POLÍTICA
07/04/2018 13:04 -03 | Atualizado 08/04/2018 20:44 -03

Lula decide se entregar à PF: 'Se dependesse da minha vontade, não iria, mas vou'

"Quanto mais dias me deixarem lá, mais Lulas vão nascer nesse País", disse ex-presidente em discurso neste sábado.

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O ex-presidente Lula discursou neste sábado (7) em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Em seu primeiro discurso após ter tido a prisão decretada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que vai se entregar à Polícia Federal para cumprir o mandado de prisão de 12 anos e 1 mês por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá.

Vou enfrentá-los aceitando cumprir o mandado. Quanto mais dias me deixarem lá, mais Lulas vão nascer nesse País.

Em seguida emendou: "Não sou mais um ser humano, sou uma ideia. Vou cumprir o mandado de prisão e vocês terão que se transformar em mim. Vocês vão queimar os pneus que tanto querem, as passeatas e as ocupações".

Ele descartou pedir asilo político. "Vou enfrentá-los olhando olho no olho. Se dependesse da minha vontade, eu não me entregaria, mas eu vou. Vou até a barba deles pra que entendam que não tenho medo, que vou provar a minha inocência".

O prazo para que ele se entregasse voluntariamente se encerrou às 17h de sexta-feira (6), mas a defesa tem negociado com as autoridades novas condições de apresentação. A expectativa é que ele viaje para Curitiba ainda na tarde deste sábado (7).

Discurso emocionado

O discurso, que aconteceu em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, foi acompanhando por aliados políticos e ovacionado por militantes, que deixaram o prédio em lágrimas.

"Eu sou o único a ser processado por um apartamento que não é meu. A imprensa mentiu quando disse que era meu. A Polícia Federal e o Ministério Público mentiram dizendo que era meu. Pensei que o Moro iria resolver o problema, mas ele também mentiu e me condenou a nove anos de cadeia", começou.

"Sou um cidadão indignado e não os perdoo por terem passado à sociedade a ideia de que eu sou um ladrão. Criaram um clima de guerra e sei que nenhum deles dorme com a consciência limpa como eu durmo."

Aos militantes, Lula afirmou que não está acima da Justiça, mas que a Justiça brasileira é fraudulenta.

"Se eu não acreditasse na Justiça, eu teria proposto uma revolução neste País. Mas eu acredito na Justiça justa, que vota um processo com base nos autos, na prova concreta.", disse.

Disse ainda que não poderia permitir que um procurador diga que não tem prova, mas tem convicção de que ele é o líder criminoso do PT. Ao questionar a autenticidade do processo judicial, o ex-presidente criticou juízes que não "vivem a realidade".

"Juiz precisa ter a cabeça fria e mais responsabilidade. O Ministério Público é uma instituição muito forte, mas precisa de mais. Esses meninos fazem curso de Direito, estudam 3 anos para passar em um concurso público porque o pai pode pagar, mas precisam conhecer um pouco da vida, de política e ter responsabilidade", completou.

"Eu não tenho medo deles. Já falei que queria fazer um debate com o Moro sobre a denúncia que ele fez contra mim. Queria que ele me mostrasse alguma prova. Eu já desafiei os juízes do TRF-4 e pedi que eles provem que eu cometi um crime. Tenho a impressão de que crime, pra eles, é ver pobre e preto ascendendo econômica e socialmente."

Stringer . / Reuters
Lula discursou ao lado de políticos, militantes e celebridades em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

O coro que gritava "Não se entrega" se agitou no momento em que o ex-presidente garantiu que a melhor decisão era ir até Curitiba. Na tentativa de conter os ânimos do público, Lula pediu apoio.

"Estamos em um momento delicado. Não é fácil o que sofre minha família, o que sofreu a Marisa e como sofrem meus filhos. Não sou contra a Lava Jato. Também acho que tem que pegar bandido, afinal esse país só prende pobre. Eu quero que prendam rico. Mas a Justiça não pode ser leviana como foi o Ministério Público."

O ex-presidente desceu do carro de som e foi carregado pelos militantes que, nos braços, o levaram até o sindicato.