MULHERES
03/04/2018 11:29 -03 | Atualizado 03/04/2018 12:07 -03

Você deveria conversar com seus alunos sobre a história das mulheres negras

"Focar nossa atenção sobre as histórias de mulheres negras abre a porta para quase todas as formas de injustiça e opressão serem exploradas".

Pictorial Parade via Getty Images
Shirley Chisholm, the first black woman elected to U.S. Congress and the first black person to run for a major party's presidential nomination, in 1968.

É fácil festejar as mulheres negras quando isso é conveniente ou cômodo. Os norte-americanos apreciam as mulheres negras quando o comparecimento delas às urnas leva a vitórias necessárias no Congresso. Amávamos Beyoncé, até ela dizer para pararem de nos matar, e amamos Oprah, desde que suas mensagens não sejam radicais demais, é claro. Mas é raro ver a sociedade americana reconhecer as contribuições das mulheres negras ou o papel delas em nossa história.

Passar por cima do papel exercido por mulheres negras em movimentos de resistência, resiliência e revolução encerra grande perigo. É importante rompermos com o ciclo dessa maneira singular de contar a história.

Assim, neste Mês de História das Mulheres, em lugar de dar outra aula sobre os movimentos feministas mainstream, a maioria dos quais excluiu as mulheres negras, espero que minhas colegas educadoras façam uma pausa para voltar a atenção para tudo que as mulheres negras e de outras minorias étnicas contribuíram para este país e o mundo. E não nos limitemos a falar de Rosa Parks e Harriet Tubman, especialmente dentro dos parâmetros restritos que muitas vezes nos ensinam sobre elas.

Quanto antes expusermos nossos filhos e alunos ao poder, alcance e profundidade das mulheres negras, menor será a probabilidade de eles aceitarem estereótipos e imagens populares que reduzem a mulher negra a um ser irado, hiperssexuado ou sobre-humanamente "forte". As meninas negras precisam saber que elas são mais do que apenas as "mulas do mundo" que vão simplesmente carregar todos os fardos que lhes são impostos.

Uma maneira de incluir as vozes das mulheres negras seria começar com uma das principais lacunas no ensino da história do movimento dos direitos civis. Muitas aulas sobre isso focam exclusivamente as contribuições feitas por homens, com a exceção de Rosa Parks (falaremos disso em um instante), deixando de dar destaque ao papel exercido por mulheres negras no movimento. Mesmo Malcolm X, em sua época, admitiu que a pessoa mais desrespeitada e desprotegida na América é a mulher negra.

Sem dar o devido destaque a mulheres como a ativista dos direitos civis Diane Nash e as líderes políticas Shirley Chisholm e Fannie Lou Hamer, meninas e meninos começam a se pautar por narrativas falsas que sugerem que as mulheres negras ou exerceram papéis subservientes nos movimentos de libertação e resistência ou estiveram ausentes completamente deles. Além disso, quando as mulheres negras são caladas nos textos históricos, isso permite que os homens e os brancos continuem a nos ignorar.

Os trabalhos de Alice Walker e do Coletivo Combahee River nos ajudam a entender de que modos as vozes das mulheres negras muitas vezes foram excluídas dos movimentos históricos. Escritora e ativista conhecida sobretudo por seu romance A Cor Púrpura, Walker cunhou o termo "womanist" – "mulherista" em seu livro In Search of Our Mothers' Gardens: Womanist Prose. Ela define "mulherista" como sendo "uma feminista negra" ou "uma feminista de cor". Ao cunhar esse termo, Walker quis incluir as visões das mulheres negras e de outras minorias étnicas no pensamento feminista e no cânone literário feminista.

A Declaração de 1974 do Coletivo Combahee River, uma declaração escrita e organizada por mulheres lésbicas negras que se reuniam regularmente para discutir e implementar políticas feministas negras, tratou das maneiras pelas quais os movimentos feministas procuram atender apenas às mulheres brancas, ignorando as reivindicações e os interesses das mulheres negras, que também estavam sofrendo.

Os estudantes e funcionários devem ser expostos aos trabalhos da educadora Anna Julia Cooper, uma das primeiras afro-americanas a receber um doutorado; da poeta, escritora e ativista Audre Lorde; da ativista política, acadêmica e escritora Angela Davis, cujo trabalho e ativismo tratam da opressão, raça, desigualdade de gênero e encarceramento em massa; de Sojourner Truth e Ida B. Wells, ambas defensoras dos direitos das mulheres e dos direitos civis.

Os estudantes merecem ouvir sobre as experiências de grupos de pessoas marginalizadas, especialmente as experiências de mulheres negras, através dos textos de Ntozake Shange, Maya Angelou, Toni Morrison, Alice Walker, Zora Neale Hurston, Warsan Shire e Nayyirah Waheed.

Incorporar as histórias e vozes de mulheres negras em nossos currículos e nossas salas de aula é forte, revolucionário e curador. Os estudantes precisam debruçar-se sobre as intersecções em que vivem as mulheres negras, em especial as mulheres negras, lésbicas e pobres, já que isso revela uma visão mais clara das atrocidades que esta grande nação cometeu contra seus cidadãos mais vulneráveis.

Mergulhar nesse tipo de conteúdo pode levar alguns educadores à reflexão, especialmente aqueles que consideram que as mensagens dessas mulheres são excessivamente "radicais" ou que orientação sexual e inconformidade de gênero são discussões demasiado nuançadas e políticas para se ter em sala de aula. Entretanto, como os professores têm o privilégio de poder influenciar inúmeras mentes diariamente, é importante que nós, educadores, usemos nossas ferramentas e nossos dons para fazer esse trabalho altamente desafiador.

Se o sexismo, o racismo e a homofobia são mentalidades que são ensinadas, é cada vez mais importante ensinarmos nossos alunos a pensar criticamente, examinar seu mundo e suas crenças e ser compassivos, tornando-se agentes de transformação empática. Se deixarmos de mencionar as questões que são importantes, estaremos apenas perpetuando a opressão.

Focar nossa atenção sobre as histórias de mulheres negras abre a porta para quase todas as formas de injustiça e opressão serem exploradas.

Os educadores também precisam fazer um trabalho melhor de desmontar os mitos sobre Rosa Parks que reforçam a ideia de que as mulheres negras só são poderosas e dignas de serem lembradas quando são vistas como gentis e "respeitáveis". Textos como At the Dark End of the Street, de Danielle McGuire, desmontam a narrativa de uma Rosa Park dócil, que teria estado fisicamente cansada demais para dar seu lugar no ônibus a um passageiro branco. Na realidade, ela era uma líder experiente dos direitos civis e estava mentalmente cansada de sempre ter que ceder à supremacia branca.

O livro de McGuire também se debruça sobre a política da respeitabilidade, prevalente durante o movimento dos direitos civis (e ainda hoje). A ativista Claudette Colvin, no Alabama, foi detida meses antes de Parks por recusar-se a ceder seu assento a um passageiro branco. A NAACP (Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor) optou por não citar a prisão dela na ação movida contra as leis de segregação racial no Alabama, porque ela engravidou mais tarde sem estar casada.

Talvez a razão por que as experiências das mulheres negras são tão frequentemente deixadas de fora das narrativas históricas dominantes seja que a situação delas destaca as realidades ásperas do patriarcado e do racismo, duas formas de opressão que estão presentes desde a fundação deste país. Ademais, reconhecer as contribuições feitas pelas mulheres negras deslocaria um pouco do poder dos homens brancos heterossexuais, que sempre ditaram e dominaram as narrativas históricas.

Para professores que buscamos usar nossas salas de aula como lugares para dizer a verdade e promover a justiça social e os direitos humanos, focar nossa atenção sobre as histórias de mulheres negras abre a porta para quase todas as formas de injustiça e opressão serem exploradas.

Como educadores, é importante nos comprometermos a fazer esse trabalho. É hora de as mulheres negras serem entendidas como mais do que meramente figuras iradas ou espectadoras passivas, especialmente sem examinar os modos passados e atuais de opressão, violência e silenciamento. Essa história criou as mulheres resilientes, implacáveis e que não toleram ser menosprezadas que você se atreve a chamar de "iradas".

*Jamilah Pitts é escritora e professora no Harlem, bairro de Nova York. É ex-aluna do Spelman College e está fazendo estudos de pós-graduação na Faculdade de Pedagogia da Universidade Columbia.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.