31/03/2018 02:00 -03 | Atualizado 31/03/2018 10:14 -03

Milena Abreu: Ela fez as pazes com o próprio corpo fotografando nu feminino

"Eu pensei que poderia ajudar essas mulheres e me ajudar também".

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
A fotógrafa Milena Abreu é a 24ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Dentro de casa, em Salvador, Milena Abreu sempre viu o pai detrás das lentes de uma Yashica – "fotografando tudo, só por hobby mesmo, 24 horas por dia". Se engana, no entanto, quem pensa que foi das mãos dele que a fotógrafa recebeu os primeiros ensinamentos ou incentivo para o negócio. "Ele não deixava eu encostar na câmera, era tudo muito caro, tanto o equipamento quanto os rolos de filme. Mas eu admirava de longe, achava massa – só não achava que poderia ser a minha vez", conta.

Nos primeiros anos do século XXI, chegaram ao Brasil, para sorte dela, as primeiras compactas digitais – daquelas que tinham mais granulação de pixel do que imagem propriamente dita. Milena insistiu, insistiu e insistiu mais um pouco e acabou conseguindo de presente da mãe uma dessas, para dividir com a irmã mais velha. Entre uma briga e outra para ver de quem era o turno de manejar câmera, a desconfiança de que ela tinha jeito para a coisa se confirmou.

Pensei em largar a fotografia, que não era mais para mim. Só que eu percebi que o problema é que eu fotografava pelo simples ato de fotografar, nunca pensei que havia uma técnica por trás da coisa.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Para começar, Milena vendeu todos os equipamentos eletrônicos que tinha para investir em uma câmera profissional.

Em uma viagem para Arapiranga, distrito do município de Rio de Contas, na Chapada Diamantina, onde moram seus avós, ao lado da cybershot inseparável registrou, entre outras coisas, uma das imagens mais comuns do imaginário nordestino: um carro de bois. Voltando para casa, inscreveu a imagem em um concurso do colégio, só de brincadeira: "deixa eu ver esse negócio aqui só para ver se dá em alguma coisa".

E não é que deu? O "mais do mesmo" garantiu o primeiríssimo lugar entre os competidores. O prêmio? Uma câmera – só que o modelo era igual ou inferior ao que tinha. Interpretou a vitória como sinal, e despirocou: vendeu a câmera que ganhou, seu iPod e, segundo ela, "todo o resto que tinha" e comprou uma Nikon D5300, semiprofissional.

Eu e minhas amigas tivemos vários problemas de autoestima durante a vida em busca desse ideal que sempre foi pregado para a gente... Então eu pensei que poderia ajudar essas mulheres e me ajudar também.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Além da fotografia, Milena descobriu mais uma paixão para arrebatar seu miocárdio: o feminismo.

Resolveu prestar vestibular para jornalismo justamente porque descobriu que na universidade havia um grupo que se dedicava exclusivamente à fotografia: "falaram que lá eu ia aprender de graça (risos). Pois se inscreveu e passou – só não passou no processo seletivo para o desejado curso. "Eu fiquei puta! Fiquei pirada. Pensei em largar a fotografia, que não era mais para mim. Só que eu percebi que o problema é que eu fotografava pelo simples ato de fotografar, nunca pensei que havia uma técnica por trás da coisa".

Apelou para a mãe e conseguiu que ela financiasse um curso de noções básicas de fotografia. Esperou o semestre seguinte chegar, fez portfólio, realizou mais uma vez a inscrição e finalmente garantiu a entrada. Sua vez finalmente havia chegado e, bom, é agora que a nossa história começa.

Eu simplesmente pergunto: gente, quem tá a fim de ficar nua para mim esse final de semana? Não tem por que não fotografar qualquer mulher.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Foi nesse mergulho na teoria feminista que ela começou a perceber que ensaios de nu feminino eram feitos sob a ótica masculina.

Enquanto a obsessão pelo retrato continuava a crescer, Milena descobriu mais uma paixão para arrebatar seu miocárdio: o feminismo. "Sempre senti que tinha alguma coisa de errado em como a minha relação com as mulheres se dava, enquanto fui crescendo. A gente é criada com essa rivalidade uma com a outra, de achar que a outra é inimiga".

Começou a ler mais sobre o movimento e, em suas próprias palavras, tentar evitar ao máximo os machismos que existem dentro da gente. Foi nesse mergulho que começou a perceber a quantidade absurda de ensaios de nu feminino começaram a pipocar na web. Só que um detalhe a chamou atenção: todos os autores das fotografias eram homens. "E todos tinham um discurso de que estavam fazendo projetos sobre as mulheres para libertá-las! Eu comecei a ficar muito revoltada porque, além disso, todas as fotografadas eram 'padrão de revista' e posavam de maneira sensual – e acabava que eu não me identificava com nenhuma delas, porque não soava natural".

A gota d'água veio após um workshop com um fotógrafo "sabidão do gênero". Entre os "absurdos" que ouviu do rapaz, coisas como "eu estou revolucionando com esse projeto", "tô ajudando essas meninas" e o créme de la créme: "sou feminista". "Eu comecei a perceber que isso me incomodava muito e que era uma necessidade minha trabalhar com essa questão do corpo. Eu e minhas amigas tivemos vários problemas de autoestima durante a vida em busca desse ideal que sempre foi pregado para a gente... Então eu pensei que poderia, de alguma forma, ajudar essas mulheres e me ajudar também", explica.

É revoltante, infelizmente eu preciso de curtidas para chamar atenção no mundo (risos). Mas eu vou fazer o quê? Colocar outdoor pela cidade?

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Nasceu, então, o Feminua: um projeto fotográfico no qual ela encontra meninas que topam se desnudar e enxergar o próprio corpo de forma diferente.

Decidiu então, ao fim do curso, dedicar seu Trabalho de Conclusão de Curso ao tema. Surgiu o Feminua: um projeto fotográfico no qual ela encontra meninas, conversa, procura conhecer todo o background delas e, depois que elas se despem por completo, Milena as fotografa sem roupa – do jeito que quiserem, onde quiserem, com a pose que quiserem. Sobre a escolha das modelos, não há escolha: "Eu simplesmente pergunto: gente, quem tá a fim de ficar nua para mim esse final de semana? Não tem por que eu não fotografar qualquer mulher".

"Não é o nu pelo nu. A gente dificilmente para e ouve as histórias de outras mulheres. Quando a gente o faz, percebe que tudo aquilo que a gente ouviu de tóxico da família, amigos, namorados, são coisas que elas também passaram. Eu quero que elas percebam que são sim bonitas, cada qual com sua singularidade, cada qual seus detalhes – que nos fazem únicas. Fotografando o nu feminino eu consegui fazer as pazes com o meu próprio corpo".

Quem não fica tão feliz assim com as fotografias são as redes sociais. Milena trava uma guerra diária com o Facebook e o Instagram para divulgar o seu trabalho, que é confundido com pornografia pelos algoritmos dos sites e acaba permanecendo apenas minutos no ar. Ela posta, eles deletam. Ela vai e esconde um mamilo. Eles apagam. Ela então tapa um segundo mamilo. Não tem jeito, eles descobrem. A batalha continua até que não haja praticamente mais pele alguma na imagem.

"Tem muita parada bizarra de pornografia rolando solta por aí e trabalhos voltados para o empoderamento caem super rápido. Isso sem falar na comparação de quando é homem nu, porque homem pode aparecer bunda, peitinho pode, os pêlos todos (só não pode pinto). Às vezes o das meninas nem mostra o mamilo e derrubam", compara. Ela faz uso de alguns artifícios para barrar o sistema: tarjas e pixels – este último o mais eficaz, porque acaba mesclando com as cores da própria foto.

Ficar sem publicar que não dá. O Instagram atualmente é a principal plataforma de trabalho de Milena: "Ai, desanima. É revoltante, infelizmente eu preciso de curtidas para chamar atenção no mundo (risos). Eu vou fazer o quê? Colocar outdoor pela cidade? Não tem outra forma... Posso ser presa, mas tô pensando em uns lambes. Se vocês virem lambes de mulheres nuas são meus (risos).

Independentemente das regras do jogo, Milena é sucinta: "Gente, se vocês quiserem ficar nuas para mim, eu juro que é massa".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto:Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.