05/04/2018 00:03 -03 | Atualizado 05/04/2018 22:39 -03

Rosária Penz Pacheco: Ela largou a carreira de executiva para desenvolver sua própria receita de cerveja

"A história da cerveja surgiu com mulheres. Na idade média, a cerveja era feita em casa por elas, assim como a comida, e servida para a família", conta, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Rosária Penz Pacheco é a 29ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Rosária Penz Pacheco é gaúcha, sommelier, juíza e fabricante de cervejas. Mas ela também é economista, especializada em gestão de sustentabilidade. Em "outra vida", Pacheco foi executiva de contas de grandes empresas em um dos maiores bancos do País.

Em sua "primeira vida", construiu uma carreira no sistema financeiro. Morou por 10 anos na esquina da Oscar Freire com a Rebouças e trabalhava na Avenida Paulista, em São Paulo. Além do MBA, fez um curso de responsabilidade corporativa em Genebra, na Suíça. Viajou o mundo.

Com 40 anos e um dia, ganhei meus primeiros trocados com cerveja. Definitivamente, a vida começou aos 40 pra mim.

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Após trabalhar por 19 anos como executiva de contas em um banco, Rosária resolveu mudar completamente o rumo da carreira.

Mas foi em um passeio por Paris, em 2012, que bateu uma "invejinha" daqueles bistrôs familiares, daquela vida em torno de boa comida e bebida - coisas que ela sempre apreciou enquanto leiga e turista, mas que viraram inspiração para uma executiva de contas estressada, que tinha descoberto recentemente os mal-estares causados pela síndrome do intestino irritável e intolerância à lactose.

Aos 39 anos, Rosária voltou a morar em Porto Alegre. O banco em que trabalhava na época havia sido comprado por outro maior, e a correria atrás de metas fazia cada vez menos sentido. "Eu sabia que precisava mudar de vida, mas não sabia o que fazer", disse, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Era para abrir um 'bistrozinho', mas a cerveja foi tomando conta da minha vida.

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Afinal, quem disse que cerveja não é coisa de mulher?

Incentivada por uma amiga, inscreveu-se em um curso de sommelier de cervejas em Campos do Jordão (SP). Ela passou dois meses. "Das 12 pessoas, eu era a única mulher, e a única que não entendia nada de cerveja", lembra.

No retorno a Porto Alegre, participou da organização de um evento de degustação no dia 7 de setembro de 2013 - um dia depois do seu aniversário. "Com 40 anos e um dia, ganhei meus primeiros trocados com cerveja. Definitivamente, a vida começou aos 40 pra mim".

Hoje, além de sommelier, Rosária é técnica cervejeira pelo Senac, juíza certificada pelo Beer Judge Certification Program (BJCP), dos Estados Unidos, e ficou na quinta colocação no primeiro campeonato de sommeliers de cerveja do Brasil - com apenas seis meses de formação, conseguiu a melhor colocação de uma mulher no evento até hoje. "Era para abrir um bistrozinho, e a cerveja foi tomando conta da minha vida", afirma.

A história da cerveja surgiu com mulheres. Na idade média, a cerveja era feita em casa pelas mulheres, assim como a comida, e servida para a família.

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Rosária não faz grandes planos para o futuro, mas sabe que ele cheira a malte, lúpulo e cevada.

O plano do "bistrozinho" deu lugar a um bar de cervejas, que Rosária abriu há dois anos em sociedade com o irmão, Ruiz, chef de cozinha. Ele faz os hambúrgueres, ela comanda as 18 torneiras - das quais três servem receitas criadas por ela. Mas a pretensão do Penz Bier Das Haus é ser mais do que um bar: um centro de fomento da cultura cervejeira. "Eu tenho necessidade de falar sobre cerveja, educar o consumidor", diz. "Trabalhar com cerveja artesanal é incentivar e produzir local, comprar aqui em vez de algo que vem lá da Bélgica com todas as suas pegadas de carbono", completa.

Rosária também ajudou a criar dois coletivos de mulheres cervejeiras. Um de abrangência nacional e outro, no Rio Grande do Sul, o Ceva das Minas, que se reúne há um ano para buscar "empoderamento pelo conhecimento", como ela define. "A história da cerveja surgiu com mulheres. Na idade média, a cerveja era feita em casa pelas mulheres, assim como a comida, e servida para a família. Até que a homarada viu que era um jeito de ganhar dinheiro e cobrar imposto, e aí já era".

A resposta dos homens é sempre a mesma: 'ela vai conseguir carregar um barril de 50 litros? Um saco de malte?'

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O plano do "bistrozinho" deu lugar a um bar de cervejas, que Rosária abriu há dois anos em sociedade com o irmão, Ruiz, chef de cozinha.

Por meio dos coletivos, Rosária já arranjou emprego para algumas meninas em fábricas de cerveja, apesar dos preconceitos. "A resposta dos homens é sempre a mesma: 'ela vai conseguir carregar um barril de 50 litros? Um saco de malte?' Para isso tem carrinho, oras! Nem os homens carregam barris de 50 litros".

No dia seguinte à demissão do banco, Rosária fez duas coisas, cheias de simbolismo: um piercing no nariz e uma tatuagem no pulso onde se lê Alive (hoje, tem também um braço coberto de folhas verdes de lúpulo, entre outras). "Percebo hoje, olhando para trás, que eu estava vivendo no piloto automático. Hoje penso todos os dias: a vida é uma só, não podemos deixar os dias passarem assim. Eu renasci. Se existe vida passada, aquela foi minha vida anterior. Sou outra pessoa".

Hoje penso todos os dias: a vida é uma só, não podemos deixar os dias passarem assim.

O desapego foi além da carreira no sistema financeiro. Rosária também doou muito do que possuía (a começar pelos terninhos). "Para quê carregar tanto peso? Eu morava em um apartamento de 110 metros quadrados, cheio de armários que estavam cheio de coisas, tinha um carrão. Hoje moro em um JK de 35 metros quadrados, tenho um único armário de cujo espaço uso 20% e ando a pé. E tenho certeza que hoje eu sou 100% a minha essência".

Aos 44 anos, está vivendo de uma maneira que sequer podia imaginar seis anos atrás, quando o sistema digestivo refletia o desconforto com a vida. Rosária não faz grandes planos para o futuro, mas sabe que ele cheira a malte, lúpulo e cevada. Já comprou a sua fábrica de cerveja, mas por enquanto, os equipamentos estão guardados - primeiro, é preciso consolidar o Penz Bier como negócio. E depois, seguir brindando. "Quero ser uma velhinha atrás do balcão".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização:RYOT Studio Brasil

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