ENTRETENIMENTO
05/04/2018 18:13 -03 | Atualizado 05/04/2018 18:19 -03

Artista de rua critica mudança climática e fascismo com murais impressionantes

"Quando eu era um filhinho da puta egoísta, um junkie, achava que o mundo inteiro girava em volta de mim. Agora é hora do arrependimento."

Andrew Burns Colwill

Andrew Burns Colwill é um homem com uma missão na vida.

Quando tinha entre 20 e 30 anos e era viciado em heroína, esse artista de rua de Bristol, no sudoeste da Inglaterra, produziu milhares de pinturas que vendia nos pubs da cidade para pagar as drogas que consumia em quantidade crescente.

Agora com 60 anos e limpo há quase três décadas, o trabalho de Colwill está ganhando um tom decididamente mais político, ecologicamente consciente e antifascista.

Energizado pelo referendo de 2016 em que foi aprovada a saída do Reino Unido da União Europeia e pela eleição do presidente Donald Trump nos EUA no mesmo ano, Colwill diz que está determinado a compensar pelo "tempo perdido" quando estava "completamente doidão", "prostituindo meu talento por dinheiro".

Neil Roberts 212 Productions

"Levei toda minha vida para enxergar o mundo sob esta ótica", disse Colwell ao HuffPost. "Quando eu era um filhinho da puta egoísta, um junkie, achava que o mundo inteiro girava em volta de mim. Agora é hora do arrependimento."

"O trabalho que faço hoje é uma reação completa à época em que eu vivia num mundo diferente, num planeta diferente. Sinto que preciso fazer alguma coisa agora para fazer uma diferença."

Criado em Bristol, Colwill disse que sempre sentiu a necessidade de se expressar através da arte, tendo produzido seu primeiro trabalho aos 5 anos. Aos 7 anos, ganhou um concurso proposto num jornal, e vendeu sua primeira tela aos 14.

Gary Kearns

Mas, depois de experimentar drogas e de ter vários contatos hostis com a polícia por "fazer coisas estúpidas que adolescentes fazem", ele abandonou o colégio aos 15 anos "sem nenhuma qualificação".

Ele passou os 15 anos seguintes fazendo trabalhos diversos com arte, desde pintar cenários para a BBC até paredes internas e fachadas de bares e outros estabelecimentos. Em pelo menos uma ocasião, Banksy (o artista de rua, também de Bristol, que oculta sua identidade e que Colwill disse que é cerca de dez anos mais jovem que ele) veio vê-lo pintar.

Andrew Burns Colwill

Mas Colwill disse que lhe faltava direção e que ele não sabia que tipo de carreira artística seguir. "Eu me perguntava 'será que eu devia ganhar muita grana com publicidade ou devia ficar fiel a mim mesmo?'."

Ao mesmo tempo ele estava ficando seriamente dependente de drogas. "Eu levantava de manhã, fumava crack, fazia uma pintura de uma cena de praia ou um pôr do sol bonitinho, a vendia num pub na hora do almoço por 20 libras (cerca de R$90), pegava minhas coisas, ia para casa e me drogava, desmaiava, e depois fazia tudo de novo no dia seguinte."

Aqueles trabalhos eram "pura prostituição", ele explicou. "Eu estava andando em círculos. Perdi toda perspectiva."

Andrew Burns Colwill

As galerias de arte não queriam saber de Colwill. Então, em 1987, quando tinha 30 anos, ele alugou a grandiosa mansão Ashley Court para promover uma grande mostra de seus trabalhos, que teve a presença de mais de mil pessoas e cobertura da mídia local.

Mas, como o próprio Colwill admitiu, "eu estava doidão o tempo todo".

Em 1990 ele percebeu que sua dependência de drogas tinha atingido um nível "muito perigoso", então viajou à Grécia para fazer um retiro, inicialmente previsto para durar 15 dias. Acabou ficando quase 20 anos no país. "Pensei: 'Esta é uma nova vida, uma segunda chance'."

Andrew Burns Colwill

Colwill sobreviveu inicialmente vendendo suas pinturas na rua. Com o tempo, passou a ser contratado por estabelecimentos comerciais para pintar murais em suas fachadas. "Ruas e mais ruas em algumas cidades pequenas estavam cobertas de trabalhos meus", ele disse.

Ele teve que aprender muito sobre a sensibilidade religiosa da população local, como ficou claro quando foi repreendido por um chefe de polícia por um mural que mostrava Jesus Cristo na cruz com agulhas enfiadas nos braços.

Em meados da década 2000, Colwill tinha criado uma firma de design artístico com sua namorada, decoradora de interiores. Mas, durante uma reunião em 2006 em que eles esperavam fechar um contrato para decorar um hotel, sua namorada sofreu uma hemorragia cerebral.

Ela passou a precisar de assistência média constante. Colwill não tinha meios de pagar por isso na Grécia com sua renda de artista. Então ele e a namorada voltaram para o Reino Unido e, em 2010, se radicaram em Bristol de modo permanente.

Andrew Burns Colwill

Ele descreveu a volta para casa como "uma limpeza da carcaça". Isso lhe deu uma nova visão das mensagens que seu trabalho deveria transmitir. Ele reconheceu que tinha ficado "acomodado demais" na Grécia, produzindo trabalhos apolíticos para o mundo corporativo.

"Hoje todos meus trabalhos precisam transmitir uma mensagem, senão não os crio", ele disse. Colwill explicou que sente uma necessidade urgente de mostrar que o mundo se encontra numa "bifurcação da estrada", algo que ou pode terminar com "a sobrevivência de uma população menor e mais rica" ou com o compartilhamento dos recursos naturais e riquezas do mundo.

E Donald Trump, do outro lado do oceano, acabou lhe servindo de inspiração, de certa maneira.

"Trump realmente abriu minha cabeça. Quando ouço uma pessoa sendo tão imbecil e ignorante quanto é esse homem em matéria do meio ambiente, ele me faz querer trabalhar ainda mais", disse Colwill. "Sou a reação viva ao que está acontecendo neste momento com estes indivíduos ignorantes, fascistas, de direita."

Andrew Burns Colwill

Rejeitando os estênceis frequentemente usados por artistas de rua, incluindo Banksy, Colwill opta por uma abordagem de pintura mais clássica – apesar de nunca ter estudado pintura formalmente.

Ele vê seu trabalho como "o passo seguinte" na evolução do movimento de arte de rua "poderosa e comovente", que ele considera que remete à era impressionista, "quando as pessoas comuns puderam finalmente se expressar e a arte deixou de ser feita exclusivamente para os proprietários de terras e a Igreja".

"Algumas pessoas não gostam do meu trabalho, mas não me incomodo em causar ofensa", ele disse. "Não quero ser grosseiro ou ignorante em relação às crenças das pessoas, mas preciso mostrar o que penso. Se todos fôssemos um pouquinho mais ativos politicamente, poderíamos transformar tanta coisa!"

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