ENTRETENIMENTO
11/04/2018 16:25 -03 | Atualizado 16/04/2018 11:35 -03

‘Aos Teus Olhos’: Filme de Carolina Jabor examina o tribunal das redes sociais

Conversamos com a diretora e Daniel de Oliveira, o protagonista, sobre a produção — e por que um boato de Facebook pode destruir a vida de alguém.

Divulgação/Pagu Pictures

Muito antes de ter uma conta no Facebook tornar-se quase um sinônimo de ser alguém no mundo, os proprietários da Escola Base foram acusados de abusar sexualmente de crianças que lá estudavam. No entanto, eles eram inocentes.

Hoje, mais de duas décadas depois, a barbeiragem é frequentemente atribuída à imprecisão da cobertura da imprensa, o que teria colaborado com a sede de justiça de uma sociedade indignada. A autocrítica veio tarde demais: os donos da escola da capital paulista sequer estão vivos para descrever os efeitos disso tudo na vida deles.

Boatos e suas consequências parecem ter sido potencializados pelas redes sociais e as reações tão apressadas e duras que nelas se manifestam. Injustiças ainda podem ser cometidas, direitos atropelados e, como vemos todo dia, o lado primitivo de muitas pessoas vêm à tona. Este é o tema de Aos Teus Olhos, novo filme de Carolina Jabor.

Baseada na peça O Princípio de Arquimedes (2011), do espanhol Josep Maria Miró, a história centra-se em Rubens, um jovem professor de natação para crianças acusado de beijar um dos alunos.

"Hoje em dia, qualquer coisinha, qualquer deslize, qualquer opinião é mal interpretada", diz Daniel de Oliveira, que dá vida ao personagem, em entrevista ao HuffPost Brasil. "Às vezes você escreve para pessoas da sua intimidade e é lido de outra maneira. A interpretação é de cada um. É complicado."

A fala do ator é particularmente significativa, pois a mãe (Stella Rabello) do personagem supostamente abusado espalha a história no Facebook e no grupo de mensagens dos pais dos alunos; com tom alarmista e acusatório, as postagens iniciam uma avalanche.

A mãe pressiona o ex-esposo e pai do menino (Marco Ricca) a tomar uma atitude junto à diretora da escola (Malu Galli), que por sua vez é pressionada pelos outros pais, pelo professor (Gustavo Falcão) que é - ou aparenta ser - amigo de Rubens, pela polícia e até pela namorada do protagonista (Luisa Arraes, enteada de Jabor na vida real). A personagem de Galli é a única que aparenta buscar alguma lucidez e ponderação antes de tomar qualquer atitude. Não à toa, sua vitalidade é exaurida aos poucos.

Rubens nega ter feito qualquer coisa, mas percebe que seu ponto de vista pouco importa quando alunos não comparecem à aula após a postagem ser feita no Facebook.

Divulgação/Pagu Pictures
Daniel de Oliveira aceitou o papel ao saber que Carolina Jabor seria a diretora. 'Sabia que estava em boas mãos', diz.

Muitas contradições em seu comportamento vêm à tona. Às vezes ele parece ser o dono de uma sexualidade predatória e voraz; às vezes ele parece ser apenas um cara que ama o trabalho que tem; às vezes ele não parece ser nenhum dos dois. Está aí a via encontrada por Carolina Jabor: a das ambiguidades, em uma época em que certezas contundentes estão sob alta demanda no debate público.

"Não sei se é um fenômeno atual, esse da pouca reflexão", comenta o ator. "Você nem lê uma coisa direito e já manda. Tem gente que é assim, vai no impulso, é tudo muito rápido. Eu procuro não opinar a respeito de coisas que não sei, não domino."

"Já tem bastante especialista falando sobre os temas fortes e contundentes da sociedade. Eu prefiro fazer um filme como Aos Teus Olhos, que insere a discussão de maneira abrangente. É um filme que vai ficar vivo."

Neste que é o segundo longa-metragem de ficção de Jabor — o primeiro é Boa Sorte (2014), com Deborah Secco —, a barbárie está sempre ali, à espreita. Homofobia e truculência são algumas das reações apresentadas pelos coadjuvantes.

"São comportamentos e sentimentos que a gente tem e sempre terá, independente das redes sociais, mas elas estimulam os sentimentos mais orgânicos e guturais", defende a diretora.

Aos Teus Olhos tem levantado debates e elogios por onde passa. "Quando mostrei o filme pela primeira vez no último Festival do Rio, as pessoas falaram 'parece que você o filmou na semana passada', porque tinha acabado de acontecer o linchamento daquele artista do MAM", conta.

O drama saiu do evento com os prêmios de Melhor Longa de Ficção (no voto popular), Ator (Daniel de Oliveira, dividido com Murilo Benício, por O Animal Cordial), Ator coadjuvante (Marco Ricca) e Roteiro (Lucas Paraizo).

Em entrevista ao HuffPost, a cineasta explica por que decidiu entrar em um tema delicadíssimo como esse, como ele se reflete na atual onda de intolerância política no Brasil e como ser uma mulher no cinema nacional, um meio dominado por homens. Leia abaixo:

HuffPost: Aos Teus Olhos aborda um tema bastante atual, que ainda está quente. O que motivou você a fazer o filme?

Carolina Jabor: O cinema me interessa quando trata de assuntos que tenham importância atual, estejam em movimento e se modificando. Tratar deles é uma forma de participar um pouco das questões complexas da realidade. É um jeito de eu participar sem levantar bandeiras.

Quando eu mostrei Aos Teus Olhos pela primeira vez no Festival do Rio, as pessoas falaram "nossa, parece que você o filmou na semana passada", porque tinha acabado de acontecer o linchamento daquele artista do MAM. Saí do cinema com uma nova impressão de como mostrar o filme. Foi um retorno que vai além dele, independente de ser bom, legal, bem feito, bonito, se os atores estavam bem. Havia ali outra discussão que estava contextualizada na realidade dos acontecimentos e isso me interessou bastante.

Apedrejamentos existem desde que o mundo é mundo. Você crê que as redes sociais apenas mostram esse aspecto da vida em sociedade ou de alguma maneira o reforça?

Os instintos são milenares. São comportamentos e sentimentos que a gente tem e sempre terá, independente das redes sociais, mas elas estimulam os sentimentos mais orgânicos e guturais. E, se você tem ódio, ao colocá-lo nas redes, ele se alastra. No caso da manipulação, do ódio e dos pontos de vista, elas realmente os aumentam.

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Carolina Jabor: 'A gente enfrenta um Brasil muito machucado. As pessoas estão com muita raiva, estão muito desgostosas'.

Pedofilia é assunto que provoca reações bastante passionais. Mesmo diante disso, precisamos manter a calma e buscar ponderação no debate?

Este é um tema muito delicado, principalmente quando se trata de um filho seu, de uma pessoa próxima sua. O caso da Escola Base é um exemplo: a vida daquelas pessoas foi destruída e só dez anos depois elas foram provadas inocentes, mas a vida delas já tinha acabado, o estrago já estava feito. O impulso é de culpar, porque se trata de um crime terrível. Porém, certas acusações e crimes têm que ser investigados.

Quando espalham a história a respeito do Rubens, ela provoca diversas reações, como a homofobia. No seu filme, é como se a barbárie e a intolerância estivessem sempre à espreita, se a linha que nos separa disso tudo fosse bastante tênue. Isso também se aplica à sua visão do mundo real?

Sim. A gente enfrenta um Brasil muito machucado. As pessoas estão com muita raiva, não conseguem viver, estão muito desgostosas, a vida está muito complicada para todo mundo. Isso mexe com o ser humano de uma forma que ele fica muito amargo. O linchamento virtual é muito grave. Tem o físico, como o daquele senhor que ajudou travestis no metrô de São Paulo e foi espancado até a morte. A situação é bastante desesperadora. Há também um movimento muito conservador que pede que a gente levante bandeiras com mais força do que eles levantam as deles. No auge do século 21, ter que lutar contra homofobia, racismo, transfobia... Não tem jeito, a gente tem que rebater. Eu fico perplexa.

Fazer Aos Teus Olhos te trouxe algum novo ponto de vista a respeito do tema?

Sim. O filme está aí para isso também. Espero que com ele a gente consiga trazer a reflexão, porque sempre tem um novo caso de linchamento virtual, pessoas têm sido atacadas com muita violência. Como disse o [Marco] Ricca, não tem volta: as redes estão aí e não vão embora, mas se modificar. O Facebook recentemente levou um tranco grande e vai ter que se organizar melhor. A gente tem que entender que redes sociais não podem impulsionar sentimentos tão selvagens, brutos.

Divulgação/Pagu Pictures

Personagens de Daniel de Oliveira e Marco Ricca disputam narrativas em Aos Teus Olhos; Malu Galli busca ouvir todos os lados

Um recente levantamento da Ancine mostra que o cinema brasileiro é bastante masculino e branco. Dos filmes de 2016, por exemplo, 75% foram dirigidos por homens brancos. O que você pensa a respeito disso, levando em conta seus 20 anos de experiência no meio?

São números tristes, porque a quantidade de mulher que há no mundo e trabalhando no cinema é muito grande, mas sempre nos cargos de backstage, em grandes produtoras. Cinema é feito pelas mulheres, as produtoras são muito importantes no mercado. Em cargos de criação, como direção e direção de fotografia, elas estão em um número muito mais baixo que o de homens. E quando entra a questão de raça, aí cai para zero. Outro dia eu fiz uma palestra sobre mulheres na direção e estive com a Juliana Vicente, que é uma diretora negra paulista, e a gente falou sobre esses números, as mulheres, o mercado publicitário e tudo. Eu falei, "Ju, só tem você". Quer dizer, tem outras, mas eu conto com os dedos de uma mão. A desigualdade racial é ainda mais grave que a de gênero, porque as mulheres têm se destacado, se empoderado, mas a racial está muito atrás. Precisamos de equilíbrio.

Você disse recentemente que está mais "relax" sobre ser mencionada frequentemente como "a filha de Arnaldo Jabor" e não como uma cineasta e ponto. Como você lidou com isso antes de ficar "relax"?

Acho chato que eu faça cinema há 20 anos e ainda se refiram a mim como "a filha do Arnaldo Jabor". É machista. Outra coisa: durante minha formação de trabalho no cinema e tudo mais, não me preocupava muito com isso. Nunca usei meu pai para conseguir coisas. Claro que o nome dele chama atenção, talvez abra portas, mas nunca pedi "pai, me coloca naquele negócio, me dá uma força naquele lugar". Ao contrário: quando eu fui fazer cinema, não estava tão próxima dele e só voltei a estar quando dentro do mercado, trabalhando com a Conspiração. Eu levava isso de maneira muito natural. O que me incomoda é ter uma carreira grande, definida, ser adulta — e há anos sou adulta! [risos] — e ser chamada de "a filha do Jabor".

Você diz ter se descoberto como feminista recentemente. Isso te fez mudar de ponto de vista ou sentimentos a respeito da sua carreira? E a respeito de você enquanto mãe, esposa, filha, uma cidadã que vota e paga contas?

Sim. Total. Sempre fui feminista, mas não tinha noção clara e ainda não tenho. Nem me considero uma ativista. Quando digo que sou feminista, é porque faço cinema há 20 anos em um mercado extremamente masculino. Então, o fato de eu estar aqui, fazendo cinema, já é uma forma de feminismo, não é? De um ano e meio para cá, esse assunto tomou uma grande importância na vida da gente em geral, do mundo em geral. Eu, particularmente, fui me contaminando, aprendendo com a filha do meu marido, que é mais jovem; com a minha irmã, que também é mais jovem; com a Antonia Pellegrino, que é uma grande amiga minha e muito ativista; com a Isabel Nascimento Silva, que fez o [documentário] Primavera das Mulheres com a Antonia. Elas foram me informando, chegando perto. A Conspiração [produtora de Jabor], hoje, tem uma plataforma chamada Hysteria, que serve para mostrar a produção das mulheres na criação, escrita, audiovisual ou música. Ter criado isso é muito importante para a Conspiração.

Você está trabalhando em algum novo projeto? Pode compartilhar alguma coisa?

Eu criei a série Desnude com a Anne Pinheiro Guimarães e dirigi alguns episódios, a maioria junto com a Anne. Foi ao ar algumas semanas atrás pelo GNT e vai reprisar. É uma série erótica com nove episódios de ficção e um documentário que discutem a sexualidade feminina e o prazer feminino sob ótica da mulher. Tem um novo olhar sobre um assunto tratado de forma tão masculina, falocêntrica. É um projeto muito bacana, a maioria da equipe é composta por mulheres. Foi uma experiência extraordinária.

Aos Teus Olhos estreia nesta quinta-feira (12). Tem 90 minutos de duração, classificação indicativa 16 anos e distribuição de Pagu Pictures. Veja o trailer abaixo:

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