30/03/2018 02:00 -03 | Atualizado 30/03/2018 13:11 -03

Daniela Bortman: Ela se tornou médica após acidente e hoje combate o preconceito com informação

"Gostaria que minha situação fosse natural para um monte de gente, queria que minha história não fosse uma em um milhão".

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Daniela Bortman, de 35 anos, é a 23ª mulher que compartilha sua história no projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres.

Quando era criança, ela ia junto com o pai e os irmãos para o hospital. Lembra bem. Era plantão e por mais que o ambiente não fosse exatamente infantil, ela achava o máximo fazer essa visita ao pai médico. Conta com muito carinho que ficava imaginando pessoas deitadas na maca, ela atendendo, cuidando dos outros, fazendo a vida dos pacientes melhor. Seus irmãos quase desmaiavam, brinca. Mas ela não. "Eu amava desde pequena, sempre gostei bastante, sempre sonhei em ser médica. Sabia que era o que queria pra mim". E foi isso que Daniela Bortman, 35 anos, fez.

Chegou a achar que talvez não fosse possível. Entrou na faculdade de medicina no interior de São Paulo, mas em 2006, aos 23 anos, sofreu um acidente de carro e ficou tetraplégica. O sonho – e tantas outras coisas – ficaram em suspenso. Mas só por algum tempo. Porque era guiada por uma lição de vida forte. "Meu pai me ensinou que ninguém pode te dizer o que você pode ou não fazer". No ano seguinte ao acidente, ela começou a ser impulsionada por ele a voltar para a faculdade. Foram meses difíceis, é verdade. Três de internação em São Paulo e mais outros tantos de reabilitação em Brasília. Mas, para ele, a filha estava pronta. Para ele, ela sempre esteve pronta.

É difícil você assumir um corpo que você não conhece e que não responde aos comandos. Então eu não enxergava muita luz no fim do túnel.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Daniela entrou na faculdade de medicina no interior de São Paulo, mas em 2006, aos 23 anos, sofreu um acidente de carro e ficou tetraplégica.

"Eu falava que ele estava louco. Eu tinha 23 anos na época. É difícil você assumir um corpo que você não conhece e que não responde aos comandos. Então eu não enxergava muita luz no fim do túnel. Mas ele me perguntava se eu queria [voltar a estudar] e dizia que não tinha motivo para não fazer. E na minha cabeça tinham todos os motivos, mas na verdade não tinha nenhum".

Apoiada pela família e pelas colegas de classe e de apartamento – suas amigas mantiveram tudo de Daniela em seu quarto, do jeito que estava, esperando – ela voltou. E foi a grande virada em sua vida. Após meses de reclusão, sessões diárias de fisioterapia e visitas que recebia, aos poucos ela pode voltar ao mundo. "Foi muito complexa essa fase de adaptação. Ninguém sabia como me tratar, eu não sabia como lidar comigo. A ficha demora para cair, desenvolvi uma depressão grave. Mas na reabilitação eu vi que existia vida na cadeira de rodas. Dá para se dar um jeito para todas as coisas e retomar minha vida foi muito importante".

Retomar meu sonho de carreira foi fundamental. Começar a interagir de novo, ser incluída na faculdade, no bairro em que eu morava, isso tudo faz as coisas voltarem a ter sentido. O isolamento é matador.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Após meses de reclusão, sessões diárias de fisioterapia e visitas que recebia, aos poucos ela pode voltar ao mundo.

Voltou a ter compromissos, rotina. E Daniela pode olhar de novo para seu grande objetivo. "Retomar meu sonho de carreira foi fundamental. Começar a interagir de novo, ser incluída na faculdade, no bairro em que eu morava, isso tudo faz as coisas voltarem a ter sentido. O isolamento é matador".

E o isolamento não voltou para Daniela. Poucos meses depois de concluir a faculdade, foi contratada como médica do trabalho em uma empresa, o que foi muito importante para sua vida e carreira. O fato de seu chefe ter enxergado sua qualificação profissional – mesmo sem experiência na área – e não sua limitação física foi um grande combustível para a então mais nova doutora na praça. Isso veio para confirmar o que ela já tinha aprendido nesses anos após o seu acidente: era possível. "Eu tinha muito preconceito comigo mesma. Achava que não era possível não por falta de apoio ou força de vontade, mas eu achava que nada era possível naquela situação e foi por segregação, falta de informação".

Buscou informação. Foi atrás. Se especializou em medicina do trabalho e é esse o posto que ocupa hoje na Monsanto e se sente realizada. "Sou muito apaixonada pelo que eu faço, é um sonho poder atuar todo dia". Um grande sonho. E não fica presa no consultório. Gosta de ver como funcionam as atividades e o trabalho dos funcionários, porque só assim é possível saber quais riscos para a saúde tal atividade pode trazer. Do consultório não dá pra ver e ela quer fazer seu trabalho bem feito. Então vai.

Gostaria que minha situação fosse natural para um monte de gente, queria que minha história não fosse uma em um milhão.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A médica se especializou em medicina do trabalho, área que ficou apaixonada, e é esse o posto que ocupa hoje na Monsanto.

No caminho, quebra paradigmas – que ela espera um dia não precisar mais quebrar. "Gostaria que minha situação fosse natural para um monte de gente, queria que minha história não fosse uma em um milhão. Queria que fosse corriqueira e que esse trabalho de inclusão fosse obsoleto".

Talvez um dia seja. Enquanto isso, ela faz sua parte sem nunca deixar aquela antiga lição de lado: "Ninguém tem que dizer o que você pode ou não fazer. Você vai fazer o que você quiser".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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