ditadura, chegou a lembrar do culto ecumênico na Catedral da Sé em homenagem a ele, em 1975.

"A morte do meu pai simbolizou uma coisa muito importante: o início da derrocada da ditadura e o começo de uma redemocratização. Só há esperança que a morte da Marielle agora, pelo menos, una as pessoas para dar uma virada nesse cenário de abandono do poder público. Tem que se questionar o status quo que existe aí. Eu não tenho as respostas. Eu estou absolutamente chocado com a realidade", disse ao HuffPost Brasil.

Monica corrobora o posicionamento de Ivo Herzog. Para ela, Marielle foi executada, e é um crime político. "É claro que gera um nível de ansiedade muito grande não ter essa resposta no tempo emocional, mas se o sigilo é importante para as investigações, para que a gente chegue de fato ao que aconteceu, então a única coisa que eu posso fazer é respeitar."

Jose Cabezas / Reuters
As manifestações reacenderam a esperança por mobilizações contra abusos em relação aos direitos humanos.