05/04/2018 22:49 -03 | Atualizado 06/04/2018 00:56 -03

Bruna Alimonda: Ela não precisa de microfone para amplificar sua voz

A jovem é vocalista, compositora, atriz e faz peças de cerâmica: “A arte consegue tirar você de determinados padrões”, disse, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Bruna Alimonda é a 30ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Ela conta que tem um microfone dentro dela. Dá para perceber. Aprendeu a fazer barulho mesmo. Dentro do tom, claro, como uma cantora cuidadosa. Hoje, canta alto, com vontade, origem na voz – o que alguns chamam de sotaque. Fala o que pensa, escreve o que sente. Faz cerâmica do que acha bonito e do que deve ser exaltado – a vulva, com todas as suas possibilidades. Desenha um pouco. Bruna Alimonda, 22 anos, cria de um tudo. "Oficialmente" é atriz e cantora. Mas na verdade, é simplesmente artista. Típica mesmo. Daquelas jovens bem inquietas que está sempre pensando no próximo trabalho, na próxima invenção, na próxima reflexão que pode trazer com seu trabalho. Uma ansiedade que transborda em arte.

A criação que tem se dedicado mais atualmente é o EP de sua banda, Abacaxepa. O grupo se juntou para um evento da faculdade há quase três anos e depois de uma viagem e apresentações em Recife, cidade natal de Bruna, a coisa ficou séria. "Todo mundo ficou lá em casa e começamos a fazer show. Deu gente em todas as apresentações, a galera curtiu pra caramba e acho que começamos a ser uma banda ali. Antes a gente brincava de se juntar e fazer música. Ali aconteceu alguma coisa que pegou na gente".

Eu me abasteço da música. Eu cantava muito desde cedo e não sabia. Mas eu tinha vergonha de cantar, eu cantava baixinho. Hoje eu canto tão alto que as pessoas dizem pra eu cantar mais baixo. Falam que eu tenho um microfone dentro de mim.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Bruna é uma das vocalistas da banda Abacaxepa, que lançou seu mais novo EP homônimo na semana passada.

Bruna é uma das vocalistas e é compositora. Apesar de ter feito faculdade de teatro, conta que sempre teve uma necessidade de viver de música. "Eu me abasteço da música. Vi vídeos de quando eu era pequena e eu respondia cantando tudo que minha mãe perguntava. Eu cantava muito desde cedo e não sabia. Mas eu tinha vergonha de cantar, eu cantava baixinho e na aula de violão meu professor falava que minha voz era bonita e falava pra eu cantar alto. Hoje eu canto tão alto que as pessoas dizem pra eu cantar mais baixo. Falam que eu tenho um microfone dentro de mim".

Mas, ao mesmo tempo, também se dedica a trabalhos mais silenciosos. Recentemente, lançou uma página na internet para vender suas peças de cerâmica. São cinzeiros e incensários com formato de vagina. "É uma proposta de valorização das vulvas femininas, faço vaginas de todos os tamanhos, formatos. Comecei a fazer, as pessoas começaram a gostar".

Fez a primeira para presentear uma amiga, mas a peça fez sucesso e muita gente começou a pedir. "Eu tinha uma proposta de não vender, não queria que virasse um produto sexual, mas começaram a me pedir muito e resolvi fazer. Acho muito lindo e quero acabar com essa história de que é estranho olhar para uma vulva, de que é nojento. É algo que a natureza deu pra gente que é muito bonita, que tem que ser respeitada, valorizada. É de reprodução, de fertilidade, de prazer, é maravilhosa".

Acho muito lindo e quero acabar com essa história de que é estranho olhar para uma vulva, de que é nojento. É algo que a natureza deu pra gente que é muito bonita, que tem que ser respeitada, valorizada. É de reprodução, de fertilidade, de prazer, é maravilhosa.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Bruna é natural de Recife, mas veio para São Paulo para explorar o que a cidade pode oferecer de melhor quando o assunto é arte.

Com seus trabalhos, Bruna busca isso. Ver e mostrar beleza, tocar alguém com a sua música, mexer com alguma coisa dentro dos outros com as suas criações. "Todo mundo está meio perturbado da cabeça, todo mundo meio sem saber o que fazer, meio em crise. A arte consegue tirar você de determinados padrões". O retorno que tem recebido de suas músicas, por exemplo, tem mostrado que ela está no caminho para isso. "Vejo que toquei alguém, as pessoas me ligam, falam que gostaram da minha música. É muito gratificante. Mais do que receber qualquer coisa, o melhor é dar".

Todo mundo está meio perturbado da cabeça, todo mundo meio sem saber o que fazer, meio em crise. A arte consegue tirar você de determinados padrões.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu me abasteço da música. Vi vídeos de quando eu era pequena e eu respondia cantando tudo que minha mãe perguntava", lembra.

E Bruna dá em suas composições o melhor que tem dentro dela – além do microfone. "Escrevo muito sobre saudade, sobre amor, escrevo bastante sobre mim, mas tento não colocar muito o 'eu' na música. Quero que as outras pessoas se identifiquem. Escrevo sobre o dia a dia, o cotidiano, sobre ser uma pessoa que riem do sotaque. Vou escrever sobre como todo mundo acha que eu tenho sotaque e eu acho que não tenho."

O sotaque de Bruna nada mais é do que a melodia natural da própria voz. Coisa de quem canta vinte e quatro horas por dia. Com ou sem microfone.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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