10/04/2018 00:00 -03 | Atualizado 10/04/2018 11:09 -03

Miria Alves: A DJ que envolve com sua música e busca inspirar outras minas

A DJ toca na noite paulistana e criou um curso de mixagem só para mulheres: “A ideia é abrir os ouvidos delas", disse, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Miria Alves é a 34ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Miria sabe que o som sempre se propaga. E o alcance não está totalmente no seu controle – só o volume do toca disco. Logo antes de começar a conversa com a reportagem do HuffPost estranha o silêncio na casa. Sugere colocar uma música. O eco é meio esquisito mesmo, ainda mais para quem vive de música como ela. Um som de fundo torna tudo mais acolhedor. E ela sabe. Miria Alves, 27 anos, é DJ e se dedica exatamente a isso: aproximar pela música. "Quero tocar e envolver as pessoas porque o DJ tem essa missão mesmo de fazer o ambiente ser acolhedor, trazer as pessoas para perto, fazer elas se sentirem bem."

Toda noite quando vai tocar ainda sente um nervosinho. Sabe que atingir o público exige, além de técnica, feeling, sentimento. E não perdeu aquele flerte com os aparelhos, já tão habituais para ela. "O toca disco é muito íntimo... eu e ele somos uma coisa só". E assim ela faz sua dança e ocupa a pista, sem sair do lugar. O que vai é a música.

Quero tocar e envolver as pessoas porque o DJ tem essa missão mesmo de fazer o ambiente ser acolhedor, trazer as pessoas para perto, fazer elas se sentirem bem.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A DJ toca na noite paulistana e criou projeto para que mulheres aprendam a mixar e tenham uma relação diferente com a música.

E é curioso, porque ela chegou nesse lugar justamente por causa de outra parada, que dava muito mais movimento físico. Foi pelo skate que ela se aproximou desse universo. "Eu tive uma criação gospel, então minha família sempre teve contato com música e depois eu fui para o skate e fui para o toca disco por causa disso. Quando fui para o skate conheci o mundo mais profundo do hip hop, do black music. Até os 16 anos andei e sofri um acidente, fraturei meu fêmur e fiquei muito tempo parada, não podia andar então ia só curtir os eventos e comecei a me interessar pela discotecagem".

Foi atrás de entender melhor aquele movimento e passou a pesquisar, fazer oficinas, workshops. Entrou em um curso de DJ e quando viu já estava tocando em festas, recebendo convites para participar de eventos. Viu que podia realmente fazer daquilo uma profissão. "Fui fazer um som aqui, outro ali e comecei a profissionalizar mesmo. Fazia shows, festivais e a partir disso comecei a tocar, ganhar dinheiro com isso". Era prazer. Mas era trabalho sério. "Vou completar nove anos tocando e vivendo disso, principalmente nesses últimos três anos. Estou nesse caminho, vivendo disso, tocando projetos, tocando na noite de forma totalmente profissional. Eu tive essa sorte de encontrar pessoas que reconheceram esse talento em mim e me deram essa oportunidade".

As meninas viviam me pedindo e eu sentia essa necessidade de ver outras mulheres tocando.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Do skate para a mixagem: Miria entrou em contato com black music, hip hop e outros estilos porque era uma apaixonada pelo esporte.

Hoje, Miria tenta, de alguma forma, retribuir essa "sorte". Criou no começo de 2017 o projeto TPM (Todas Podem Mixar) para ensinar meninas e mulheres como ela técnicas e falar da coisa de forma profissional. "As meninas viviam me pedindo e eu sentia essa necessidade de ver outras mulheres tocando. Eu chegava a dar oficina na escola onde me formei, mas de cada dez inscritos, uma era menina e eu tinha esse objetivo de retornar a oportunidade de viver disso ensinando outras mulheres. Mas as meninas não vinham, era só homem".

Foi quando nasceu esse projeto voltado para as meninas mesmo. Não à toa o nome tão feminino, mas com significado novo. Deu certo. "As meninas abraçaram totalmente, fomos abrindo outras turmas e elas começaram a vir. Cobramos um valor simbólico e a ideia não e só ensinar a técnica da mixagem, mas também falar que precisam estudar, entender como funciona e passar para elas tudo que ninguém me passou. Elas aprendem a ouvir música de outra forma e não só colocar no rádio e ouvir, elas entendem o processo. A ideia é abrir os ouvidos delas."

A dificuldade é você chegar a um ambiente e ser recebida com a mesma receptividade com que eles recebem um homem. Eles nunca chegam a um ambiente só com mulher e perguntam quem é a DJ. É sempre cadê o DJ?

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O projeto, pioneiro na área, agora precisa de patrocínio para crescer e levar esse tipo de conhecimento e noção profissional a mais mulheres.

E o projeto segue neste ano. Miria está atrás de apoio e patrocínio e já conseguiu mostrar que há demanda para esse tipo de formação. Em 12 edições, 150 meninas se formaram. Apesar de saber que o ambiente de festas e de DJs ainda é muito masculino, ela sabe que as coisas estão mudando. "Conseguir fazer [nosso trabalho] com mais autonomia ainda é difícil porque eles subestimam muita sua capacidade de fazer as coisas. Até hoje ainda rola isso. A dificuldade é você chegar a um ambiente e ser recebida com a mesma receptividade com que eles recebem um homem. Eles nunca chegam a um ambiente só com mulher e perguntam quem é a DJ. É sempre cadê o DJ?"

O TPM me trouxe muito isso. A gente consegue viver em um ambiente sem disputa e sem comparação e não fomos educadas para isso.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Vou completar nove anos tocando e vivendo disso, principalmente nesses últimos três anos."

A DJ está aqui. Miria e muitas outras que estão chegando, de ouvidos bem abertos, tenha certeza. E o mais importante é que estão juntas. "O TPM me trouxe muito isso. A gente consegue viver em um ambiente sem disputa e sem comparação e não fomos educadas para isso. Hoje vejo outro caminho, com referência. A referência te inspira, a comparação não, ela trás uma ideia de que você é ruim".

Miria sabe que o caminho não é esse e não vai deixar o disco parar não.

Porque para ela, todas podem.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.