28/03/2018 00:05 -03 | Atualizado 28/03/2018 00:30 -03

Dona Suzana: A cozinheira que fez de sua casa um restaurante cheio de afeto

"O mar não vai e volta? A mesma coisa é Suzana. A maré baixa, mas uma hora sobe. Suzana vai atrás."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Suzana de Almeida Sapucaia vive no beco há 40 anos, quando deixou as asas dos pais e casou-se.

Desça a Avenida Contorno, faça o retorno no Bahia Marina, entre no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) – não, não desça a ladeira, vire à esquerda. Logo em frente, entre as paredes cobertas de grafites e um emaranhado de escadarias, se esconde a Comunidade do Solar do Unhão, um presépio de casinhas que vela a Baía de Todos-os-Santos e sua vista de tirar o fôlego.

E se chamar de Gamboa de Baixo, erro comum até entre os soteropolitanos mais atentos, não vai demorar para que uma senhorinha baixinha e de sorriso estampado no rosto te corrija: "Gamboa não! Aqui é Solar do Unhão". Dona Suzana, aos 60 anos, sempre de calça legging, blusinha folgada e chinelo de dedo, é uma das maiores responsáveis pela popularização do lugar. O motivo? Seu Ré-restaurante.

A primeira sílaba do nome do estabelecimento é duplicada por causa da gagueira da proprietária, ela mesmo explica – apesar de a condição ser praticamente imperceptível. Na sua porta, alguns degraus e vielas adentro, duas mesas e duas dúzias de cadeiras são o suficiente para que o espaço não fique vazio um final de semana sequer.

Suzana de Almeida Sapucaia vive no beco há 40 anos, quando deixou as asas dos pais e casou-se. Começou a cozinhar dentro de casa, para os filhos e marido. Mas não demorou para que a fama do seu tempero se espalhasse pela comunidade: "De vez em quando chegava um ou outro perguntando: 'Dona Suzana, a senhora não vende comida não?', aí eu fazia um pratinho", explica.

O mar não vai e volta? A mesma coisa é Suzana. A maré baixa, mas uma hora sobe. E Suzana vai atrás.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Além de cozinhar, ela é quem arruma as mesas, limpa a entrada da casa, os banheiros, compra o peixe e os outros ingredientes na feira do Largo 2 de Julho.

Uma obra no telhado do museu ao lado fez com que a dona de casa começasse a levar a sério a ideia de cozinhar além da família. "Me chamaram para cozinhar para os trabalhadores. Pediram para fazer almoço, mingau... Mas depois da quebrança da obra também não recebi mais nada", relata. Ao findar da reforma, Suzana buscou em outros meios ajudar no sustento da casa: vendeu cerveja nos festejos tradicionais da cidade, lavou roupa "para fora" e chegou a trabalhar na casa de outras famílias – o que, segundo ela, não deu muito certo. "O mar não vai e volta? A mesma coisa é Suzana. A maré baixa, mas uma hora ela sobe. Suzana vai atrás", prometeu.

E cumpriu – mas com um empurrãozinho. Em 2013, Júlio Costa, um dos grafiteiros que estampam as paredes da comunidade e, à época, morador do espaço, perguntou a Dona Suzana sobre a sua fama de cozinheira de mão cheia. "Eu respondi a ele, 'menino, eu não vendo comida não, aqui não é restaurante!', e ele me disse: 'Mas a senhora vai passar a vender!' Ele gostou e disse que ia divulgar. Chamou repórter, começou a sair na internet, eu não esperava!", conta.

A comida baiana preparada pela dona de casa saiu em site, jornal impresso, TV e não demorou para que o espaço de dois metros de largura e dez de extensão fosse tomado pelos curiosos dos mais diversos bairros de Salvador. O mar sossegado e de águas translúcidas completa a paisagem do estabelecimento que é comandado exclusivamente por Suzana: ela é quem arruma as mesas, limpa a entrada da casa, os banheiros, compra o peixe e os outros ingredientes na feira do Largo 2 de Julho. Além de cozinhar, recebe e divide suas histórias com os "convidados".

O pessoal ama o meu tempero! Chega gente de lugar que eu nunca vi. Eu sou humilde, mas trato vocês com todo carinho.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Além de atrair quem jamais imaginaria descer a favela no horário do almoço, Suzana conta que já recebeu gente do mundo todo.

O atendimento é personalizado e intimista, com direito a um: "venha cá me dar um cheiro", da anfitriã, seguido de abraço apertado nos 1,50 cm de altura. "Faz sucesso meu almoço e a cervejinha (risos). Eu não sei o porquê... acho que porque eu faço com amor, me dedico. O pessoal ama o meu tempero! Chega gente de lugar que eu nunca vi. Eu sou humilde, mas trato vocês com todo carinho".

Além de atrair quem jamais imaginaria descer a favela no horário do almoço, Suzana conta que já recebeu gente do mundo todo. Na lista, que ela lembre, há países como França, Alemanha, Colômbia, Argentina e Holanda. "Um gringo que vem aqui de seis em seis meses me entrevistou para uma revista de avião. Eu quase caio dura! Falei: 'moço, pelo amor de Deus, não faz isso não!' Aí ele: 'Mas é para o pessoal conhecer a sua moqueca, menina!'".

Eu sair do meu país para ir para outro? Não! Não saio da minha Bahia.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Na cabeça do cardápio do restaurante de Dona Suzana está que é pescado pela própria comunidade: peixe fresco ou arraia, a depender do dia.

Entre os últimos visitantes, teve gente que quis levar a própria Suzana para casa. Uma chef italiana, de quem ela não recorda o nome – e nem quer! –, convidou a moradora do Solar para se mudar para o país da bota com ela. "A moça veio cheia de conversa, falando que uma cozinheira boa dessa não dava para ficar só aqui. A mulher queria me levar para a Itália! Eu na mesma hora: 'Não, senhora!'. Eu sair do meu país para ir para outro? Não! Não saio da minha Bahia", se diverte.

Dali ela não sai e, chegando por lá, basta bater à porta e pedir. Na cabeça do cardápio, o que é pescado pela própria comunidade: peixe fresco ou arraia, a depender do dia. De acompanhamento, pirão, arroz, feijão-fradinho e pimenta – se pedir com jeito, ela prepara também uma farofinha de dendê. O preço varia conforme a quantidade de pessoas por mesa – quanto mais gente, mais barato fica – mas nunca passa dos R$ 20 (com cerveja e conversa!).

O papo com o HuffPost Brasil aconteceu pouco depois das 9h, e ela lamentou: "Não tem peixe agora! Voltem no final de semana". Dona Suzana, sinceramente, para que a gente volte para casa não é preciso convite.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem:Juh Almeida

Edição:Andréa Martinelli

Figurino:C&A

Realização:RYOT Studio Brasil

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