14/04/2018 00:00 -03 | Atualizado 15/04/2018 13:24 -03

Regina Ferreira: Ela encarou os 'nãos' e se lançou em sua própria passarela

Ela briga para traçar o próprio caminho na moda e mostrar que é capaz: “A questão de ser modelo não é um lance de close, mas de autoestima”, disse, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Regina Ferreira é a 38ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

O lema é ir. Pega e vai. Simples assim. Corajoso assim. Mesmo com dúvida. Mesmo sem ter onde morar. Mesmo sem ter trabalho certo. Mesmo sem saber o que vai rolar. Na verdade, nunca dá para saber e Regina Ferreira, 29 anos, está aberta a descobrir o que está por vir. Foi assim que foi morar na Itália por seis meses aos 18 anos. Foi assim que chegou a São Paulo para ficar uma semana e virou moradora há sete anos. É assim que ela vai.

Nascida no Guarujá, pensava em ser modelo, mas achava que não ia rolar. "Eu tinha feito um concurso no Guarujá, mas sempre me achei feia e zuada, nada a ver". Acabou investindo em outra área. Não era profissão, mas gostava de dançar e se arriscou em uma audição para entrar em uma companhia de dança na Itália. Passou e ficou seis meses por lá. "Era super difícil. Era um show de 1h15 com diversos ritmos brasileiros, muita troca de roupa, tinha costeiro, cabeça, pena. Acabei nem fazendo muita grana porque a gente levava multa por tudo... se esquecesse alguma peça, se errasse a coreografia, se brigasse com alguém. Mas valeu de experiência".

É meio frustrante, é tanto não... eu entrava nas agências, mandava mensagem, ia pessoalmente e falavam que já tinham dois negros na agência, então não ia rolar.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Pesquisei cortes e fui no cabeleireiro de uma amiga. Quando ele passou a máquina... parecia que agora era eu. E ai começou a rolar".

Quando voltou para casa, teve que procurar trabalho. Regina sempre ajudou a família e acabou não fazendo faculdade. Um pouco por falta de dinheiro e um pouco por falta de paixão em algum curso específico. Ela logo já alerta: "sem paixão não consigo fazer nada". E a paixão adormecida que estava ali era pela moda. Em paralelo ao trabalho, fazia suas pesquisas por agências de modelo. O porte de 1,79 m fazia já naquela época com que ela nunca se esquecesse dessa possibilidade em sua vida. Nas pesquisas, encontrou profissionais que fotografavam modelos e conseguiu uma promoção para fazer umas fotos. Com o material, foi chamada por uma agência para fazer uns castings e rolou aquela uma semana em São Paulo. Desde então, batalha pelos seus testes e por cada trabalho que consegue.

Ela sabe que esse mundo não é fácil. Nesses anos todos ouviu muitas negativas. "É meio frustrante, é tanto não... eu entrava nas agências, mandava mensagem, ia pessoalmente e falavam que já tinham dois negros na agência, então não ia rolar. Pensava 'ah sim, todo negro é igual'. E peguei bode também porque sempre queriam que eu emagrecesse".

Mas mesmo com os desafios, a vontade de fazer parte disso continuava mais forte. "A questão de ser modelo não é um lance de close. Close todo mundo quer e todo mundo gosta, mas era uma questão de autoestima, sempre achei que não podia e eu queria mostrar que posso sim, que tem outros negros na agência, mas eu não sou como os outros, a questão maior para mim era essa. Mas desistia. Ai alguém me parava na rua e falava que eu devia ser modelo. E ai lá ia eu tentar de novo".

A questão de ser modelo não é um lance de close. Close todo mundo quer e todo mundo gosta, mas era uma questão de autoestima, sempre achei que não podia e eu queria mostrar que posso sim.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Nascida no Guarujá, pensava em ser modelo, mas achava que não ia rolar. Até que decidiu moldar seu próprio caminho.

Chegou ser secretária de agência de modelo, ficou sem receber e saiu para trabalhar em um mercado. Continuou buscando seus testes. Usava o tempo de intervalo no trabalho para ficar em lanhouses atrás de possíveis trabalhos. Até que em um desses testes conheceu uma menina que falou da possibilidade de fazer eventos. E Regina começou a focar nisso. Foi dando certo, pode sair do mercado e ficar mais próxima do que queria. Mas a grande virada veio da cabeça dela mesmo, um pouco depois.

"Eu fazia permanente no cabelo, mas eu não queria mais química, não era eu. E fiquei nessa de querer cortar o cabelo. Parei com a química, cortei. Achei que não ia mais trabalhar. Pesquisei cortes e fui no cabeleireiro de uma amiga. Quando ele passou a máquina... parecia que agora era eu. E ai começou a rolar". O episódio emblemático tem um ano e meio e desde então Regina foi conseguindo, aos poucos, ser a modelo que queria. Conseguiu umas campanhas, assinou com uma agência.

Na dificuldade, descobriu outros talentos. Enquanto não conseguia emplacar como modelo, foi fazer um curso técnico de costura. Acabou não se formando – mas fez outros planos com isso e já tem data para retomar os estudos. "Eu encaro que se uma coisa não está dando muito certo, talvez a gente tenha que seguir por outro caminho. Eu não queria sair do meio da moda. Às vezes a gente não sabe para onde ir, mas talvez tenha só que ir e ver o que vai rolar, o que vai brotar. Um dia estava no curso e tinha que montar uns looks com o que estava nas revista e eu vi que o que eu tinha na minha cabeça não tinha na revista e resolvi desenhar e vi que sei desenhar".

Eu encaro que se uma coisa não está dando muito certo, talvez a gente tenha que seguir por outro caminho. Eu não queria sair do meio da moda. Às vezes a gente não sabe para onde ir, mas talvez tenha só que ir e ver o que vai rolar.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, Regina briga para traçar o próprio caminho na moda e mostrar que é capaz.

É claro que não vai deixar de lado a outra parte desse sonho. "Eu amo ser modelo porque não é o lance do close, é do empoderamento. Me ver, saber que outras manas vão ver que podem, vão ver que também são bonitas. É essa questão". Sabe que o esforço é grande. Afinal são anos de uma rotina muito puxada. "É super cansativo, você nunca sabe o que vai ser os testes. Às vezes entra e sai rápido e às vezes demora hora, tem cenas para fazer. Mas eu só vou".

Assim, ela tem chegado a lugares. Incentivou a mãe, que sempre fez consertos de roupa, a fazer um curso de corte e costura. Está de olho na futura sócia. "Quero muito fazer um negócio meu. Vou começar o curso de modelagem em agosto. Eu vou para ver o que acontece".

Isso já deu pra perceber. Ela vai.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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