27/03/2018 00:06 -03 | Atualizado 27/03/2018 12:55 -03

Malu Abib: A mulher que encontrou a realização ao adotar três meninas

Após anos de muita paciência na fila de adoção, ela encontrou a família que esperava por ela.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Malu recebeu uma ligação e, com ela, a confirmação: tinham encontrado sua filha. Mas não era só uma, eram três.

Toda segunda-feira é o dia da doação na casa de Malu Abib, 44 anos. É momento para prestar atenção em tudo que se dá e recebe, mesmo que seja só um sorriso, e depois compartilhar na mesa do jantar. Na terça, a "missão" é outra. Essa é uma das tradições dessa família recém-nascida. Após seis anos de espera, as meninas chegaram em 2017. Uma com três, outra com quatro e outra com seis anos. "Uma galera", como define Malu. Muito empolgada, ela mostra fotos no celular, toda orgulhosa. "Olha que fofas". Bem coisa de mãe mesmo. Já divide também a crise do ano passado com a epidemia de piolho. "Todo mundo pegou, inclusive eu". Mas logo diz que isso é coisa normal, "problema de mãe".

E apesar do trabalho – que realmente não é pouco –, era isso que Malu queria. Uns problemas de mãe. "Elas chegaram e dominaram tudo! Dia desses uma mulher me viu com as três na rua e perguntou se eu não achava falta de um menino. Falei: 'minha senhora, acho falta é de ler um livro' [risos]. É desgastante, mas vale muito a pena". Agora, Malu tem dor nas costas por causa da invasão à sua cama feita pela caçula. "Ela diz que faz isso porque me ama". Precisou fazer uma reforma na casa em São Roque, no interior de São Paulo, para conseguir mais espaço para a – agora – numerosa família. Senta para fazer lição de casa junto, organiza a fila do banho, acorda cedo com a gritaria. Tudo normal para quem tem criança em casa. Finalmente.

Falaram que tinham encontrado a minha filha, mas tinha uma questão: eram três.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela sempre sonhou ser mãe e chegou a fazer três tentativas de fertilização, entre 2011 e 2013.

A ligação da assistente social ocorreu em um dia de chuva em que ela e o marido estavam andando de moto. "Falaram que tinham encontrado a minha filha, mas tinha uma questão: eram três. Fomos conhecer e ver como a gente se sentia em relação a essas crianças. Quando fomos embora, a mais velha já falou: 'tchau, mamãe'. Meu marido já estava chorando no corredor. A gente nem tinha o que conversar. Enxergamos nelas as nossas filhas."

É bem difícil [o processo de adoção]. Você preenche uma ficha para falar como é a criança que você deseja, mas você não sabe. Você sabe que quer ser mãe. Tem que ter coragem e paciência para adotar. Acho que adoção é um tabu.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Para tirar a adoção do lugar do "tabu", Malu trata o assunto com naturalidade dentro e fora de sua casa.

Mas antes disso, ela e o marido enfrentaram anos de tratamento. Malu conta que sempre quis ser mãe e chegou a fazer três tentativas de fertilização, entre 2011 e 2013. "O médico falou que a chance de engravidar era tipo ganhar na loteria." Entraram na fila de adoção e enfrentaram toda a burocracia. "É bem difícil. Você preenche uma ficha para falar como é a criança que você deseja, mas você não sabe. Você sabe que quer ser mãe. Tem que ter coragem e paciência para adotar. Acho que adoção é um tabu e não quero esse tabu para as minhas filhas".

Por isso trata tudo com naturalidade e leveza. Briga, fala mesmo, fica doida. Sabe que é observada na rua quando sai com as meninas – as três são negras e ela o marido são brancos – e não se importa nem um pouco. "A gente para os lugares. Mas eu falo que olham para a gente porque acham a gente bonito. Eu não sinto nada de errado. Eu não vejo notícia ruim. Penso que acham a gente lindo".

Ela acha lindo. Não conta nenhuma história de confusão, frustração e dificuldade com peso na voz. Pelo contrário. Foram muitos perrengues, mas na sua memória tudo soa como uma grande aventura cheia de descobertas, acompanhada de muita risada. "Sou uma mãe adotiva empoderada". Adora destacar as mudanças pelas quais as filhas passaram, afinal não foi só a vida dela que mudou. "Quando elas ganham uma família, também ocorrem muitas transformações. Uma delas mal falava, a outra era toda retraída e agora elas são carinhosas, foram ficando mais tranquilas".

Elas mexem na casa, na vida, trazem alegria e sou muito feliz de ter adotado. Acho que é um belo acerto você pegar uma criança que já nasceu, que já tem uma alma.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O sorriso de Malu deixa claro: ao adotar três meninas, ela ganhou na loteria.

Deve ser porque se sentem em casa de fato. Malu não sabia ainda, mas já tinha um treliche muito antes das meninas chegarem – pensava que quando tivesse um filho já ia ter espaço para um amiguinho. Há alguns anos, foi até Salvador, cidade natal de sua filha mais velha, atrás de uma criança para adotar. Fez três tentativas de fertilização que não deram certo. Até que elas chegaram. "Será que existe coincidência, ou essas crianças já eram pra ser minhas?"

Talvez já fossem mesmo. É assim que ela sente. "É como se tivessem nascido da gente. Elas mexem na casa, na vida, trazem alegria e sou muito feliz de ter adotado. Acho que é um belo acerto você pegar uma criança que já nasceu, que já tem uma alma."

Conta tudo isso em uma segunda-feira. No dia de falar sobre tudo que recebeu. O sorriso enorme no rosto deixa claro: é a expressão de quem sabe que ganhou na loteria.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.