ENTRETENIMENTO
02/04/2018 16:18 -03 | Atualizado 03/04/2018 10:28 -03

‘Uma Dobra no Tempo’ é o longa que celebra o lugar de Ava DuVernay em Hollywood

Produção da Disney expressa que a indústria do cinema tem mudado de verdade — e para melhor.

Divulgação/Disney
Da esq. para a dir.: Reese Witherspoon, Oprah Winfrey e Mindy Kaling são, respectivamente, as senhoras Queé, Qual e Quem.

Não é todo dia que um grande estúdio bate à porta de uma mulher negra e pergunta: "você quer dirigir um enorme blockbuster de fantasia para nós?". Então, quando isso acontece, talvez seja melhor agarrar a oportunidade. Ava DuVernay, entretanto, preferiu declinar antes de aceitar a oportunidade de dirigir Uma Dobra no Tempo (A Wrinkle in Time, 2018) para a Disney. Um executivo do alto escalão da empresa insistiu, insistiu e insistiu até a diretora aceitar. O que motivou a decisão da cineasta foi saber que planetas inteiros poderiam ter a aparência que ela bem quisesse na tela.

"Quantas mulheres ouvem isso? Quantas mulheres negras ouvem isso?", questionou a diretora de 45 anos à revista Time. Ao dizer "sim" ao projeto em 2016, DuVernay — indicada ao Oscar de melhor documentário por A 13ª Emenda (2016) e ao Globo de Ouro de direção por Selma (2014) — tornou-se a primeira negra a dirigir um longa-metragem em live action com orçamento igual ou superior a US$ 100 milhões (aproximadamente R$ 333 mi). E também fortaleceu um processo que tem mudado Hollywood profundamente.

Após a diretora entrar no projeto de Uma Dobra no Tempo, outra cineasta negra, Gina Prince-Bythewood (Nos Bastidores da Fama, A Vida Secreta das Abelhas), foi anunciada como diretora de Silver & Black, uma extensão do universo do Homem-Aranha focado nas personagens Gata Negra e Sabre de Prata, cujo lançamento está previsto para 2019 pela Sony.

Em 2017, o sucesso arrasador de Mulher-Maravilha deu fim a qualquer dúvida a respeito da rentabilidade de um filme de ação protagonizado por uma mulher. Meses depois da estreia, uma onda de denúncias de assédio e violência sexual perpetrada principalmente por homens contra mulheres fez ir para o beleléu a carreira de um dos produtores mais influentes do meio. Não chegamos nem ao segundo semestre de 2018 e Pantera Negra tornou-se o filme baseado em quadrinhos de super-heróis mais rentável da história — até o momento, já faturou US$ 1,2 bilhão só em bilheteria.

Mulher-Maravilha e Pantera Negra, produções DC/Warner e Marvel/Disney, respectivamente, também reforçam com louvor a importância da representatividade de mulheres e negros em espaços nos quais, até então, só víamos homens brancos contando histórias sobre eles mesmos. Há variados potenciais no horizonte: lucros altíssimos, elogios da crítica, engajamento do público. Investir em inclusão traz bons resultados em dólares e prestígio.

Este terreno é novo para DuVernay. Antes de Selma, ela já tinha dirigido dois longas independentes de orçamentos magérrimos, documentários e curtas-metragens. No entanto, nada no padrão das altas cifras de Hollywood.

"Eu já fiz filmes por US$ 50 mil", disse à Time. "Então, quando as pessoas me perguntam 'como você está lidando com os US$ 100 milhões?', eu respondo 'muito bem'."

Poucos anos atrás, Selma colocou DuVernay no centro de outro impulso por mudanças na indústria do entretenimento. Caso você não se recorde, a história é a seguinte: todo mundo achava que ela seria a primeira negra indicada ao Oscar de direção pelo longa, um dos principais lançamentos da temporada de premiações de 2014–2015, festejado pela crítica e pelo modesto público que foi aos cinemas vê-lo.

Divulgação/Disney
Ava DuVernay dirige Storm Reid no set de 'Uma Dobra no Tempo'.

No entanto, isso não aconteceu. Na cerimônia de 2015, o Oscar passou por um vexame daqueles ao anunciar indicados quase todos brancos em suas principais categorias, o que deu iniciou a campanha #OscarsSoWhite. A ausência do nome de DuVernay da lista de diretores indicados estava em total contraste com o ano anterior, que consagrou como melhor filme 12 Anos de Escravidão, dirigido por um negro e com elenco em que só se via gente branca aqui e ali. A ironia: Selma — todavia reconhecido na categoria de melhor filme e canção original — é sobre as passeatas lideradas por Martin Luther King nos anos 1960 a favor dos direitos dos negros ao voto.

Em vez de ser catapultada por uma indicação, a diretora o foi por uma não indicação. Selma fez seu prestígio extrapolar o meio do cinema independente dos Estados Unidos. Em seguida, dirigir o documentário A 13ª Emenda (Netflix), sobre a presença em massa de negros na população carcerária norte-americana, lhe rendeu prêmios de pedigree — um Bafta, um Peabody e quatro Emmys. Sim, quatro. Em 2015, a Marvel ofereceu a ela a oportunidade de dirigir Capitã Marvel (estreia em 2019) ou Pantera Negra. Ela declinou ambos.

Manohla Dargis, crítica de cinema do New York Times, sugeriu que fosse criado o "Teste de DuVernay". Seguindo a linha do teste feminista de Bechdel, para analisar a representatividade de mulheres em filmes, o proposto por Dargis se baseia em avaliar se negros e outras minorias étnicas são legítimos personagens ou meros apetrechos em histórias sobre gente branca.

Fechando este círculo, neste mesmo mês em que Uma Dobra no Tempo chega aos cinemas após longa espera — você entenderá o motivo mais abaixo —, DuVernay foi confirmada como diretora de New Gods. Baseado nos quadrinhos dos Novos Deuses da DC, o filme será a primeira incursão da diretora no mundo das adaptações de super-heróis — justamente aquele que tem assegurado à Hollywood receitas anuais bilionárias para manter sua máquina funcionando.

A Ava o que é de Ava

Uma Dobra no Tempo é adaptado do romance homônimo de Madeleine L'Engle (1918–2007), lançado originalmente em 1962. De uma só vez, a obra é um clássico dos gêneros de fantasia, ficção científica e literatura infantojuvenil, e o início de uma tetralogia.

Na história, uma garota embarca em uma aventura por diferentes planetas e dimensões na companhia do irmão caçula e de um amigo. Eles estão em busca do pai dela, um astrofísico há anos perdido em algum canto do espaço. Durante a jornada, o trio tem a ajuda de mentoras, as "senhoras" Queé, Qual e Quem; a protagonista também traz ajudas das boas, pois ela é tão genial em física quanto o pai.

DuVernay nunca havia lido o livro antes da proposta da Disney. Ao chegar em casa em uma noite, ela leu o romance, o roteiro escrito por Jennifer Lee (Frozen) e Jeff Stockwell (Ponte para Terabítia), e uma adaptação para quadrinhos. Na manhã seguinte, ela ligou para os executivos do estúdio e confirmou: o filme era dela.

Reprodução/Time
Em apenas uma fotografia, a capa da Time sintetiza todo o momento de transformação em Hollywood.

Ao desembarcar no projeto, a diretora levou sua ética de trabalho, que é a de sempre ter um set multicolorido — há gente de todas as etnias e mulheres, nada de monopólio dos homens brancos.

Meg, a personagem principal, é vivida por Storm Reid, uma pré-adolescente negra que ostenta um volumoso penteado cacheado. A mãe e o pai dela, interpretados por Gugu Mbatha-Raw e Chris Prine, são uma negra e um branco. O irmão caçula, também um prodígio, é o filipino Deric McCabe. No elenco também estão Michael Peña (latino), Zach Galifianakis e David Oyelowo (negro).

Queé, Qual e Quem são, respectivamente, Reese Witherspoon, Oprah Winfrey e Mindy Kaling — uma branca, uma negra e uma descendente de indianos, todas escolhidas por DuVernay.

Divulgação/Disney
Em alguma galáxia por aí, o pai de Meg e Charles Wallace, Dr. Alexander Murry, está perdido e não consegue voltar.

O filme, cujo público-alvo é a garotada entre oito e 12 anos de idade, traz uma nítida mensagem sobre usar o amor e a empatia em "tempos sombrios". E, antes disso, como Meg descobre no decorrer da história, é importante empoderar-se, o que se faz com autoconhecimento.

Em uma cena, as personagens de Storm Reid e Oprah, uma espécie de "deusa da sabedoria", se encontram, olham-se nos olhos e dizem uma para a outra: "você é linda".

Sem dúvida, Uma Dobra no Tempo é um sinal de novos tempos que já iniciados em Hollywood — Ava DuVernay, com seus dreadlocks e óculos de hastes grossas, está sentada à cadeira de diretora.

O filme estreou na última quinta-feira (29). Tem 109 minutos de duração, classificação indicativa 10 anos e distribuição da Disney. Assista ao trailer abaixo: