26/03/2018 02:00 -03 | Atualizado 26/03/2018 14:02 -03

Dona Jura: A líder comunitária que trabalha para transformar a vida na favela de Heliópolis

Ela virou empresária e criou cooperativa especializada em serviços de alimentação na região.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Empresária e líder comunitária, Dona Jura, de 59 anos, chegou há 37 anos na comunidade de Heliópolis: não tinha luz, água, moradia.

O clima é de casa de vó. Dona Jura espera do lado de fora, em uma numeração mais fácil de ser encontrada na rua. Não queria dificultar pra gente, imagine só. Já nos recebe com um abraço apertado, uma fala mansa. Em casa, está terminando de passar um café. Vai falando de sua história, dos filhos. Comenta que a caçula vai para Nova York com o noivo. Parece orgulhosa e não deixa transparecer muito que vai sentir saudades. Mas acho que vai. Serve café. Serve água. Oferece doce, um pedaço bem generoso. Oferece tortinha. Deixa o sofá livre para as visitas e senta em uma cadeira. Fala com gosto do espaço que conseguiu para a cooperativa. Solta os cabelos. Acho que é porque vai ter foto. Sorri. Fica na dúvida se deixou alguma panela ligada no fogão, levanta pra ver. Oferece mais doce. Pergunta se está bom, diz que fez no domingo. Quer todo mundo confortável.

Deve ser assim todo dia por ali, com qualquer pessoa que bata a sua porta em Heliópolis, zona sul de São Paulo. E pode ter certeza de que muita gente passa por ali. Empresária e líder comunitária, Dona Jura, 59 anos, chegou à comunidade antes de tudo, há 37 anos. Não tinha luz, água, moradia. Travou, junto com os moradores, todas essas batalhas. Não nasceu ali. Mas é quase como se tivesse nascido tamanha sua ligação com aquele espaço.

Tinham aquela ideia de que mulher não precisava estudar. Eu tinha 17 anos, era analfabeta, não sabia nem assinar meu nome e não me conformava.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Determinada, aos 20 anos deixou Pernambuco para se firmar e construir uma vida diferente daquela que foi planejada para ela.

Juraci da Silva nasceu em Pernambuco. A mais velha de 12 irmãos, tinha a responsabilidade de ajudar a mãe a cuidar desse pessoal todo. Mas queria outra coisa. "Tinham aquela ideia de que mulher não precisava estudar. Eu tinha 17 anos, era analfabeta, não sabia nem assinar meu nome e não me conformava. Prometi para mim mesma que ia sair de lá e estudar."

Precisou de um tempo, mas conseguiu. "Tramei por seis meses. Fiquei fazendo enxoval como mulher que vai ganhar neném. Fui preparando minha mãe, ensinando meu irmão a fazer as coisas e fui par a casa da minha tia. No Recife comecei a estudar, me alfabetizei, comecei a trabalhar". Aos 20 anos foi para São Paulo e logo se firmou em Heliópolis. "Aqui é o nosso berço. Quando eu vim para cá eu não tinha nenhum filho, hoje já sou avó. Construí minha família, minha vida toda dentro de Heliópolis. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida porque aprendi tanto aqui. Falo que eu fiz todas as faculdades que eu queria fazer e com pós- graduação".

Passei por muitas coisas que eu não gostaria, muitas coisas que me deixaram triste, mas superamos e não tenho nenhum motivo para não dizer que tenho uma vida digna aqui.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Uma razão para viver: se envolver nas brigas comunitárias e ajudar a formar uma comunidade melhor para todos.

Foram muitas dificuldades, mas dona Jura sempre vê o copo meio cheio. "Passei por muitas coisas que eu não gostaria, muitas coisas que me deixaram triste, mas superamos e não tenho nenhum motivo para não dizer que tenho uma vida digna aqui. A vida em comunidade, a necessidade faz a gente aprender a se juntar, a brigar, a calar, falar, escutar."

Desde o início, dona Jura se envolveu nas brigas comunitárias e ajudou a formar a comunidade. Sempre com essa vontade de trabalhar em equipe e fazer algo pelos outros, ela desenvolveu diversos trabalhos dentro de Heliópolis. "Você tem que fazer algo com alguém para alguém." Leva esse lema muito a sério. Mesmo depois de se aposentar, queria continuar ativa. Sem essas atividades se sentia inútil.

Minha ideologia é ser multiplicadora, inovar, buscar conhecimento para dentro da cooperativa, transformar.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Em 2013, profissionalizou os negócios e abriu o restaurante e lanchonete 'Ambrosia' com ajuda e assessoria do Instituto Consulado da Mulher.

E isso realmente ela não é. Mais uma vez mobilizou o pessoal para a realização de atendimento sócio educativo na comunidade. Conseguiam trazer advogados, assistente social e ajudavam os moradores. Além disso, dona Jura começou a preparar lanches para oferecer para o pessoal e logo viu que não era suficiente. Juntou um grupo de mulheres que estava disposta a ajudar e cozinhar e disso surgiu outro projeto. Dona Jura foi atrás de um curso de gastronomia para essas mulheres – e conseguiu.

Em 2013, profissionalizou os negócios e abriu o restaurante e lanchonete Ambrosia com ajuda e assessoria do Instituto Consulado da Mulher. Hoje, a Ambrosia é uma cooperativa. As 14 mulheres que fazem parte do grupo se dedicam a cozinhar para feiras, eventos, coffee break. Se sente realizada. "Minha ideologia é ser multiplicadora, inovar, buscar conhecimento para dentro da cooperativa, transformar. Não vale a pena você aprender e deixar só pra você e seu convívio, você tem que distribuir, deixar seu legado".

Para ela, tem que ensinar. Porque, na verdade, aprendeu muito. E como toda pessoa verdadeiramente grata por tudo que acontece em sua vida, acha que precisa retribuir de alguma forma. No fim das contas, ganha quem está por perto.

"Mais um pedaço de doce?" Difícil recusar.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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