OPINIÃO
06/04/2018 19:32 -03 | Atualizado 07/04/2018 01:43 -03

6 de abril de 2018. Uma corrida de táxi. E a história do vizinho de Lula

"O chato era quando acontecia alguma coisa que envolvia o Lula. Não dava pra sair do prédio. Toda a fachada ficava coberta de gente gritando o dia inteiro."

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Meu motorista da Uber mora no prédio do Lulaem São Bernardo. Descobri isso na pressa, quando saí de casa a caminho do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde milhares de manifestantes se reuniram em defesa do ex-presidente, que decidiu não se entregar à Polícia Federal em Curitiba na tarde desta sexta-feira (6).

"Sindicato dos Metalúrgicos?", perguntou ele, antes de dar início à viagem. "Sim", respondi. "Olho do furacão, né? É ali perto de onde eu moro. Inclusive, moro no prédio dele lá em São Bernardo", rebateu. "Do Lula?". "Do Lula."

José Carlos* é vizinho do ex-presidente desde antes de ele assumir o governo, em 2002. "Nunca votei nele. Nada contra, mas não era meu preferido entre todos os candidatos que já disputaram com ele. Votei até no Collor. Não me orgulho. Mas faz parte."

O alvoroço era grande sempre que o presidente chegava no edifício. "O elevador ficava interditado por no mínimo 20 minutos. Ninguém subia nem descia com ele. Se ele passasse rapidinho por lá, só pra pegar alguma coisa, não podíamos pegar o elevador até que ele fosse embora. Sempre que ele chegava, eu rezava pra ele demorar, pro elevador voltar a ficar à nossa disposição."

Lula era discreto. Ao porteiro, apenas um bom dia. Aos moradores, nenhuma possibilidade de contato. Quando ele chegava, a garagem ficava lotada de carros, todos de sua equipe de segurança. Não tinha como não saber que ele estava lá, apesar de quase ninguém tê-lo visto usando a faixa presidencial. Mas essa realidade não foi sempre assim, não. José Carlos contou que, antes de assumir o poder, Lula era um vizinho como qualquer outro. Ainda discreto. "Ele recebia visitas quase todas as noites. Eu mesmo já vi o Zé Dirceu por lá antes de toda a confusão do mensalão. Já encontrei o Genuíno também. Ele era um político. Virava e mexia, aquela cobertura ficava abarrotada de engravatados", disse.

A dona Marisa era uma pessoa mais doce, segundo José Carlos. Cumprimentava, sorria, era a vizinha madame que todo apartamento tem, com filhos tão simpáticos quanto, já crescidos e com a vida resolvida. Era uma família normal. Os burburinhos existiam, mas era só mais uma família vivendo sua rotina de prédio. Levando o lixo e chegando em casa.

"O chato era quando acontecia alguma coisa que envolvia o Lula. Não dava pra sair do prédio. Toda a fachada ficava coberta de gente gritando na nossa janela o dia inteiro. Pra sair de carro, então, era um parto. No dia da condução coercitiva, os helicópteros começaram aquela zona às 5h da manhã. A gente presenciava e vivia isso. Não tinha um controle por parte do prédio e do síndico. A polícia entrou, fez a busca e saiu. Umas 8h da manhã, já estávamos livres. Mas aí os manifestantes não iam embora. Não tínhamos sossego".

No prédio, os apartamentos simples de em média 125m², que valem entre R$ 700 e R$ 800 mil, ficavam abaixo das duas coberturas. Uma era a de Lula. A outra, de um major do exército brasileiro. Ironias do destino, segundo José Carlos.

"O major não gostava do Lula, não. Olhava torto pra ele. Quando eu o encontrava, ele insistia em dizer que ficaria muito bravo se precisasse sair e o elevador estivesse interditado por causa do Lula. Sorte que não aconteceu. Ou aconteceu. Não sei". A frase de dúvida do motorista foi interrompida pelo GPS, que gritou: "Você chegou ao seu destino". Buzinas nervosas, pais buscando os filhos na escola e a CET tentando organizar a bagunça na rua que dava acesso ao sindicato. Todos gritavam. E buzinavam. Outros perguntavam se eu sabia chegar ao olho do furacão. Eu sabia. E José Carlos também.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.