09/04/2018 00:00 -03 | Atualizado 09/04/2018 14:30 -03

Paloma Franca Amorim: A escritora que toca em feridas para preservar a memória

"Vejo avanço, mas tem ‘senhôzinho’ e coroneis que ficam demarcando até onde a gente pode ir, seja no campo da literatura, da cultura, da política", disse, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Paloma Franca Amorim é a 33ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

É com carinho que ela lembra de um acontecimento que mudou seu mundo. Era criança e de repente começou a decifrar Belém, sua cidade natal, de outra forma. Ela lia a cidade. Um caminho sem volta. Bater o olho, juntar as letras e ler, como num truque de mágica eterno, porque nunca mais é possível esquecer esse aprendizado. Ao descobrir as palavras, Paloma Franca Amorim, 31 anos, estava, na verdade, começando uma jornada. Formada em artes cênicas, ela se define primeiro como escritora. Porque é em meio às palavras que se encontra de forma mais completa. "É da minha origem prosadora. O paraense é muito prosador, a gente conta muita história".

Na sua infância, quem contava muita história era sua mãe e os vizinhos. Coisa de grupo que fala sobre o que acontece por ali – e principalmente sobre o que já aconteceu. Ela logo entrou na onda e usava sua oratória para fazer a irmã dormir enquanto fazia cafuné. Uma memória boa que ela tem até hoje.

Eu não escrevo para estar no lugar de fala, quero tentar romper com essa ideia. A autoidentificação é muito importante, mas o mercado esmaga a gente ali.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Memória. Talvez seja esse o grande poder e a grande arma de Paloma enquanto mulher e escritora.

Atualmente, o trabalho é profissional. Aos 18 anos, Paloma e a irmã se mudaram para São Paulo para acompanhar a mãe que ia fazer mestrado. As duas aproveitaram para fazer faculdade na capital paulista e após a morte da mãe ficaram de vez para construir a vida aqui. Paloma é autora do livro Eu preferia ter perdido um olho, dramaturga, compositora de samba – integra o grupo Sambadas – e dá aula de teatro. Trabalha com um pouco de cada arte. "Gosto de todas as linguagens. A arte coloca uma lente de aumento em condições ou situações sociais que passariam normatizadas. O recurso da linguagem, o recurso da poesia é capaz de dar a ver as contradições, os contrastes. A arte serve para contrastar. Ela ilumina aquilo que não está sendo iluminado e você vê. Minha busca é essa como artista".

Paloma ajuda a iluminar questões relacionadas à mulher amazônica, à mulher negra, à periferia, minorias políticas. "Não é uma coisa que eu penso muito. Eu não escrevo para estar no lugar de fala, quero tentar romper com essa ideia. A autoidentificação é muito importante, mas o mercado esmaga a gente ali. Escrever sobre a minha questão tem o fato de eu ter nascido assim porque o homem branco do sudeste também escreve sobre si, mas não parece".

A arte serve para contrastar. Ela ilumina aquilo que não esta sendo iluminado e você vê. Minha busca é essa como artista.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Paloma é autora do livro "Eu preferia ter perdido um olho" (Alameda Casa Editorial), dramaturga, compositora de samba e dá aula de teatro.

Ela fala de violência, abuso, preconceito. Extermínio dos jovens pobres. Temas atuais. E reais. Mas como tudo que ganha luz, o objetivo é dar foco para esses assuntos. "A ideia é trazer a beleza para lembrar sempre do que valeu e não do que foi interditado. É a beleza para dar suporte e força para a gente continuar. É para fortalecer pela vida e não pela morte".

Sabe que conquistou um espaço hoje e que não é fácil ocupar esse lugar de mulher que escreve, que pode ajudar a formar opinião e que dá mais do que voz – palavra – para gente como ela. "Parece que sempre só tem espaço pra um. E eu sou a Amazônia aqui. E minha briga é essa. Não quero ser a cota da mesa, quero outras aqui. Vejo avanço, mas tem 'senhôzinho' e corneis que ficam demarcando até onde a gente pode ir, seja no campo da literatura, da cultura, da política... e se a gente chegar um pouco além, somos deformadas. Deformam o nosso trabalho, nossa fala, nosso corpo para a gente entender até que lugar a gente pode chegar."

Tem 'senhôzinho' e coroneis que ficam demarcando até onde a gente pode ir, seja no campo da literatura, da cultura, da política e se a gente chegar um pouco além, somos deformadas.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Natural de Belém, no Pará, Paloma tem as próprias armas para construir sua jornada em um universo majoritariamente masculino.

Mas Paloma tem as próprias armas para construir sua jornada. "A literatura escrita é uma ferramenta de exercício de poder." E quer usar isso de uma forma muito mais potente. "O escritor não pode pensar só em quem está lendo a gente, mas tem que pensar em quem não está. Temos que pensar nisso, nos povos que são silenciados e não tem papel e caneta. Tento trazer essa questão, pensar em como trazer essas narrativas para um espaço de respeito."

Um espaço onde essas histórias todas não se percam com o tempo. Escrever realmente pode ser uma forma de fazer isso. Foi o que fez com parte de sua própria história. "Desde criança eu sabia que ia escrever um livro em algum momento e ele tem essa força de ser uma narrativa amazônica bem densa da memória."

É a beleza para dar suporte e força para a gente continuar. É para fortalecer pela vida e não pela morte.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A violência, o abuso, o preconceito, o exetermínio: Paloma coloca o dedo na ferida de temas reais por meio da escrita e da dramaturgia.

Memória. Talvez seja esse o grande poder e a grande arma. É a melhor parte de qualquer história porque é aquilo que a gente realmente lembra. É o que fica. Nem sempre há palavra que defina isso, mas nomear é uma forma de registrar e eternizar. Com memória, o caminho é sem volta.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto:Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição:Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização:RYOT Studio Brasil

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