COMIDA
25/03/2018 07:00 -03 | Atualizado 26/03/2018 12:06 -03

Por que você deveria optar por ovos de chocolate caseiros nesta Páscoa

Tem muita gente dando duro nesta Páscoa para ganhar uma renda extra. Por que não ajudar a alavancar o negócio e incentivar a economia local?

A Páscoa chegando e os ovos de chocolate parecem cada vez mais tentadores. Há diversas opções no mercado, e é nessas horas que rola a dúvida: qual a melhor escolha?

Certamente marcas famosas passaram pelo seu pensamento. Contudo, por que não investir em um ovo caseiro, feito por encomenda por aquele conhecido ou que chegou às suas redes sociais?

Com a aproximação do feriado, discussões em torno disso inundaram a internet. Usuários levantaram a questão sobre como nós, cidadãos, podemos incentivar a economia local do nosso bairro, cidade e estado adquirindo um ovo de Páscoa caseiro.

De fato, o dinheiro extra dos ovos de Páscoa salvou a renda da chocolateira Lindamarcia Souza, de 53 anos. Ela se divide entre o trabalho de servidora pública na área de educação e vender doces e bolos por encomendas. "Páscoa é o mês que consigo tirar mais dinheiro. Ano passado foram 300 ovos e esse ano deve ter um aumento de 15% nas vendas", comemorou.

Para atender tantos pedidos em sua cidade, Franca, interior de São Paulo, Lindamarcia precisa usar suas férias do trabalho para o mês que antecede o feriado. "Faço casca do ovo, o recheio, vendo de porta em porta, então é mais trabalhoso", disse. "Mesmo com a crise que o País está, tem muito pedido, ano da gente trabalhar, não é?"

Ao HuffPost Brasil, ela conta que vive com sua filha e faz ovos de Páscoa por encomenda há mais de 25 anos. "Algumas coisas que eu adquiri por causa das encomendas, tenho minha residência por causa desse trabalho [de chocolateira], só com o salário de servidora jamais conseguiria adquirir. Sou só eu e minha filha, e só agora ela começou a trabalhar". Ao longo dos anos, ela se especializou na área e fez cursos de ovos de Páscoa ministrados pela Puratos, fabricante de chocolates que desenvolveu cursos para chocolateiros autônomos.

Hoje, ela utiliza o dinheiro extra para pagar contas fixas de casa e manter cuidados médicos. "Nós duas usamos óculos, e precisamos ir ao oculista todos os anos."

Os ovos de chocolate artesanais também ajudaram nas contas da estudante de Propaganda e Publicidade, Gabriele de Oliveira Mello, de 21 anos. Há cerca de um ano, Gabriele começou a fazer doces para vender na faculdade para juntar dinheiro para um intercâmbio.

Arquivo pessoal/Gabriele Mello
Gabriele Mello decidiu intensificar a produção de ovos de Páscoa e doces para pagar sua faculdade.

Porém, não muito tempo depois, sua família passou por dificuldades financeiras e a estudante teve que trancar a faculdade. "Os doces têm me ajudado muito, pois estou agora juntando dinheiro pra terminar minha graduação", contou.

Esta é a primeira Páscoa que Gabriele está vendendo os ovos artesanais e, para isso, ele teve que ralar muito. Sem tempo, nem dinheiro para cursos de culinária, ela aprendeu a fazer trufas e ovos de chocolate pela internet, com ajuda do YouTube e grupos de confeitaria no Facebook.

Assim como Lindamarcia, ela também divide suas encomendas com um trabalho fixo:

"Ter essa dupla jornada é muito cansativo. Em épocas sazonais de grande movimento, como a Páscoa, consigo dormir apenas uma hora por noite muitas vezes, fazendo os ovos e logo já sigo pro meu trabalho fixo pela manhã."

Gabriele conta com ajuda de sua família, amigos e colegas de trabalho para a divulgação e compra. Até o momento, ela vendeu 130 itens, que englobam ovos de colher, cenourinhas e copinhos de ovos.

Arquivo pessoal/Gabriele Mello
Ovos de Páscoa de Gabriele Melo.

"Além de guardar esse dinheiro para a faculdade, o meu retorno financeiro dos doces e dos ovos de Páscoa me ajudam no meu dia a dia complementando meu salário. Ele faz uma grande diferença no final do mês", conta. "Tudo isso vale a pena quando o cliente diz que amou os produtos e que estava delicioso."

A estudante diz que prefere fazer encomendas no próprio bairro, já que não tem carro e precisa usar o transporte público. Mas, isso não chega a ser um problema, comparado aos bons frutos que ela está colhendo. "Esse ano já atingi minha meta. Se tudo der certo, acho que consigo voltar semestre que vem", comemora.

Arquivo pessoal/Gabriele Mello
A estudante comemorou as vendas e espera voltar à universidade no próximo semestre.

A Páscoa e a economia local

Nos últimos anos, milhares de brasileiros perderam seus empregos e não conseguiram se recolocar no mercado de trabalho. A opção, então, foi empreender. De acordo com dados do Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), entre 2014 e 2018, o número de microempreendedores individuais (MEIs) aumentou cerca de 25% na área de fabricação de produtos de padaria e confeitaria com predominância de produção própria. Já no setor de comércio de doces, balas bombons e semelhantes, o aumento chegou a 27,8%.

Para a economista e analista de negócios do Sebrae, Jacqueline Boriam, o aumento de microempreendedores foi impulsionado com a crise econômica, que se aprofundou neste mesmo período. "Existe o empreendedor por oportunidade, que se programou e decidiu abrir o próprio negócio, mas também vemos aquele empreendedor por necessidade, que perdeu o emprego ou precisa aumentar a renda familiar", disse.

Boriam diz que a Páscoa é um dos melhores momentos para o pequeno empresário, pois eles estão ganhando cada vez mais espaço nas vendas. "Ele consegue ter produtos mais exclusivos, mais personificados, e tem mais flexibilidade para oferecer isso do que grandes indústrias", explica.

Os consumidores que adquirem estes ovos caseiros não só ganham mais exclusividade e praticidade, mas também ajudam a economia local. "A população tem que se conscientizar de que comprar de produtor local gera mais empregos, o dinheiro fica na sua cidade, ele é usado para comprar insumos de outros empresários locais, é um efeito cascata", reitera.

Ela lembrou também que cerca de 80% dos empregos gerados em todo o Brasil vem de micro e pequenas.

"Costumamos dizer que comprar de pequeno produtor é transformador. O dinheiro fica no bairro, incentiva a trazer mais renda para dentro do município, desenvolve a comunidade. Você valoriza os pequeno empresário e estimula a inovação."