ENTRETENIMENTO
13/04/2018 19:51 -03 | Atualizado 13/04/2018 19:51 -03

E se Joaquin Phoenix for mais simpático do que dizem?

O ator é conhecido por ser irritável. Talvez seu novo filme, 'You Were Never Really Here', o tenha tranquilizado.

Gabriela Landazuri/HuffPost, Photos: Getty images

Joaquin Phoenix tem fama de ser uma pessoa fria, até ranzinza. O ator deixa claro que não gosta de falar dele próprio, tanto que pode abandonar uma entrevista no meio, denunciar a máquina publicitária de Hollywood ou possivelmente até se recusar a abrir a boca. Em 2014, num evento de perguntas e respostas de meia hora após uma sessão do filme Vício Inerente no Festival de Cinema de Nova York, Phoenix não tirou os óculos de sol e ficou sentado sobre o palco sem proferir uma palavra.

Quando ele telefonou para conversar sobre seu novo filme, eu estava prevendo a mesma energia concisa pela qual ele já é famoso. Tentei imaginar o que seria preciso para fazer esse excêntrico estóico gargalhar ou dizer alguma coisa simpática. Na verdade, não foi preciso muito. Phoenix estava de bom humor desde o primeiro momento, chegando a se desculpar porque a entrevista demorou para começar. Ele precisou almoçar antes de conversarmos, e alguém poderia reclamar disso, por acaso?

Phoenix é protagonista do ainda inédito You Were Never Really Here, dirigido pela mestra escocesa Lynne Ramsay, cujos trabalhos viscerais (Precisamos Falar sobre o Kevin, O Romance de Morvern Callar, Ratcatcher) lhe valeram a fama de ser uma das cineastas mais inteligentes da atualidade. Ela encontrou um "muso" ideal em Phoenix, que tende a se dar bem em estudos de personagens complicados (O Mestre, Ela, Os Donos da Noite). Em You Were Never Really Here, ele faz um veterano de guerra, taciturno e maltrapilho, que sofre de TEPT (estresse pós-traumático) e é contratado para resgatar meninas de redes de tráfico sexual e outras circunstâncias brutais. Mesmo para um ator que parece entregar seu corpo inteiro a seus papéis – basta pensar no mode de falar de Commodus, na arrogância irrequieta de Johnny Cash, na postura corcunda de Freddie Quell --, You Were Never Really Here exige um equilíbrio ágil entre determinação obstinada e vulnerabilidade emocional. O espectador sente isso nos movimentos de Phoenix.

Talvez seja por isso que o ator estava de tão bom humor: depois de tirar dois anos para descansar, ele está trabalhando com uma diretora que adora e tem três outros projetos promissores no horizonte (Don't Worry, He Won't Get Far on Foot, Maria Madalena e The Sisters Brothers). Phoenix e eu falamos de diversas coisas, incluindo por que ele acha que não devemos chamar Robert de Niro de "Bob", o filme sobre Coringa sobre o qual há especulações que o envolvem, e o fato de ele talvez não saber quando é o Dia dos Namorados.

Parece que você está fazendo mais divulgação que de costume para este filme. É a sua impressão também?

Aaaahn. [ri]. Vamos ver. Eu fiz algumas coisas que não tinha feito antes, algumas coisas na TV. É verdade, acho que estou fazendo mais divulgação.

Você está mais receptivo a falar com a imprensa desta vez do que esteve com filmes passados?

[Pausa] Não sei. Não sei o que é. Vou lhe dizer o que é. São duas ou três coisas. Fui a Berlim com Gus Van Sant para Don't Worry, He Won't Get Far on Foot. Eu estava com ele quando ele deu algumas entrevistas, e o jeito como ele falou das coisas me pareceu bom. Acho que é em parte que encontrei a oportunidade de bater papo com pessoas, ao invés de dar uma entrevista, sabe. E curto isso. Acho que gosto de conversar com outras pessoas sobre cinema.

Gostamos de ouvir você falar de cinema, então queremos que você goste das conversas que o obrigamos a ter.

[Ri]

Quando outras pessoas falam sobre você em entrevistas, muitas vezes lhe chamam de Joaq. Muita gente o chama assim?

Ahhhn, não sei. Com que frequência você diz o nome de seu amigo? Sabe o que quero dizer? Não muitas vezes, certo?

Ok, acho que deve ser verdade, mas acho que você deve ter uma ideia geral de como as pessoas lhe chamam, especialmente se o chamam de outra coisa que não é seu nome. Mas talvez você não mantenha um catálogo mental de Joaq versus Joaquin ou qualquer outra coisa que as pessoas possam chamá-lo.

Deve ser mais ou menos igual. Mas não gosto quando as pessoas dizem Bob em vez de Roberto quando estão falando de De Niro. Isso me deixa louco. Não o chamem assim. Sabe?

Então você o chama de Robert?

Bom, eu não o chamo. Mas, se estivesse aludindo a ele, sim, eu diria – não sei o que eu diria. Na verdade, nunca pensei sobre isso.

E se Robert de Niro gostar de ser chamado de Bob?

Bom, está certo. É ele quem sabe. Você tem toda razão. E se eu tipo o mandasse sentar e dissesse: "Escute aqui, cara, acho que você não devia deixar as pessoas chamá-lo de Bob. Não sei se você fica à vontade com isso, mas isso me incomoda, então faça o favor de acabar com isso."

Você deveria realmente fazer isso. Robert é um nome mais sofisticado que Bob. Quem quer ser um Bob? [Nota do editor: sem querer ofender todos os Bobs gente boa que existem aí fora.]

Mas você tem razão. Talvez ele goste.

A impressão que tenho é que as pessoas que chamam você de Joaq são as que realmente conhecem você. As pessoas do seu círculo íntimo têm direito de dizer Joaq. O resto de nós falamos Joaquin simplesmente.

Tá bom, tá bom, não tem importância. Como você quiser.

Alguém ainda chama você de Leaf? [Nota do editor: quando Joaquin Phoenix era ator teen, usou Leaf (Folha) como seu primeiro nome porque os nomes da maioria de seus irmãos eram inspirados na natureza: River (Rio), Rain (Chuva), Summer (Verão) e Liberty (Liberdade)].

Não, não. Isso faz muito tempo.

E se o fizessem, vocês os corrigiria na hora, imagino.

É que esse simplesmente não é meu nome. Você sabe que eu nasci Joaquin, certo?

Estou sabendo.

Então é isso, Leaf não é meu nome há muito tempo. É engraçado porque eu estava conversando com Gus sobre isso há pouco tempo. Me lembro que quando fiz "Um Sonho Sem Limites", antes disso meus créditos de ator eram como Leaf, e Gus perguntou: "Você está mudando seu nome oficialmente?" Isso nem tinha passado pela minha cabeça, porque eu estava apenas revertendo para meu nome original. Mas, para outras pessoas, parecia que eu tinha mudado de nome. Só que meu nome tinha mudado para mim muito tempo antes disso.

Então nunca houve um momento mais tarde em que você pensou "cara, eu devia ter mantido Leaf como meu nome profissional"?

Não pensei nisso. Por que, essa é sua sugestão?

Não, eu gosto de Joaquin. Leaf é um bom nome para criar assunto, tipo "Como foi que você e/ou seus pais pensaram no nome Leaf?" Mas eu gosto realmente do nome Joaquin. É um nome singular – não que Leaf também não seja.

Não na América Central.

Ok, isso faz sentido. Conversei antes com Lynne Ramsay, e ela me disse que quando vocês dois discutiram o filme inicialmente você só conseguiu entender uns 50% do que ela estava dizendo e não teve bem certeza o que estava concordando em fazer.

É divertido pensar que foi assim. Mas é verdade que, na primeira vez que falei com ela ao telefone, foi muito difícil entender tudo o que ela disse.

Tendo acabado de falar com ela ao telefone, entendo o que você quer dizer.

Yeah. Então foi um pouco difícil. Mas, quando você está com ela cara a cara, você a entende.

Imagino que você pelo menos sabia que potencialmente seria chamado para fazer este filme?

Sim, eu li o roteiro antes de conversar com ela. Foi isso o que aconteceu.

Sei que você não assistiu ao filme e que não costuma assistir aos seus próprios materiais. Mesmo tendo vivido e respirado este personagem, é difícil divulgar o filme junto à imprensa porque você não sabe realmente como ficou o produto acabado?

Não sei, às vezes a gente começa a falar de certos detalhes, e eu explico o processo que levou a uma tomada ou uma cena particular, e o jornalista fala "o que é isso?". E eu: "A cena no filme". Então às vezes eu não sei qual tomada a diretora usou. Hoje estávamos falando de uma cena que, para mim, revelou muito sobre o personagem e seu relacionamento com [um martelo que é essencial para a trama]. Não sabia se foi essa tomada que Lynne usou ou se ela usou outra, mas no fim, foi aquela tomada mesmo. Acho que faz sentido, foi a tomada que fez mais sentido para mim, aquela que revelou mais sobre o personagem, que foi utilizada. Mas eu não sabia com certeza.

O modo como esse personagem se movimenta pela rua parece quase uma dança com a câmera, quase como se você estivesse entrando e saindo de carros e prédios em estilo de improviso. A câmera muitas vezes é colocada em lugares não convencionais, e você fica tentando decifrar o território que está percorrendo nas ruas de Nova York.

Sim, esse é um reflexo da experiência. Acho que em momento algum chegamos a repetir qualquer tomada do mesmo jeito. Pode ser que sim, e pode haver algumas situações em que fica claro que não há outra opção senão atravessar a rua aqui neste momento, mas nossa abordagem a cada momento foi não tomar decisões concretas de antemão. Falávamos de diferentes opções, diferentes possibilidades, mas era apenas quando estávamos naquele espaço – tomávamos as decisões ali, no momento, e às vezes há coisas às quais eu estava reagindo no momento. Havia momentos em que os outros atores não sabiam o que ia acontecer, porque nem mesmo nós sabíamos. E acho que gosto desse modo de trabalhar de modo geral, mas acho que foi realmente apropriado para o personagem e sua experiência. Talvez tenha sido por isso que funcionou bem para nós.

Onde você está agora? Estou ouvindo uns gritos ao fundo.

Verdade, desculpe. Eu estava dando uma entrevista no Chateau Marmont, há uma piscina e há crianças. Isso está distraindo você demais?

Não tem problema, eu só queria ter certeza que você está em um lugar seguro. Achei que podia haver gatos uivando.

Obrigado, estou em segurança.

Que bom. Você sabe o quanto a internet ama a foto de Rooney Mara fumando um cigarro no set de "Maria Madalena" enquanto você está pregado à cruz?

Não estava sabendo disso.

Você viu a foto?

Acho que vi muito tempo atrás. Acho que Garth Davis (o diretor) mandou a foto para ela. Acho.

É uma foto incrível. Entendo que vocês estavam em um intervalo entre tomadas, então tudo isso deve ser muito corriqueiro para vocês. Mas dá para você narrar a foto para mim? A imagem de você como Jesus na cruz e de ela, como Maria Madalena, casualmente fumando um cigarro no meio do dia é incrível.

É um sacrilégio?

Talvez, da melhor maneira possível.

[Ri] Ahn, bem, não sei. Honestamente, não tenho certeza, mas imagino que depois que eu era colocado sobre a cruz, eu ficava lá. Então imagino que – não sei. Honestamente, não sei o que aconteceu, então não posso lhe dizer.

Os direitos de distribuição do filme estão com a Weinstein Co., que declarou falência. Isso é frustrante?

É frustrante sim, claro. Não sei quando o filme vai sair. Não sei se já teria saído agora, não tenho certeza. Geralmente não me envolvo nessa parte de quando e como um filme vai ser lançado. Geralmente não presto atenção a isso. Pensei que isso seria resolvido. Sempre soubemos que o filme sairia na Europa primeiro, então não sei quando vai ser lançado aqui.

Mande eles se apressarem. Quero ver o filme. Quero lhe fazer uma pergunta sobre algo que você disse um ano atrás. Sei que em praticamente todas suas entrevistas estão lhe perguntando se você vai representar o Coringa. Não vou fazer exatamente essa pergunta, mas quero chamar a atenção para algo que você falou para Bret Easton Ellis no New York Times. Você disse: "Uma coisa que vai exigir seis meses de meu tempo? Não sei." Antes mesmo de fazer o filme, você já tem que cumprir um ciclo cansativo de contatos com a imprensa. Você está revendo sua disposição de assumir esse tipo de compromisso de longo prazo?

Na realidade não sei por que eu disse isso a ele, porque não penso em filmes em termos tipo o tempo que vou ter que dedicar a ele. Acho que eu estava tentando ser espirituoso ou algo assim. Quando você sente vontade de participar de um filme, eu me disponho a fazer o que for preciso, não importam as condições, sob as circunstâncias que forem, onde quer que estejamos filmando, não importa quantas horas por dia. Eu não tomo decisões com base em o que vai ser mais cômodo. "Qual vai ser a época do ano? Vou estar usando roupas confortáveis?" Essas não são as considerações que entram em jogo, geralmente. Não sei quais são. Recentemente fiz um filme que nos levou quatro meses e outro que levou menos de cinco semanas. E os dois foram realizadores e difíceis, cada um à sua maneira. Acho que quando você se sente atraído por uma coisa, as circunstâncias não vêm ao caso.

Darren Aronofsky quis que você fizesse Batman certa vez.

Desculpe, não entendi.

Darren Aronofsky quis que você representasse Batman numa adaptação que ele descreveu como "um misto de Travis Bickle e 'Operação França'", algo que na realidade soa como uma descrição apta de You Were Never Really Here. Isso foi antes da mania de super-heróis que tomou conta de nós. Você e Darren conversaram sobre esse projeto?

Acho que é a primeira vez que ouço falar disso.

Verdade? Isso foi antes dos filmes Batman dirigidos por Christopher Nolan. O que Aronofsky conta é que ele propôs para a Warner Bros. criar um Batman anticonvencional, menos heróico. Ele diz que queria você para o papel, mas não sei se as negociações avançaram o suficiente para você entrar nas discussões. Claro que o estúdio rejeitou a ideia porque era dark demais.

[Ri] Ok, não estou sabendo disso, mas não houve uma discussão real, com certeza. Acho que se ele tivesse mencionado isso para mim um dia eu teria lembrado. Mas não me recordo de isso ter acontecido. Mas soa interessante.

É, eu adoraria ver essa versão do Batman. Se isso tivesse se concretizado no final dos anos 1990, e digamos que você ainda fizesse Gladiador em 2000, esses dois filmes juntos o teriam elevado para um certo status de celebridade que você aparentemente nunca procurou alcançar.

Então graças a Deus que não aconteceu.

Você vê "Gladiador" como um grande momento de virada, no que diz respeito à sua fama?

Foi, sim, com certeza. Foi o filme de maior sucesso no qual eu tinha trabalhado até então, talvez até hoje. [Nota do editor: "Sinais" foi o maior sucesso comercial de Phoenix.] E transformou minha carreira, mas também, como ator trabalhando com Ridley Scott, aprendi muito ao fazer esse filme. Foi um filme importante para mim como ator. Na realidade é só disso que eu entendo. Entendo que foi bem-sucedido e que as pessoas ainda falam desse filme. Para mim, como ator, "Gladiador" teve um impacto.

Você e Mark Walhberg chegaram a conversar sobre como teria sido se vocês dois tivessem sido os protagonistas de O Segredo de Brokeback Mountain?

Não.

Considerando que você não sabe da história do Batman, você tem consciência de que em algum momento foi aventada sua participação em Brokeback Mountain?

Não foi.

A internet discordaria.

É mesmo? Não, nunca fui cogitado para esse papel e não estava sabendo que Mark chegou a ser cogitado. Tive uma reunião para falar desse filme – tive uma reunião com Ang Lee, mas não ganhei o trabalho.

OK, te peguei. Você chegou a ser cogitado em algum momento durante o processo de escolha do elenco.

Bom, acho que não houve um ator de minha geração que estivesse em atividade e que não quisesse fazer esse filme. Eu quis trabalhar nesse filme, sim, mas não deu certo.

Então você realmente não sabe qual é o Dia dos Namorados? O que Rooney pensa disso?

Você teria que perguntar a ela. Mas acho que eu só estava querendo brincar um pouco com Will Ferrell. [Nota do editor: um representante de Rooney Mara não respondeu ao nosso pedido de comentários.]

Você é fã de Garry Marshall?

Claro que sim! Ele fez aqueles filmes, não fez?

Sim, Idas e Vindas do Amor, Noite de Ano Novo, Mother's Day.

Certo, certo. Isto daqui está parecendo Teen Beat. Parece que estamos em 1985 e a Teen Beat está me perguntando sobre o Dia dos Namorados.[ri].

Você tem boas recordações dos tempos de ser entrevistado pela Teen Beat?

Acho que nunca fui – eu me lembro de ter conhecimento da Teen Beat, mas acho que nunca fui entrevistado pela revista. Mas por algum motivo me lembro de C. Thomas Howell todo produzido, de chapéu ou alguma coisa assim.

Isso é incrível. Vou usar isso como distintivo de honra.

Yeah.

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