COMPORTAMENTO
09/04/2018 09:42 -03 | Atualizado 09/04/2018 10:39 -03

Os retratos que tornam visíveis os moradores de rua que você prefere não enxergar

Os perfis ilustrados mostrados nesta série, de homens e mulheres que foram moradores de rua em Nova York, são belíssimos.

Alguns dos retratos que fazem parte da série Face New York, que utiliza materiais diversos.
Benat Iglesias Lopez/Harry Hancock/Allie Wilkinson
Alguns dos retratos que fazem parte da série Face New York, que utiliza materiais diversos.

Geralmente a artista plástica Allie Wilkinson, do Brooklyn, em Nova York, age como qualquer outra nova-iorquina no metrô: atenta para seu telefone ou um livro, faz questão de evitar qualquer contato ou conversa com outras pessoas, se possível.

Mas um dia em 2015 um morador de rua subiu no trem em que Wilkinson estava e começou a contar aos presentes uma história sobre sua vida.

"Naquele dia, uma vez na vida, eu não estava com a atenção fixa no telefone, então prestei atenção a ele", ela contou ao HuffPost. "Olhando à minha volta no vagão, percebi que ninguém mais estava olhando para o homem."

Wilkinson contou que pensou: "Não sou política nem assistente social, mas sou artista. Como posso usar minha plataforma para ajudar pessoas que tão frequentemente são ignoradas a serem vistas e ouvidas?"

Essa perguntou a levou à instituição The Bowery Mission (missão cristã e abrigo para moradores de rua), onde, com a bênção da direção, ela propôs que artistas plásticos pintassem ou desenhassem retratos dos homens e mulheres sem-teto que passaram pelo abrigo.

"Acabei compartilhando minha ideia com uma sala cheia de pessoas em situação de rua, que tinham vindo apenas para fazer uma refeição quente", ela contou. "Fiquei surpresa e emocionada com a reação. Foram muitas pessoas, muitas mesmo, que queriam compartilhar sua história."

Photo by Brandon Roots
 Milo and artist Pairoj Pichetmetakul put the finishing touches on Milo's portrait.

Desde que o projeto Face New York foi inaugurado, 20 artistas de todo o mundo já completaram 30 retratos. Nas aberturas das mostras – já houve algumas desde 2015 – as pessoas retratadas geralmente se espantam com os trabalhos.

"Me lembro de um homem, Milo, dizendo que nunca imaginou que um retrato dele seria pintado, porque 'retratos são para gente importante''', contou Wilkinson. "Isso me levou a refletir: quem estamos registrando na memória pública? Quem estamos vendo em museus e galerias de arte? E quem estamos esquecendo ou ignorando?"

O projeto dela é especialmente importante devido ao aumento da população de rua nos Estados Unidos. Essa população cresceu em 2017 pela primeira vez desde 2010, em grande medida devido ao aumento do número de sem-teto na costa oeste, em Los Angeles e no Vale do Silício.

Em qualquer noite de 2017, quase 554 mil pessoas estavam em situação de rua, segundo relatório do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos EUA.

O projeto "Face New York" leva o espectador a encarar o olhar de algumas dessas pessoas, proporcionando aos homens e mulheres em situação de rua uma oportunidade muito necessária de controlar a narrativa sobre suas vidas.

"Geralmente nos é passada uma narrativa muito limitada para explicar como as pessoas acabam na rua, e isso nos leva a ignorar ou desumanizar as pessoas", disse Wilkinson. "E nos absolve de qualquer responsabilidade por esse problema. Espero que este projeto mostre às pessoas que somos todos humanos."

Desça com o cursor para ler alguns dos depoimentos e vá ao The Bowery Project para fazer uma doação que vai ajudar a pagar por refeições, abrigo, assistência médica e programas de transformação de vida para pessoas sem-teto.

Precious, 2018

Harry Hancock

"Quando você é morador de rua, muita gente despreza você. Não sei se eu sou a cara da situação de rua, mas sou uma das caras. Minha educação não me salvou disso. meus negócios não me salvaram. Meu vício me fez afundar cada vez mais. Então eu sou uma das caras da situação de rua, e isso é uma coisa que pode acontecer com qualquer um. Se você ler 'The New York Times', saberá que apenas um ou dois salários mensais separam as pessoas disso. Eu sou uma pessoa de verdade com quem isso aconteceu. Não tenho vergonha disso. Sou Precious (preciosa), é isso que sou. E vou me reerguer outra vez, como a fênix, como sempre faço. Não quero que esqueçam que sou humana e que há algo de maravilhoso em ser lindamente humana. Tem gente que vive em apartamentos de cobertura e não faz ideia de quem são seus amigos. Pessoas que estão espiritualmente sem-teto. Eu não sou espiritualmente sem-teto. Eu sei quem sou. E sou linda." -- Precious, 2017

Meghan, 2018

Allie Wilkinson

"Fui moradora de rua na infância por causa da dependência química de minha mãe. Depois, mais velha, fui morar com meus avós e meu pai. Quando eu estava no colégio não consegui mais morar com eles, porque eram católicos irlandeses super rígidos. Basicamente, eles me disseram que eu não podia mais voltar. Então acabei morando com minhas amigas, com minha professora de inglês do colégio. Então cheguei à faculdade e tive minha primeira namorada. Uma coisa que estou trabalhando é não deixar que meus relacionamentos sejam meu lar. Porque você acaba construindo seu lar em outras coisas e outras pessoas, e isso é realmente perigoso. Quando você cresce sem ter sua casa, você se aferra às pessoas. Hoje vivo no meu apartamento no Brooklyn há dois anos inteiros – é o maior tempo que já morei em qualquer lugar na vida. É emocionante, mas acho que nunca vou me livrar dessa sensação de impermanência. Hoje, como adulta, olhando para o passado e para aquelas experiências, penso em como seria fácil recair naquela vida. Se não fosse pelo programa de bolsa de estudos que me levou à New York University, não sei como eu teria saído daquela vida." -- Meghan, 2018

Milo, 2015

Pairoj Pichetmetakul

"Quando eu era garoto, ouvia os carros de bombeiro passando e dizia 'quero ser bombeiro quando eu crescer'. Hoje tento entender o que foi feito daqueles sonhos. Por que perdemos o desejo de ser alguém? O que aconteceu? Contar minha história é uma coisa que me ajuda, porque minha história é como um fardo que carrego, e esta é uma oportunidade de me livrar dele. Com 11 anos eu saí de casa e fui morar na rua. As pessoas da rua viraram meus pais. Viraram meus ídolos, e eu tentava seguir o exemplo delas. Elas me ofereceram segurança, coisa que eu nunca antes tinha tido. Quando eu era criança eu ainda tinha aquele sonho de ser bombeiro, de vestir um uniforme. Mas esse sonho me foi tirado porque tive que crescer muito rápido. Tive que virar responsável por mim mesmo ainda garoto. Não pude ser criança. Nunca tive uma festa de aniversário na vida." -- Milo, 2015

Leslie, 2018

Satoshi Okada

"Não julgue um livro pela capa, porque você nunca sabe o que a pessoa já passou. Antes de ser moradora de rua, eu trabalhava para a promotoria pública. Tive bons empregos. Comecei a trabalhar aos 12 anos de idade. Mas as drogas... conheci um sujeito cheio de dinheiro mal ganho, não precisei mais trabalhar, ganhava tudo de mão beijada. Então fui exposta à vida das drogas e me envolvi nessa vida. O crack é tão forte – você viaja daquele jeito uma vez e nunca mais. Então você fica o tempo todo correndo atrás, tentando viver aquilo de novo. Foi duro morar na rua, porque eu nunca sabia com quem ia esbarrar. Durante 11 anos eu bebi e fumei todos os dias. Pensei que eu ia morrer na rua. Mas Deus disse 'não'. Ele me deu uma segunda chance na vida. Estou limpa há 27 anos. Recuperei meus filhos, fui estudar. Fiz meu primeiro mestrado. Estou fazendo meu segundo mestrado, agora em assistência social. No momento estou trabalhando com homens sem-teto. Tenho uma população de 177 homens e tenho a responsabilidade árdua de garantir que eles tenham um abrigo e sejam tratados com dignidade. De vez em quando preciso me dar um 'cursinho de atualização'. Porque a gente pode ficar indiferente à dor, indiferente ao jeito como algumas pessoas estão vivendo, e quando isso acontece tenho que lembrar a mim mesma, 'Leslie, você já foi moradora de rua também. Se houve esperança para você, há esperança para eles também.'" -- Leslie, 2018

Anthony, 2015

Shiho Sato

"Só estou tentando me reerguer. Tenho uma família lá na minha cidade ... que está me esperando. Este programa vai me levar à escola, me dar uma formação. Não tenho o diploma do ensino fundamental. Essas são algumas das coisas que estou tentando realizar. Só quero me colocar em pé de novo, voltar para casa e cuidar de meus filhos." -- Anthony, 2015

Declan, 2015

Benat Iglesias Lopez

"Estou recomeçando minha vida do zero. Eu fazia parte de uma gangue. Quando minha sobrinha nasceu, tentei me separar da gangue. Não quero que minha sobrinha veja aquele estilo de vida. Éla é minha motivação, foi por causa dela que voltei para este programa. Preciso me reerguer e ser irmão, filho e tio. Todos eles sabem que eu posso ser isso – posso ser um grande homem --, mas lá atrás, naquela época, eu não enxergava isso. Quero virar orientador de jovens. Quero captar a atenção dos irmãos mais jovens antes de eles sequer pensarem em ir para aquela vida das gangues." -- Declan, 2015

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