MULHERES
27/03/2018 16:03 -03 | Atualizado 27/03/2018 16:14 -03

Nem todas as mulheres em posições de poder são heroínas feministas

O passado sombrio de Gina Haspel faz dela uma figura complicada para ser apoiada por feministas.

Handout . / Reuters
Donald Trump announced Tuesday that he'd chosen Deputy CIA Director Gina Haspel to run the agency.

O mundo precisa urgentemente de mais mulheres líderes, mas as feministas não são obrigadas a defender e gostar de todas as mulheres que alcançam um cargo de poder.

No início de março o presidente Donald Trump nomeou Gina Haspel para a direção da Agência Central de Inteligência (CIA). Se a indicação dela for confirmada pelo Senado, Haspel se tornará a primeira mulher a comandar a CIA em seus 70 anos de história. Uma mulher que inova dessa maneira é algo a ser festejado, certo?

Mas Haspel, agente veterana que trabalha na CIA há mais de 30 anos, vem acompanhada de controvérsia. Nos anos da presidência de Bush, após os ataques do 11 de setembro, Haspel comandou uma prisão secreta da CIA na Tailândia onde eram usadas as chamadas técnicas de interrogatório intensivo – ou seja, tortura –, algo que desde então foi exposto, criticado e encerrado. Há também acusações de que ela teria ajudado a acobertar algumas dessas atividades. Muitos defensores dos direitos civis já criticaram sua nomeação. E, devido à natureza sigilosa da CIA, não se conhece ao certo a extensão de seu envolvimento com tortura.

O presidente Donald Trump fez questão de se gabar de que Haspel era a primeira mulher escolhida para comandar a CIA, e alguns de seus assessores repisaram esse ponto. Mas, considerando o passado sombrio de Haspel, não está claro de modo algum se a elevação dela constituiria uma vitória para as mulheres.

"Ser feminista não significa concordar indiscriminadamente com todas as mulheres", explicou Michelle Ryan, professora de psicologia na Universidade de Exeter, na Inglaterra, que estuda gênero e liderança. "O feminismo defende a igualdade de direitos."

A ideia de que as mulheres devem ser julgadas com base em seus méritos individuais é um argumento que as mulheres conservadoras normalmente não hesitam em apresentar. Para a direita, essa visão se alinha com a crença na ascendência da individualidade. O argumento foi discutido interminavelmente durante a eleição presidencial americana, quando mulheres de ambos os lados políticos declaram que não tinham o dever de votar em Hillary Clinton apenas por ela ser mulher.

"As mulheres são indivíduos. Elas podem e devem pensar por elas mesmas", disse Mona Charen, membro sênior do think tank conservador Ethics and Public Policy Center. "Será um grande dia quando as pessoas reagirem a uma mulher com base nas qualidades individuais dela."

Para Charen, não é complicado decidir se uma mulher pioneira deve ou não ser festejada como tal, independentemente de suas posições políticas. Conservadora de longa data que optou por não trabalhar para George H.W. Bush por considerá-lo moderado demais, ela acha que não tem necessariamente importância o fato de haver tão poucas mulheres em posições de liderança na política ou nos negócios.

"As mulheres devem fazer o que querem fazer", disse Charen, que dentro de alguns meses vai lançar um livro intitulado Sex Matters: How Modern Feminism Lost Touch With Science, Love and Common Sense (O sexo tem importância – como o feminismo moderno se desligou da ciência, do amor e do bom senso).

"Se elas quiserem ser líderes, devem ser líderes." Se não, tudo bem também. Charen, que ganhou destaque recentemente ao falar francamente em uma reunião de conservadores o que pensava sobre a hipocrisia republicana, observou que Gina Haspel tem reputação de ser competente e é amplamente respeita (uma raridade, considerando o calibre das figuras que orbitam em volta de Trump hoje em dia).

Charen vem defendendo ao longo de toda sua carreira que as mulheres devem ser avaliadas individualmente, e sua postura gerou pouca polêmica.

Mas geralmente há mais reações contrárias quando progressistas, normalmente mais fortes na defesa dos direitos das mulheres, não festejam automaticamente cada líder que é mulher.

Alguns conservadores ficam realmente confusos quando mulheres progressistas feministas não dão seu apoio automaticamente a todas as líderes mulheres importantes. Mas esse fato revela uma incompreensão total ou indiferença em relação aos direitos das mulheres – uma pressuposição de que tudo o que nós garotas precisamos é ver uma mulher no poder, e que o projeto feminista se resume a isso. Basta lembrar o furor gerado em torno de Sarah Palin em 2008 para ver as mesmas questões voltarem à tona.

Alguns conservadores ficam realmente confusos quando mulheres progressistas feministas não dão seu apoio automaticamente a todas as líderes mulheres importantes.

Os republicanos tentaram gerar mais entusiasmo por Palin pelo simples fato de ela ser mulher – como uma maneira de levar para ela os votos de mulheres frustradas que tinham apoiado o esforço fracassado de Hillary Clinton para ser escolhida a candidata presidencial do Partido Democrata. Aparentemente eles não entenderam que essas eleitoras também se importam com políticas públicas e ideias. Não basta uma candidata usar saia – ela também precisa defender ideias e políticas que empoderem as pessoas que usam saia. Sarah Palin não o fazia.

Jessica Valenti escreveu no "Guardian" na época que "a campanha de John McCain está tentando cinicamente recriar o entusiasmo que cercou a candidatura de Hillary Clinton. Pensando que tudo que as mulheres querem é ... outra mulher."

Kellyanne Conway foi a primeira diretora de campanha presidencial a vencer uma eleição. A rede Fox News tentou, algum tempo atrás, argumentar que as feministas deveriam gostar dela por esse motivo. Segundo essa lógica, as feministas também deveriam aplaudir Sarah Huckabee Sanders, já que ela é uma mulher que exerce um cargo de destaque e é mãe de filhos pequenos.

Mas é difícil se entusiasmar com as mulheres que cercam Donald Trump. Elas apoiam um homem que já foi acusado de agressão sexual por várias mulheres e que é abertamente hostil a políticas públicas que possam ajudar as mulheres.

JASON CONNOLLY via Getty Images
Some Republicans believed that women would flock to Sarah Palin, the 2008 Republican party vice presidential nominee, just because she is a woman.

Existem algumas pequenas complicações aqui que provavelmente ajudam a aumentar a confusão da direita.

Para começar, pensando coletivamente, queremos, sim, ver mais mulheres em cargos de poder. A igualdade de gêneros geralmente conduz a resultados mais justos para as mulheres. Pesquisas mostram que o empoderamento de mais mulheres pode levar a mais oportunidades para mulheres – novos tipos de empregos, mais possibilidades de promoções, etc. Quando há mais líderes mulheres, mais meninas têm exemplos femininos para admirar e emular.

A presença de mais mulheres em cargos de poder também pode reduzir a discriminação de gênero e aumentar as políticas públicas que favorecem as mulheres. Vimos isso no ano passado na luta para conservar a Obamacare, uma política pública que encerra benefícios enormes para as mulheres: foram senadoras republicanas que mantiveram a lei de saúde viva. Há até pesquisas que indicam que a presença de mais mulheres em cargos de poder leva a uma queda na incidência de assédio sexual. São senadoras mulheres – de ambos os partidos – que hoje fazem pressão por leis que garantem licença remunerada.

Em segundo lugar, as feministas geralmente tendem a denunciar o sexismo, seja qual for o alvo. Ou seja, elas rejeitam as descrições misóginas feitas de Kellyanne Conway, Sarah Sanders e Sarah Palin, mesmo discordando das posições políticas delas.

Será interessante ver se Gina Haspel vai enfrentar críticas sexistas nas próximas semanas. A expectativa é que em sua audiência de confirmação no cargo, marcada para abril, ela seja questionada intensamente sobre seu papel no programa de tortura da CIA. Ela já foi chamada de "rainha da tortura".

Como há tão poucas mulheres no comando de organizações, as que chegam a essas posições são julgadas não apenas por seus méritos, mas também pela ótica de seu gênero.

Quando uma líder mulher erra, a consequência é quase sempre negativa para todas as mulheres, disse Michelle Ryan, uma das pesquisadoras que cunhou o termo "penhasco de vidro" depois de descobrir que é mais provável que mulheres sejam conduzidas a cargos de comando em organizações que já se encontram em risco.

É possível que o envolvimento de Haspel no programa da CIA seja julgado mais duramente porque a expectativa geral é que as mulheres sejam mais éticas, tenham mais empatia e sejam mais suaves que os homens: "Não temos a expectativa de ver mulheres envolvidas em tortura", disse Ryan. Ela questiona se um homem que enfrentasse a mesma acusação seria criticado com dureza igual. (Isso traz à mente o caso da soldada Lynndie England, que virou a imagem mais marcante da história tenebrosa da tortura cometida por forças americanas no Iraque, apesar do fato de que houve muitas outras pessoas envolvidas nas decisões que lhe possibilitaram fazer o que fez.)

Nem todo o mundo está preocupado com o sexismo e Gina Haspel.

Para Juliette Kayyem, ex-secretária assistente do Departamento de Segurança Interna e professora da Escola Kennedy de Governo da Universidade Harvard, agora que Haspel superou os obstáculos e chegou ao topo, ela precisa ser avaliada por seus méritos.

"Não existe um modo feminino de tratar da segurança interna", disse Kayyem, que trabalhou sob Janet Napolitano na administração Obama.

Fato interessante: Kayyem também observou que, na realidade, tem sido mais fácil para mulheres alcançarem os cargos de comando na segurança nacional – o Departamento de Segurança Interna é presidido hoje por Kirstjen M. Nielsen – do que conquistarem lugares ao nível operacional.

Segundo Kayyem, os agentes de base da CIA tendem a ser homens: "Não é incomum estar em uma sala onde a liderança sênior é mais diversa que os agentes e investigadores".

Podemos aplaudir Haspel por ser a primeira, disse Kayyem. "Mas precisamos saber por que estamos aplaudindo. Gina Haspel é uma mulher que deve ser julgada como gostaríamos que um homem fosse julgado."

Em outras palavras, ela deve ser julgada como queremos que qualquer ser humano seja julgado. Isso é igualdade.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.