LGBT
04/04/2018 11:54 -03 | Atualizado 04/04/2018 11:54 -03

Cura gay, homofobia cristã e nostalgia dos anos 1990 estão em ‘O Mau Exemplo de Cameron Post’

Escritora Emily M. Danforth conversa com HuffPost Brasil sobre terapias de ‘conversão’ e seu primeiro romance.

Divulgação/Harper Collins
Emily M. Danforth: 'Muitas igrejas têm históricos longos e terríveis de nos recusar e constranger. Fingir que este histórico não existe seria mentir'.

Mudanças no corpo, pouco (ou talvez nenhum) conhecimento a respeito de si mesmo e hormônios em erupção tornam a adolescência uma fase tão especial quanto difícil. Agora imagine passar por isso tudo sendo LGBT, em uma conservadora cidade de interior, apavorado pela ideia de sair do armário para a família e os amigos — logo nos anos 1990, quando isso sequer era comum — e sentindo-se culpado pela morte dos pais.

A protagonista do elogiado romance jovem adulto O Mau Exemplo de Cameron Post (HarperCollins, 2018) está munida de uma fita cassete com músicas de R.E.M., 4 Non Blondes e Bikini Kill e com os nervos à flor da pele. Após o pai e a mãe morrerem em um acidente de carro, a garota vai morar com a tia religiosa que a envia a um centro cristão de "cura gay".

"Como ela, eu cresci lésbica em uma cidadezinha bastante rural e conservadora na região leste de Montana nos anos 1980 e 1990", conta a autora Emily M. Danforth em entrevista ao HuffPost Brasil.

A escritora, também professora de literatura na Rhode Island College, se inspirou em experiências próprias para escrever este que é o primeiro livro de sua carreira. Lançado em 2012, Cameron Post foi adaptado para o cinema em um filme homônimo dirigido e escrito por Desiree Akhavan, com a atriz Chloe Grace-Moretz no papel principal.

Por enquanto sem data de estreia agendada ou trailer divulgado, o longa-metragem venceu no Festival de Sundance deste ano o grande prêmio do júri, o principal do evento. Há anos o festival dá pistas sobre possíveis indicados ao Oscar. Então é melhor você anotar na sua agenda: Cameron Post pode aparecer na próxima temporada de premiações.

As atrações românticas e sexuais de Cam são vistas como comportamentos pecaminosos que podem ser 'corrigidos' ou alterados.

Além de ter sido adorado em Sundance, a obra levantou um debate em torno do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence. Ele tem sido acusado de ter apoiado no passado projetos de "terapia de conversão" de gays.

A discussão a respeito da "cura gay" nos EUA ainda é quente — em 41 estados do país a prática ainda é considerada legal. Recente estudo do Williams Institute, da faculdade de direito da Universidade da Califórnia, Los Angeles, alerta que 20 mil jovens LGBTs norte-americanos passarão pelo tratamento. (No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia já proibiu profissionais do ramo de tratar a transgeneridade como doença ou anomalia; atualmente, o CFP está em disputa na Justiça do Distrito Federal por sua resolução da não abordagem da homossexualidade como doença ou anomalia.)

"Eu não passo bastante tempo pensando sobre Mike Pence e suas opiniões, passo mais tempo pensando em trabalhar para que ele não esteja no mandato por mais dois anos", conta a autora, que adorou a adaptação e até fez uma ponta com a esposa. "Mas, no meio-tempo, se alguém quiser comprar para ele um ingresso para ver o filme, tem meu apoio. Certamente, Mike Pence é alguém que se beneficiaria em vê-lo."

Divulgação
Chloë Grace Moretz, Sasha Lane e Forrest Goodluck (da dir. para a esq.) são Cameron, Jane e Adam, respectivamente, na adaptação para cinema vencedora em Sundance.

Foi assim, com um pé na literatura e outro no ativismo, que Danforth desenvolveu o enredo e os personagens de Cameron Post. A escritora não teve um "momento eureca" que a fez sentar-se diante do computador e escrever a história. Uma "romancista lenta", de acordo com suas próprias palavras, ela fez uma profunda pesquisa sobre romances para o público jovem adulto e "terapias de reversão" de orientação sexual; durante a pesquisa, também entrevistou pessoas que passaram pela tal "terapia". E o que talvez tenha pesado tanto quanto no processo foi a própria experiência dela com a discriminação.

Colocar os anos 1990 como contexto não foi uma mera desculpa para espalhar camisas xadrez de flanela e bandas grunge pelo enredo. A ideia era, principalmente, definir com precisão um período e um lugar (Miles City, Montana), o que implica em abordar personagens LGBTs em uma época em que "sair do armário" não era algo comum. A delicadeza da situação era tão grande, conta a autora, que ir à videolocadora e alugar um filme com romance lésbico poderia ser, para Cam, uma maneira de se assumir publicamente. Ver a mesma fita milhares de vezes é a única opção para a garota, pois naquela época não havia Netflix para ela ter acesso a incontáveis filmes e séries com variadas representações de pessoas LGBTs.

Muitas igrejas têm históricos longos e terríveis de nos recusar e constranger. Certamente há mais exemplos positivos hoje, mas fingir que o histórico não existe seria mentir.

Ao mesmo tempo em que seus pais perdiam a vida em um acidente de carro, Cam beijava uma garota pela primeira vez, o que só fez a vergonha e a culpa tornarem seu segredo ainda mais denso. Quando enviada à terapia, a garota tem certeza de que seus pais, se estivessem vivos, não fariam isso com ela. Entretanto, ao saber que eles morreram, a primeira coisa que sente é alívio. Pelo menos eles nunca saberiam.

"As atrações românticas e sexuais de Cam são vistas como comportamentos pecaminosos que podem ser 'corrigidos' ou alterados", conta Danforth, referindo-se às experiências da personagem com religião cristã organizada, em especial a cristã evangélica cujos adeptos são majoritariamente brancos. "A identidade dela não é aceita como válida. Em vez disso, é reduzida à uma 'tentação satânica'", completa.

Embora reconheça que hoje há ramificações de religiões cristãs mais receptivas às diversidades de gênero e orientação sexual, a escritora descarta a ideia de esquecer a discriminação. "Muitas igrejas têm históricos longos e terríveis de nos recusar e constranger. Certamente há mais exemplos positivos hoje, mas fingir que o histórico não existe seria mentir."

Divulgação/Harper Collins
Capa da edição brasileira tem arte de Tulio Cerquize.

Como mal sabe quem é, Cam precisa antes de qualquer coisa assumir-se para si mesma. É um dos primeiros passos para descobrir (pelo menos um pouco) a pessoa que ela é e viver "de acordo com as próprias regras", como o livro avisa logo na capa.

Se uma das poucas certezas de um adolescente sobre si mesmo pode ser a de que não é heterossexual ou cisgênero, como a família deve agir, então? Danforth — que atualmente escreve seu novo romance, The Plain, Bad Heroine Society (A Sociedade da Heroína Maligna, em tradução livre) — tem algumas sugestões.

"Não ache que você sabe exatamente como deve apoiar quem está saindo do armário. Em vez disso, pergunte para essa pessoa o que ela precisa ou quer. Talvez as respostas não sejam as que você esperaria", diz.

"Você pode precisar fazer algum trabalho — busque blogs, leia alguns livros, ouça algum podcast, vá a algum encontro de grupo. O silêncio pode ser mais danoso que talvez dizer acidentalmente algo que machuque."

Ela pondera que, entre a época em que Cameron Post foi parar em uma "terapia de conversão" e hoje, muita coisa mudou. Há direitos conquistados e outros a caminho. Até a postura do presidente dos EUA e de seu vice a respeito do tema têm sido motivo para eles se constrangerem em escala internacional.

"Em última análise, lembre-se que se trata de alguém que você provavelmente ama e quer ver feliz. Se ela sair do armário para você, é porque não pode viver uma vida completa sem ser de todo aberta a respeito de quem é."

Esta atitude, conta a autora, torna possível que o orgulho não seja só de quem se assume — mas também de quem acolhe. Os 20 mil adolescentes que serão enviados a uma terapia de "cura" saberão disso tão bem quanto a protagonista do livro de Danforth.

O Mau Exemplo de Cameron Post, de Emily M. Danforth, já está nas lojas pela HarperCollins. Tem 448 páginas, custa R$ 39,90 impresso e R$ 29,90 em e-book. A tradução é de Alice Mello.